sábado, setembro 29, 2018

Quero o meu outono

Com temperaturas tão altas, é difícil entrar no espírito do outono, mesmo com a música Autumn Leaves, de Chet Baker.

Hmm, eu quero o meu outono, com dias frescos e agradáveis, em que os seus inconfundíveis aromas se espalham por toda a casa: tartes de abóbora, maçãs assadas, biscoitos de especiarias, pão de bolota.

Eu quero ver as minhas taças de marmelada a secar ao sol suave e não tórrido, como ainda é e já não deveria ser.

Quero as minhas tardes inteiras a rir e a rodopiar, enquanto tento apanhar as folhas que caem, antes delas chegarem ao chão. E não entendo este tempo em que nem brisa há.

Quero o chocolate quente ao fim do dia, ou o chá com scones, e ficar contente com aquele calorzinho bom, que me invade.

Quero voltar aos pratos intensos e quentes, que o outono traz de volta.

Quero os meus longos passeios pelos bosques, cada dia mais belos e maravilhosos. Quero os meus fins de tarde a apanhar bolota, num mundo onde a cor transforma cada folha, deixando-a única.

Quero brincar com as folhas e com as pedras, em efémeras construções de Land Art.

Quero sentir a chuva de outono e saltar nas poças de lama, com o meu filho.

Quero sonhar, imersa no mundo com as cores e os aromas de outono, e ter sonhos maravilhosos!


Autumn by Georges Picard (1857-1942).


sexta-feira, setembro 28, 2018

Happiness is all I need right now


Happiness is all I need right now.

Hmm, creio que vou mudar de música, por mais que goste da música Go To Mexico, da menina Cassandra Wilson. :)

Isto fez-me lembrar o tempo em que eu escrevia com o pseudónimo de Cassandra Sutra. Estranhas esse nome? Se bem me lembro, era perfeitamente adequado. :P Mas isso foi há muito tempo, entretanto a minha escrita mudou. Bem, o meu sentido de humor manteve-se mais ou menos igual, mas o meu nível de transgressão regressou a valores normais. ;)

I'm Only Joking é a música que estou a ouvir agora. Kongos, pois claro! :D

Bem, não restou praticamente nada da escrita desse tempo, só um pequeno conto permaneceu. Um conto de que ninguém gostou, a não ser eu própria. :( 


Os meus pressupostos eram: contos quase completamente absurdos, quase divertidos e que não tivessem propriamente sensualidade, mas que fosse quase sensuais. E consegui tudo isso! ;)

Agora, é outro tempo. Os pressupostos da minha escrita já não envolvem a pura diversão. Na verdade, já nem sequer escrevo contos, só uns posts absolutamente insignificantes, aqui e ali, em que um ou outro é quase interessante e quase motivador. Hahahaha... pelo menos, mantive-me no quase. :P

Mas tenho saudades do tempo em que escrevia outras coisas, coisas que bem podiam ter logo no início a citação desta parte da letra, da música que ainda estou a ouvir:

I'm only joking
I don't believe a thing I said
What are you smoking
I'm just fucking with your head

Então, achas que é possível não gostar de uma música com uma letra destas? Hahahahaha…

Para terminar, deixo uma imagem de uma dançarina. Não a escolhi por ser uma imagem não convencional, escolhi-a porque é simplesmente maravilhosa. A fotografia foi retirada da net, não sei quem é o autor.



quinta-feira, setembro 27, 2018

Mais um dia cheio de sol

Hoje, é um belo dia, cheio de sol, que a voz deliciosa de Hindi Zahra, em Stand Up, deixa ainda mais solarengo.

Standing on your two knees baby, tell me what do you need
Oh, Stand up on your two feet baby, that's how its got to be...

Hmm, será que te posso ainda dizer que esta semana vimos a comédia de Shane Black, The Nice Guys, de 2016.

– Shane Black... não estou a ver quem é.
– Fez Lethal Weapon I e II, nos anos oitenta. The Last Boy Scout, nos anos noventa, com o Bruce Willis.
– Hmm... não sei se quero ver uma comédia dele. E como é que sabes assim tanto acerca desse senhor?
– Estou a ver no IMDb.

Bem, Russell Crowe e Ryan Gosling arrasam, nesta comédia que merece bem o nosso tempo, que é inteligente e divertida, mesmo muito interessante. :)

Hmm... mais alguma coisa? Ah! Bom dia! :D



Erotismo

Hmm, é só mais uma noite em que não consigo dormir. O melhor é aceitá-la e pronto.

Estou a ouvir Black Velvet, de Alannah Myles. É uma música que eu conheço bem. Mesmo assim, surpreende-me cada vez que a ouço, com a sua profunda sensualidade. ;)

Uma das muitas coisas absurdas do nosso admirável mundo novo é que, sem grandes reservas, deixamos que sejam comédias românticas sofríveis e, o que ainda é pior, anúncios banais a definirem a nossa sensualidade. Depois estranhamos que as nossas relações sejam profundamente monótonas e, muitas vezes, pouco satisfatórias.

Eu entendo que não há verdadeiro erotismo, se não sabemos do que gostamos e do que gosta o outro. O erotismo não se traduz numas quantas fórmulas gastas, mas sim na vontade de queremos entender-nos e entender o outro, na aceitação e na partilha das fantasias sexuais.

A música mudou, agora é Mad About You, de Hooverphonic.

Feel the vibe,
Feel the terror,
Feel the pain,
It's driving me insane.

Hmm... o melhor é ir dormir. Ou não. Mudemos apenas de assunto.

Assim, creio que vou transcrever um texto que publiquei noutro lado, em 2008. ;)

O título era: Vem, vem cá...

The Hosting of the Sidhe, W. B. Yeats

The host is riding from Knocknare
And over the grave of Clooth-na-bare;
Caolte tossing his burning hair
And Niamh calling Away, come away:
Empty your heart of its mortal dream.
The winds awaken, the leaves whirl round,
Our cheeks are pale, our hair is unbound,
Our breasts are heaving, our eyes are a-gleam,
Our arms are waving, our lips are apart;
And if any gaze on our rushing band,
We come between him and the deed of his hand,
We come between him and the hope of his heart.
The host is rushing 'twixt night and day,
And where is there hope or deed as fair?
Caolte tossing his burning hair,
And Niamh calling Away, come away.

Niamh, Niamh... Onde está o teu cavaleiro de cabelos de fogo que cavalga veloz e destemido entre noites e dias? Quem escuta ainda o teu chamamento, minha senhora das fadas?... Eles já nem sequer sabem que quando tu chegas, os ventos acordam e as folhas rodopiam pelo ar...

“Vem, vem cá” murmura a tua voz, cada vez mais longe... e o meu coração fica despedaçado, senhora minha, porque não se pode perder o teu chamamento, que transforma as noites de luar em noites misteriosas e mágicas, onde todos os sentidos te enaltecem. Onde nós e o mundo nos tornamos outros, para que no tempo fora do tempo e no espaço fora do espaço, o teu cavaleiro te encontre, senhora.

Celebramos o vosso encontro. E as nossas faces pálidas à luz da lua são os vossos rostos na noite e ao luar. São vossos os cabelos soltos, os olhos brilhantes e os lábios entreabertos. E tu, senhora, regressas de verdade e encontras o teu amado...

Senhora, que os nossos corpos sejam de novo templos, que reencontremos a pureza que nos permita honrar-te com todo o nosso amor e desejo, na floresta que é a tua casa.

Les lucioles (Detail) by Henri Camille Danger, 1896.


quarta-feira, setembro 26, 2018

Café, preciso de café...

Hmm, não há necessidade de mais café, estou completamente desperta.

Só preciso continuar a repetir, mais umas quantas vezes. Na verdade, mesmo muitas. Pois, sessenta e duas mil e quatrocentas repetições fazem uma verdade.

Hmm, nunca te interrogaste sobre o que terá levado o Aldous Huxley a escolher este número e não outro?

Depois, torna-se uma verdade inquestionável. E quem é que quer verdades inquestionáveis? :(

Não seria melhor uma listinha, para me manter acordada?

Cássia, manjerona, cardamono, endro, nardo, tomilho, abrótano, perpétua, urze, zimbro, cardo, cinamomo, junco, alfeneiro, amaranto, narciso, jacinto, açafrão, girassol, acanto, rosa, calêndula, violeta, tulipa, lírio, cedro, murta, jasmim, buxo, aroeira, hera.

Estranhaste a lista? Queres que te diga o que me levou a escolher estas plantas e não outras? Na verdade, não escolhi, a lista não é minha. São algumas das plantas referidas num poema do século XVII, de um grande poeta italiano: Giambattista Marino.

Vou copiar a parte da rosa:

«Arde a rosa de vermelho fogo,
o odor suspira e o orvalho é pranto.»

Maravilhoso, não é? :)

Hmm, onde é que está o café?...


Bolero, de Ravel

Ando com insónias. :(

Talvez o Bolero, de Ravel, me ajude a adormecer.

Hmm, como alguém diz nos comentários deste vídeo:

«You can't compose a song that has the same melody playing for over fifteen minutes and make it sound good.»
Maurice Ravel: Hold my beer.

:P

Esta música é incrível, faz-me pensar em tudo o que é eterno e infinito. :)

Zbigniew Rybczynski, um cineasta russo, fez um filme - The Orchestra, 1990 - baseado nesta música, onde coloca as personagens a subirem ao céu, através de uma escada sem fim.

Por acaso, as personagens são os protagonistas da revolução soviética, que ascendem ao céu, quais anjos e querubins. ;)

É tudo, deixo-te com esse belo pensamento e esta música maravilhosa, agora vou dormir. :)

Link: Maurice Ravel - Bolero

terça-feira, setembro 25, 2018

An Art Made of Trust, Vulnerability and Connection, by Marina Abramović

Hoje, deixo aqui um vídeo de uma artista extraordinária, que nos tira da nossa zona de conforto e que abre a nossa mente a novas possibilidades.

Marina Abramović tem mais de 70 anos e é considerada a avó da arte performativa.

Vamos, então, ouvi-la na sua própria voz.



sábado, setembro 22, 2018

Só uma história conhecida

Olá, doçura. :)

Hoje, tenho uma história deliciosa para ti. Provavelmente já conheces, mas eu vou contá-la na mesma, enquanto ouço Kongos. :)

Woah come with me now
I'm gonna take you down.

:P

Numa certa noite, um polícia viu um homem bêbado à procura de algo, junto a um candeeiro. Aproximou-se e perguntou-lhe se precisava de ajuda. O outro homem disse que sim, tinha perdido as chaves de casa. Após mais de 20 minutos a vasculhar tudo, sempre junto ao candeeiro, sem encontrarem nada, o polícia parou e perguntou ao outro: 

- Tem a certeza de que perdeu as suas chaves aqui?

- Claro que não! Eu não sei onde as perdi – respondeu o outro homem.

- Então, porque as procura aqui? – quis saber o polícia, incrédulo.

- Ora, porque aqui há mais luz!

Não, não é uma anedota. É uma metáfora, que se aplica a todos nós. Todos nós temos desígnios, de diversas naturezas, que simplesmente não se cumprem, porque insistimos em procurar o que nos falta onde é mais fácil procurar, mesmo sabendo que a solução não está lá. 

Take it from me! (Nah, é só o título da música que estou a ouvir agora. ;) )

Hmm, queres uma fatia de bolo caseiro? Pão-de-ló com fios e doce de ovos… mais doce ainda que o pecado! ;)



terça-feira, setembro 18, 2018

Comentários soltos, sem data. 06

Olá. Nem sou capaz de dizer como me sinto esta noite. Vou comemorar. Que queres que te diga? Reescrevi a história do Parsifal (sim, sim, apenas e só porque não tinha nada melhor para fazer) e gostei tanto do final (que, a propósito, me apanhou completamente de surpresa!) que decidi comemorar. :)

Bem, se vou sentir esta alegria toda, o melhor é não ficar por esta história. ;)

And now something completely different... o meu filho, esta semana, do alto dos seus seis anos, redefiniu a minha demanda espiritual, quando eu lhe disse o nome de uma divindade e ele disse que então não era um nome, era uma palavra mágica. O que pensas disso?  :)

Dance of the Nymphs by Nikolaos Gyzis (1842-1901).


Comentários soltos, sem data. 05

Hoje chove, o que é fantástico!  :)

Até agora tem sido um outono muito solarengo. Mas, não sei bem porquê, quase já não ando à chuva. Creio que simplesmente me tornei citadina e esqueci muito do que não deveria ser esquecido.

Hmm, vou usar uma das minhas palavras favoritas: antigamente. :P Antigamente, passear na chuva era algo que me retirava da rotina, que me despertava, que me fazia ver o mundo com um olhar novo, de quem ainda não viu tudo. E não falo de uma chuvinha que mal nos molha, pelo contrário, refiro-me àquela chuva forte e intensa, de inverno, que rapidamente nos gela até aos ossos. :)

O frio acorda-nos profundamente. O problema do mundo moderno não está tanto no frio, como na ausência dele. Muitos de nós vivemos a maior parte das nossas vidas dentro de quatro paredes, sempre com ar condicionado e isso entorpece-nos, adormece-nos, quer queiramos quer não.

Depois, muitos vivem em belos lugares do mundo onde a mudança das estações mal se nota e isso ainda os adormece mais.

Eu não vejo nenhum sentido em reverenciar a mudança das estações per se. :(

Uma das muitas razões por que eu amo Trás-os-Montes é, precisamente, por ser um dos lugares do mundo onde a mudança das estações é mais visível. E se sente mais!

De resto, uma lareira só é verdadeiramente acolhedora num dia intensamente frio. :)


Comentários soltos, sem data. 04

Olha, não sei porquê, lembrei-me da série Rectify e tentei imaginar o que poderia ser estar 20 anos fechada num cubículo, sem nunca poder ouvir música. :(

Do que eu teria mais saudades, da música ou do som da chuva? ;)

Uma cena que me impressionou imenso aconteceu logo na primeira temporada, quando uma mulher lhe fala do modo como gosta da chuva forte num dia quente de verão e ele diz que nada daquilo é real para ele, nem sequer a chuva.

Bem, eu adoro as sensações que vem com o aroma da terra molhada, sobretudo quando isso acontece num dia quente de verão e a intensidade desse cheiro é quase excessiva. :)

Hmmm… também adorei o momento em que ele vai a um museu ver uma pintura, que já tinha visto num livro imensas vezes, e, por alguma razão complexa da mente, é incapaz de sentir a alegria e a admiração que seriam expectáveis. ;)

Sabes, há uma pintura que eu vejo imensas vezes, um quadro antigo de um pintor famoso que, para mim, ao contrário do que indica o título do quadro, representa uma divindade pagã. Por vezes, questiono-me se o meu amor por esse deus existiria se não fosse essa pintura? Ou (que sei eu?) talvez o meu amor por essa pintura só exista por causa de um deus. ;)


Comentários soltos, sem data. 03

Se me permites, vou fazer uma citação, do filme: Beasts of the Southern Wild.

O momento em que Hushpuppy incendeia o barco com o cadáver, que se afasta. E eles dizem: «I watch a ship as she disappears. There, she is gone. And we cry for this. But she's not gone. She's just as real as when she left me. And somewhere else, other voices are calling out: "Here she comes." And that is dying. Here she comes!»  :)

Já viste como a palavra saudade perdeu o seu sentido original? Onde está a palavra intraduzível que nasceu na Galécia atlântica? O doce-amargo português foi esquecido, perdeu-se a alegria, ficando só a tristeza. A palavra que os ingleses traduziam como «the joy of grief», nos tempos modernos parece ser só dor, nada mais do que sentimento de perda ou de ausência.

Contudo, na sua forma arcaica, daqui, da velha Galécia, a saudade na voz do povo era acima de tudo: «Suidade minha, quando te veria?».

É uma pena que se tenha perdido o sentido do reencontro, patente na citação que eu transcrevi, do filme Beasts of the Southern Wild.

Já agora, um destes dias vi um filme de ficção científica que na parte final, em escassos 15 segundos, me fez sentir uma alegria enorme, porque traduzia na perfeição a minha vivência da saudade, numa abordagem bem diferente da habitual, distinta inclusivamente em termos temporais.

About time, 2013. Bem, o filme é quase banal, mas…  ;)

OK, os tais 15 segundos: «The truth is I now don't travel back at all, not even for the day, I just try to live every day as if I've deliberately come back to this one day, to enjoy it»

Adoro a ideia de olhar para o meu dia, por mais insignificante que seja, e imaginar que fiz uma viagem no tempo, que escolhi este dia, precisamente este dia, aparentemente banal e rotineiro, para o viver de novo. Tudo se altera, sabes? :)

Que mais posso eu dizer? Eu quero ter saudades! Mais do que ter saudades do que vivi, quero dedicar-me a criar as saudades no meu futuro e no futuro daqueles que eu amo. E estou sempre a tentar manter isso na minha mente, a tentar viver a saudade...  :)


Comentários soltos, sem data. 02

Não gosto de listas, mas gosto de sonhos. :)

No meu sonho, eu estava com sede. Sentei-me na cama e decidi teleportar-me até à cozinha. O que fiz. E vi-me de imediato numa cozinha, que não era a minha. Fiquei um pouco assustada, mas estava sobretudo curiosa. Espreitei a sala daquela casa e vi lá uma miúda a brincar. Era uma criança que eu conhecia: uma colega do meu filho, que tem o nome de uma flor. E aí pensei que o melhor era sair dali sem que me vissem. Voltei rapidamente para a cozinha, mas, para meu grande espanto, à minha frente materializa-se o Griezmann. Ele trazia na mão o troféu do Cristiano Ronaldo e, aparentemente, queria escondê-lo ali. O que me fez pensar que estava a sonhar e que, possivelmente, andava a ver futebol a mais. Pois. Eu gosto de ver um jogo de futebol, não tanto pelo futebol em si, que não me diz grande coisa, mas mais pelo modo como a minha mente divaga durante aquele tempo…  ;)

Voltando ao sonho: deixo aquele apartamento imediatamente e caminho descalça por uma rua deserta, quando vejo o meu marido a dirigir-se a mim, trazendo na mão um maravilhoso par de sapatos vermelhos. E, nessa altura, o despertador acordou-me.  :(

Eu gosto de sonhar. Quando alguém me diz que não se lembra dos seus sonhos, acho sempre isso triste. :(

Hmmm… Viste a nova temporada de Black Mirror? Sei lá, San Junipero também me deixou triste. Bem, eu não teria dificuldade nenhuma em rejeitar tudo aquilo: praia paradisíaca, sol, sexo e rock’n’roll. Mesmo assim, continuo a achar aquela possibilidade assustadora. A ideia da tecnologia poder transformar uma viagem na viagem é, no mínimo, incómoda. Não é?... Não sei o que sentir acerca dessa eternidade. Mesmo em miúda, o final «viveram felizes para sempre» causava-me verdadeiros pesadelos. O que levou o meu pai a acabar com as histórias de princesas e contar-me, noite após noite, a história de uma batalha.

Não sei em que momento percebi que também se tratava de algo eterno, algo que se repetia vez após vez, sempre com o mesmo final. Mas essa eternidade não me assustava, nem assusta, da mesma maneira. Gosto de pensar que, à semelhança da Teoria dos Muitos Mundos, o final daquela batalha está distribuído por infinitos universos paralelos, contemplando todas as possibilidades.

Hmm… Sim, bem sei, estou a aborrecer-te. Então? É o que eu faço. ;)


Comentários soltos, sem data. 01

Encontrei, num documento do word, uns quantos comentários que eu escrevi a um amigo, ao longo dos últimos três anos. Vou transcrever alguns deles, só porque sim. Sem data, pois no documento não tinham a data. São pensamentos soltos, sem nenhuma importância, mas que eu quero preservar, quem sabe para me surpreender mais tarde? ;)

Olá. Como estás?  :)

Quanto a mim, bem, passei mais duas semanas nas minhas montanhas. Regressei e já sinto saudades. Já te disse como os sonhos são diferentes, naquela velha casa de granito? Estranhos e mágicos. E a magia é algo que escasseia no meu mundo citadino. Será disso que tenho mais saudades? Não sei, de verdade. Talvez do tempo, do tempo que parece perder a forma linear e a rapidez dos dias na cidade, para se espreguiçar e avançar de um modo muito peculiar, permitindo-nos um luxo raro no mundo moderno: acordar por nós próprios e dormir quando temos sono, ou comer quando temos fome.

Já viste como os nossos pensamentos se alteram após uns dias sem o controlo contínuo de um relógio? Quando deixamos de contar os minutos e as horas, a nossa visão do mundo transforma-se. Para mim, pelo menos, isso é verdadeiro. E o que eu aceito como verdadeiro, define-me.  ;)

Hmm… a noite. Mais do que os dias, adoro as noites nas minhas montanhas. Noites em que mal se dá pela presença humana. Noites noitíssimas.  :)

Também adoro a floresta. Aqui a floresta é demasiado humanizada. Lá a floresta ainda é selvagem, um lugar onde facilmente nos podemos perder… ou encontrar-nos. Como encontramos rochas de granito fantásticas, que nunca imaginaríamos que pudessem lá estar. Sente-se a cada instante todo aquele velho mundo a vir ao nosso encontro, a maravilha que pode ser descoberta, em cada mudança de horizonte. :)

Hmm, na verdade, não há nenhum imperativo, nada tem que ser descoberto, pois não? Que procura de um qualquer sentido se pode comparar a acordar, quando se acordar, e simplesmente estarmos felizes?...  :)




sábado, setembro 01, 2018

Soldados bolota

Às voltas com velhos papéis soltos, encontrei este diálogo, que já tem um par de anos.

– Queres ajudar-me a apanhar bolotas para fazer pão de bolota?

– Não, isso dá muito trabalho.

Assim, acabamos a apanhar bolotas para criar uma legião de soldados bolota.

Mais tarde, no mercado, eu coloquei as compras no saco das bolotas, que era o único que tinha. Já a caminho de casa, a criança lembrou-se e quis que parássemos e eu tirasse imediatamente as compras do saco.

– Vais destruí-los.

– Lamento. Agora, não há nada a fazer.

– O quê? Já estão destruídos? – E acrescentou, com um horror em crescendo, – como é que sabes? Já fizeste isto antes?

– O quê? Chacinar uma legião de soldados bolota? – Perguntei com um sorriso. – Garanto-te que é a primeira vez.

Admito que gostei do diálogo e fiquei contente por a minha criança se ter queixado.

Marco Aurélio dizia que se não nos queixássemos, dizendo que fomos ofendidos, a ofensa desapareceria. Creio que ele tinha toda a razão. O problema é que quando simplesmente avançamos e nem sequer nos queixarmos, não é só a ofensa que desaparece, também deixa de ter importância quem nos ofendeu.

(Imagem retirada da net, não sei quem é o autor.)

quinta-feira, agosto 30, 2018

Só e mal acompanhada

Caminho sozinha
Penso sozinha
Sinto sozinha
Ninguém me compreende.

Quero outros
Procuro outros
Espero outros
Que me compreendam.

Os outros entendem e eu não
Os outros aceitam e eu não
Os outros acreditam e eu não.

Só eu é que não me compreendo.


30 de agosto de 2018.

Evening by Gabriel Joseph Marie Augustin Ferrier, 1911.


quarta-feira, agosto 29, 2018

10 - 10 dias, 10 filmes

10/10

Bem, tenho que admitir que só com muito esforço é que impeço o meu louco sentido de humor de terminar este desafio com o filme: I Am Not a Witch, do realizador Rungano Nyoni, 2017. Não o faço porque não era justo, eu incluía-o sobretudo por não resistir à piada pessoal, inerente ao título, e o filme é um drama intenso, que nos leva a muitas e importantes questões.

De resto, eu quero terminar com uma comédia e, por mais voltas que a minha mente dê, sei bem que acabarei por escolher simplesmente a melhor comédia de sempre. Mas isso não impedirá as voltinhas. ;)

Pensei em qualquer coisa recente, mas raras são as comédias recentes que passam de sofríveis. A menos que se trate de comédias românticas, essas, por norma, estão muito abaixo de sofríveis. Uma vez, umas amigas convidaram-me para uma maratona de comédias românticas. Só de me lembrar disso, ainda sinto arrepios… e eu nem sequer fui!

Hmm, filmes recentes, não era? Isso lembra-me o dia, há vários anos, em que encontrei aquele que agora é o meu marido, num chat qualquer. Perguntou-me se eu gostava de cinema. Eu respondi que sim e, de imediato, comecei com Murnau e continuei com Fritz Lang, o que o levou a perguntar que idade é que eu tinha, afinal.

Bem, se escolhesse uma comédia recente, ou seja, deste século, seria possivelmente de Wes Anderson: The Grand Budapest Hotel, 2014, ou The Royal Tenenbaums, 2001. Também gostei muito de algumas de Alain Chabat, por exemplo: La Personne aux Deux Personnes, 2008. Mas, como já referi, escolho simplesmente a melhor comédia de sempre e pronto. :)

Monty Python and the Holy Grail, dir. Terry Gilliam,Terry Jones, 1975.

Os Monty Python são absolutamente intemporais. E este filme é uma obra-prima, cujas cenas podem ser profundamente conhecidas e, ainda assim, mais do que continuarem a ser divertidas, continuam a ter o encanto da primeira vez.

Creio que temos que começar também a celebrar o Dia de Monty Python, cá em casa. O problema é que esse dia celebra-se a 10 de maio e nós já temos o início de maio sobrelotado de festas, mas como o que tem que ser tem muita força… ;)

29 de agosto de 2018.


09 - 10 dias, 10 filmes

09/10

2001: A Space Odyssey, dir. Stanley Kubrick, 1968.

O argumento foi criado por Kubrick em parceria com Arthur C. Clarke, que desenvolveu algumas das ideias do argumento e escreveu um livro com o mesmo nome, publicado quando o filme saiu. Assim, quem quiser uma interpretação, leia o livro do Clarke, tendo em atenção que este filme não é uma adaptação de um livro.

Kubrick quis contar-nos esta história sobretudo através de imagens e fê-lo magistralmente. Eu gosto mais da versão gráfica do Kubrick, do que do livro do Clarke.

Neste filme, Kubrick deu-me um novo mundo, um novo caminho que me desafia, que me afasta completamente do universo familiar onde eu me comprometo e desisto, reacendendo uma pequena centelha que me ajuda a abraçar os desafios da minha vida, a aceitar o que não é familiar ou habitual.

Bem, certas pessoas precisam de muito mais energia para serem pessoas normais, do que precisariam para ser extraordinárias. É um bom pensamento, não é? Se calhar, por ser do Camus. ;)

Este é um dos filmes da minha vida, mas não o referi por esse motivo. Tal como tinha dito antes, seria o acaso que me guiaria. Quis o acaso que, ontem à noite, eu voltasse a ouvir uma música que adoro, cuja letra refere precisamente as frases motivacionais do meu parágrafo anterior e que, na minha mente louca, trazem imediatamente Kubrick à minha memória.

Assim, quase a acabar este desafio dos 10 dias/10 filmes, deixo esta pequena referência a um filme absolutamente extraordinário, que comemora este ano o 50º aniversário do seu lançamento.

28 de agosto de 2018.


08 - 10 dias, 10 filmes

08/10

Hoje, chegou pelo correio uma encomenda maravilhosa que trazia, entre outras coisas, incluindo filmes, um daqueles cartões que vemos na entrada dos cinemas, com super-heróis ou assim. O meu filho era, com sempre, o destinatário. Bem, se fosse Batman, Iron Man, Captain America, já para não falar de imensas personagens do Star Wars, tinha sido uma loucura. Mas não, não era nenhum deles. Era um homem, nem novo nem velho, com um ar rebelde, um olhar penetrante e um meio sorriso, com as mãos fechadas, apoiadas na cintura, numa atitude desafiadora. Eu sorri e só não posso dizer que gostei dele, de imediato, porque não era nenhum desconhecido: eu conhecia muito bem aquela fotografia, que era de alguém de quem eu gosto há muito tempo.

– Quem é? – quis saber o meu filho.

– É um super-herói. – Continuei, perante a estranheza do meu filho, – sabes que nem todos os super-heróis são como o Batman, não? Alguns não têm super poderes, mas fazem-nos pensar e isso é muito importante. – Não o fiz, mas tive vontade de acrescentar que também precisávamos que nos ensinassem a estar a sós e aceitar o silêncio, a angústia e a escuridão.

Mas, admito, não deixei de ficar contente com o facto do cartão do Ingmar Bergman não ser em tamanho natural, isso iria certamente afastar as visitas… ;)

Bem, já se passou muito tempo desde a última vez que vi um filme dele. Mas fico muito feliz que alguém, na Suécia, tivesse decidido incluir o meu filho e, por acréscimo, a mim e ao pai dele, nas celebrações do centenário do nascimento do Bergman. Assim, antes do ano acabar, iremos rever uns quantos dos seus filmes. Naturalmente, o miúdo não. Sei bem que ele é ainda muito novo para a filmografia de Bergman.

Contudo, coloquei um desafio ao meu filho, que só tem nove anos e nunca ouviu falar de Bergman: disse-lhe para olhar para a imagem daquele realizador e, depois, na parte de trás do envelope, imaginar e desenhar uma das personagens dos filmes dele. O meu filho foi buscar os marcadores e eu não consegui deixar de sorrir, imaginando a intensidade da cor que aí viria. Fiquei muito surpreendida com o resultado, cuja imagem também incluo. ;)

Concluindo, escolhi O Sétimo Selo, um filme tão negro e profundo como a noite, cuja principal temática se mantém perfeitamente actual: como resistem as nossas crenças, sobretudo a nossa fé, à constatação de que o mundo está cheio de miséria e de maldade?

The Seventh Seal, dir. Ingmar Bergman, 1957.

27 de agosto de 2018.




07 - 10 dias, 10 filmes

07/10

Ikiru, dir. Akira Kurosawa,1952.

O filme, que escolhi hoje, conta-nos a história do sr. Watanabe, um burocrata exemplar, que nunca faltou ao trabalho em 30 anos. Contudo, há algo a que ele faltou sistematicamente: viver a vida. De repente, descobre que tem uma doença terminal e, nos escassos meses de vida que lhe restam, procura em desespero encontrar um verdadeiro propósito, um sentido para a sua vida.

Hmm, o sentido da vida. Todos nós procuramos um sentido para a nossa vida, certo? Bem, eu penso que a ideia, em si mesma, é uma falácia, que nos leva a acreditar que precisamos encontrar algo, possivelmente externo a nós próprios, que dê sentido à nossa vida. Como se a vida, por ela própria, não tivesse sentido, tendo que lhe ser atribuído. Quando, na verdade, tudo o que precisamos para encontrar o sentido da vida é permitir-nos sentir de verdade, intensa e conscientemente, a experiência de estarmos vivos.

O filme mostra-nos ainda um aspecto importante: por vezes, somos uma espécie de mortos-vivos, durante anos a fio, e nem sequer nos apercebemos disso. Se nos esquecemos de focar a nossa atenção em viver a nossa vida, ela simplesmente passa por nós.

Bem, o que quer que seja que nós façamos, por maior que seja o suposto grau de sucesso que atingimos, se não estamos concentrados na experiência de estarmos vivos, sentindo os momentos únicos de cada um dos nossos dias, então, como dizia Samuel Beckett, estar vivo é como estar morto.

Por mais nobres que pareçam as nossas razões, a verdade é que cada vez que nos afastamos das pessoas ou das coisas que nos fazem sentir verdadeiramente vivos, perdemos um pouco do sentido da vida.

26 de agosto de 2018.


06 - 10 dias, 10 filmes

06/10

Sei bem que disse que não iria falar dos filmes da minha vida, mas afinal vou, pelo menos hoje. 😉

Assim, ao sexto filme, entramos no meu género favorito: ficção científica.

Bem, a lista dos filmes de ficção científica que eu vi é imensa, bem menor aquela dos que gostei mesmo muito. Este é, sem dúvida, um dos meus favoritos.

The Fountain, dir. Darren Aronofsky, 2006.

É um filme fantástico! Que mais há a dizer? :)

Só um pequeníssimo comentário: eu adorei vê-lo só, junto da árvore, tão perto da verdadeira canção da saudade, a canção que nos leva da terra ao céu, que fiquei arrepiada e deliciada, tudo ao mesmo tempo. :) E como o filme era suficientemente vago, eu pude interpretá-lo à minha maneira, também gostei disso. ;)

25 de agosto de 2018.


05 - 10 dias, 10 filmes

A meio do desafio dos 10 filmes, escolho um documentário, sobre um tema pertinente no mundo moderno e global: a solidão.

The Age of Loneliness, Dir. Sue Bourne, 2016.

Bem, eu não penso que a solidão, em si mesma, seja necessariamente uma coisa má. Eu sou uma pessoa solitária, é a minha natureza. É através da solidão que eu me relaciono com as coisas que eu amo: livros, músicas, filmes, esculturas, pinturas, fotografias… e pedras, árvores, paisagens. Também é através de momentos a sós comigo própria, que eu encontro alguma profundidade nos meus pensamentos.
Contudo, este tipo de solidão não é forçada, é uma escolha: alguns momentos a sós por dia, que tem a contrapartida da imensa companhia, profundamente significativa, daqueles que eu amo e com quem vivo.

Naturalmente, não é este tipo de solidão que o filme retrata. O filme mostra-nos uma realidade bem diferente, na qual os filhos crescem e saem de casa, os casamentos acabam, os familiares morrem, os amigos distanciam-se. Assim, num tempo em que a esperança de vida aumentou significativamente e num mundo onde já não temos a proximidade da comunidade, muitas vezes, vemo-nos perante uma solidão forçada, absoluta, que é preciso aprender não a suportar, mas a combater.

Esta solidão, que nos magoa e nos entristece, não surge só quando somos mais velhos, é transversal a todas as idades. A solidão é a consequência natural de um mundo cada vez mais superficial. Paradoxalmente, precisamente por causa dessa mesma superficialidade, a solidão não é aceitável, estigmatiza-nos socialmente. Não ter amigos é, no mundo em que vivemos, algo que nos condena e isola imediatamente.

Por outro lado, a globalização e o mundo virtual não diminuem a solidão, bem pelo contrário, aumentam-na significativamente, na proporção da ilusão que as redes sociais nos transmitem, mostrando-nos centenas ou milhares de amigos. Se temos centenas de amigos virtuais, se lidamos com mais umas quantas centenas no mundo real, onde encontraríamos o tempo necessário para conhecer, um pouquinho que fosse, cada uma dessas pessoas? E por que razão haveríamos de tentar estabelecer relações cada vez mais profundas e significativas? Certamente não por uma questão de moralidade, apenas pelo simples facto de que as relações superficiais não nos afastam da solidão.

24 de agosto de 2018.


04 - 10 dias, 10 filmes

04/10

Ontem, coloquei o post do filme Fahrenheit 451, do Truffaut, e a imagem fez-me pensar nos livros a secar ao sol, do Parajanov. O que, por sua vez, me deixou com vontade de escrever… mas não aqui, não agora.

The Color of Pomegranates, Sergei Parajanov, 1968.

Sergei Parajanov mostra-nos os poemas do grande poeta Sayat Nova, transformando muitas das palavras do mestre em imagens maravilhosas.

Sensível, poético e muito belo, este filme é considerado, por muitos cineastas e cinéfilos, uma verdadeira obra-prima.

23 de agosto de 2018.


03 - 10 dias, 10 filmes

03/10

Hoje, como é o dia do aniversário de Ray Bradbury, escolho um filme baseado numa das grandes obras dele: Fahrenheit 451.

Fahrenheit 451, dir. François Truffaut, 1966.

22 de agosto de 2018.




02 - 10 dias, 10 filmes

02/10

Tal como já referi, não escolhi os filmes da minha vida, apenas filmes que, por acaso, estou a ver ou a rever nesta altura.

Bem, neste caso, este filme surgiu pela relação com a imagem do filme anterior, que a minha mente estabeleceu.

Assim, comecei com a imagem do olho de um cavalo, o que me leva para o próximo filme, através da imagem de um cavalo morto em cima de um piano. Para mim, neste filme, para além da cabeça do cavalo, as duas cenas mais fortes são as seguintes: um homem a cortar com uma navalha o olho de uma mulher e uma mão com um buraco no meio, donde saem imensas formigas (cujas imagens também vou incluir).

É precisamente através destas duas imagens, que dois grandes realizadores fazem deliberadamente uma referência a este filme. A primeira surge no filme Spellbound de 1945, de Hitchcock, em que o olho é substituído por uma cortina com esse motivo, que é cortada no mesmo plano; e a segunda em Blue Velvet, de David Lynch, em que a mão é substituída por uma orelha, também cheia de formigas.

A narrativa é de tal modo estranha que, mais do que interpretar o filme, somos de certa forma obrigados a estabelecer a nossa própria relação entre as imagens, a criar uma história.

É o primeiro filme surreal, cujo argumento e cenários foram criados pelo realizador, Buñuel, em parceria com Salvador Dalí – quem mais poderia ser?

Un Chien Andalou, dir. Luis Buñuel, 1929.

21 de agosto de 2018.




01 - 10 dias, 10 filmes

No início do mês, um amigo deixou-me aqui o desafio de, durante 10 dias, postar uma imagem referente a um filme. Bem, as férias acabaram, assim, porque não? :)

Não irei indicar outras pessoas para continuar o desafio, quem quiser participar, que participe e pronto. Hmm, também não obedecerei completamente à regra de colocar apenas uma imagem, sem palavras, mas andará perto disso. ;)

Enfim, certamente não serão os filmes da minha vida, apenas filmes que, por acaso, estou a ver ou a rever nesta altura. E vou colocar o nome do filme, mesmo não sendo suposto.

Comecemos, então.

01/10

A Torinói Ló, The Turin Horse, dir. Béla Tarr e Ágnes Hranitzky, 2011.

O filme começa com uma voz off que, sem qualquer imagem, nos conta esta breve história:

Em Turim, no dia 3 de janeiro de 1889, Friedrich Nietzsche deixa a sua residência no nº6 da Via Carlo Alberto, talvez para dar um passeio ou apenas para ir buscar a sua correspondência.

Não longe dele, ou realmente mesmo muito longe, um cocheiro tem problemas com o seu cavalo teimoso.

Irritado, o cocheiro perde a paciência e começa a chicotear ferozmente o cavalo, que se mantém imóvel.

Nietzsche avança até à multidão e põe fim àquele brutal espectáculo.

O forte e bigodudo Nietzsche salta para a carroça e abraça o pescoço do cavalo, soluçando.

Mais tarde, um amigo leva-o de volta para casa, onde ele fica deitado em silêncio, por dois dias.

Por fim, diz:
- Mãe, sou um idiota.

E a voz off termina, referindo que do cavalo nada sabemos.

Começam, então, as imagens.

20 de agosto de 2018.


terça-feira, agosto 28, 2018

What Are You Waiting For, by Disturbed.

Estou cansada de ser uma boa pessoa, meramente uma boa pessoa. Eu quero ser tudo. Mas não quero voltar a comprometer-me, não quero voltar a desistir. Quero saudar cada desafio que surgir na minha vida. Quero abrir os meus olhos e nunca mais vaguear às cegas.

Ah! E quero saborear cada minuto da minha vida!

Então, de que é que eu estou à espera?...

Disturbed - What Are You Waiting For [Official Lyric Video]

Sem dúvida, uma canção poderosa. Teve um profundo impacto em mim, desde a primeira vez que a ouvi. É uma música inspiradora, determinada, simplesmente fantástica!

sábado, agosto 25, 2018

Recordando

Do que eu lembro,
o mundo sempre me disse
que eu não aguentava
a tempestade.

Caí
levantei-me,
voltei a cair
e a levantar.

Desesperei,
prometi a mim própria
que não me deixaria cair de novo
e de novo caí
e de novo me levantei.

Mas foram em vão
todas as vezes em que tentei
pois esqueci
no meio do sofrimento
da luta e do esforço
que eu sou
a tempestade.

25 de agosto de 2018.

The Storm, by Pierre Auguste Cot, 1880.


quarta-feira, agosto 22, 2018

Para Ray Bradbury

22 de Agosto de 2018.

Uma voz absolutamente fantástica acabou de me dizer:
«Hello darkness, my old friend
I've come to talk with you again…»

David Draiman. The Sound Of Silence, sim, mas na versão de Disturbed, da qual eu gosto mais do que da original.

Hmm, ainda não te disse olá, pois não? Olá, Ray.

«And in the naked light I saw
Ten thousand people, maybe more
People talking without speaking
People hearing without listening.»

Tens ideia que todos os anos, mais ou menos na altura do teu aniversário, sinto a necessidade de procurar o odor fresco do trevo, erguendo-se nos campos ao lusco-fusco?

Não conheço esse aroma e certamente não será agora, no calor do verão, a melhor altura para o encontrar. Hmm, creio que estou a ser fiel a mim própria, seguindo o meu velho paradoxo pessoal: procuro, para não encontrar.

Eu gosto do cheiro do verão, sabes? Do imediato da maresia até ao subtil cheiro a terra molhada, que se sente sobretudo nestes dias de estio, depois de uma breve tempestade. Gosto do cheiro que fica nas mãos, quando passamos um fim de tarde a apanhar alecrim ou rosmaninho e muitas outras ervas, com nomes não tão poéticos, que o sol indiferente deixou igualmente secas e ressequidas, mas ainda intensamente aromáticas. Gosto do cheiro que se liberta quando abrimos um melão bem maduro. 

Gosto de todos estes aromas quentes e intensos, desde o cheiro forte dos figos a secar ao sol, até ao suave odor das amoras acabadas de apanhar. Aromas que deixam uma marca indelével, mas que não são frescos como o teu odor do trevo.

Fresco e primaveril é o cheiro dos rebentos novos de funcho, nas bordas dos meus caminhos, ou das folhas tenras do manjericão, nos vasos das minhas varandas.

Mas, meu querido, o aroma que eu mais associo contigo é, sem dúvida, o do chocolate. Será possível passar o teu dia sem comer um pedacinho de chocolate? Não me parece.

Bem, quantas vezes já pensei qual seria o teu chocolate favorito, olhando prateleiras com demasiadas marcas, sem encontrar qualquer resposta? Hmm, creio que não encontrar respostas, mais do que fazer parte de mim, é a minha natureza. Haverá alguma contradição em simplesmente continuar a procurar?

Meu querido, eu gosto deste breve momento, quase no fim do verão, em que simplesmente é o teu dia e eu posso parar e celebrar, reler um dos teus contos e lembrar-me de ti, sentindo sempre o meu coração agradecido pelas tuas palavras, por todas as tuas palavras.

Contudo, não é fácil encontrar-te agora, nesta altura do ano, sabes? Um pouco mais tarde, é quase impossível esquecer-te, mas quando o mundo encontra as cores de outubro há tanto a recordar e fica tudo tão absolutamente maravilhoso, tão intenso e tão apaixonante, que tu, meu querido amigo, diluis-te num mar imenso de coisas especiais.

Ah! Quem melhor do que tu, para entender a felicidade do outono?

Assim, nesta terrivelmente quente noite de verão, faço uma pequena pausa no meu mundo moderno e citadino, ao qual nunca pertenci, onde o meu amado tempo cíclico quase não tem lugar e onde eu mal consigo acompanhar a absurda seta do tempo, para fazer um brinde, porque é o teu aniversário. E brindo também ao tempo da magia e do maravilhoso, que está quase a chegar. Brindo com ratafia, que eu faço apenas quando a lua é azul.

Boa noite, meu amigo.

sábado, julho 28, 2018

Bosque dos Poetas

Escrevi este texto em outubro de 2014. Nunca passou disso mesmo, meia dúzia de linhas numa folha qualquer, sem importância. Tinha criado um grupo chamado Tuela, que também não teve pernas para andar. Cancelei o grupo e afastei-me. Agora é outro tempo e eu creio que estou novamente preparada para falhar, por isso aqui vou eu outra vez. ;)

«Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.»
São os Bosques dos Poetas.

O poema é de Eugénio de Andrade. O bosque dos poetas é meu. Não acham que era uma boa ideia construir lá um espaço que seria o nosso bosque dos poetas? Vá lá, participem. :)

O Artur, que é ainda um menino pequenino, vai plantar um negrilho (que eu lhe vou arranjar) junto a uma fraga. Um negrilho para o Miguel Torga, plantado por uma criança. Creio que ele ia gostar... :) O negrilho (Ulmus minor) é uma variedade de ulmeiro (Ulmus campestris), típica de Trás-os-Montes. Assim, o Artur que dizia Olá a uma árvore no parque do infantário (e que foi marginalizado por causa disso), plantará um negrilho para o poeta que falava com o negrilho da sua terra natal, como se falasse com outro poeta.

A um negrilho, Miguel Torga.

«Na terra onde nasci há um só poeta,
Os seus versos são filhos dos seus ramos.
Quando chego de longe e conversamos.
É ele que me revela o mundo visitado.
Desce a noite do céu, ergue-se a madrugada,
E a luz do sol aceso ou apagado
É nos seus olhos que se vê pousada,

Que poeta és tu, mestre da inquietação
Serena!
Tu, imortal avena,
Que harmonizas o vento e adormeces o imenso
Redil de estrelas ao luar maninho,
Tu, gigante a sonhar, bosque suspenso
Onde os pássaros e o tempo fazem ninho!»

Eu plantarei nesse bosque um cedro do Líbano, para o meu querido Khalil Gibran. Não sei bem quando será, porque ainda tenho que arranjar a árvore... mas cedro do Líbano e Gibran surgem na minha mente profundamente associados. :)

Na verdade, nem tem que ser uma árvore, pode ser um arbusto. E não tem que escolher só um poeta, podemos escolher os poetas que quisermos. Mesmo poetas que já foram escolhidos, e colocar lá outra árvore, que, noutro tempo, se entenda estar mais identificada com esse poeta. Na verdade, não há muitas regras. :)

Lembram-se do poema As Amoras, de Eugénio de Andrade?

«O meu país sabe a amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.»

Assim, deixarei um belo canteiro de silvas para Eugénio de Andrade, para poder colher lá amoras no verão e lembrar-me desse poeta maravilhoso. :)

E para o poeta de «une saison en enfer» que outra senão uma árvore maldita? Mas como pode ser maldita uma árvore? Não é sempre mágica uma clareira? «Ah! encore: je danse le sabbat dans une rouge clairière, avec des vieilles et des enfants».  ;)

Eucalipto, para Arthur Rimbaud.
«Mas, hoje, já ninguém consente,
Em nome da Arte, – isto é verídico, –
Que um hexâmetro, qual serpente,
Cinja o esplendor de um Eucalipto;»
Tradução de Pedro Ludgero.

Para Rumi (poeta persa do séc. XIII), uma árvore originária da Persia, uma romãzeira. Para Rumi uma romã, um fruto de mil sementes. :)

«Na árvore de mil ramos todos
os universos se mesclam,
mas tu, na calma da árvore,
percebes a Imensidão.»

E isto é só o princípio. :)

sexta-feira, julho 27, 2018

Na estrada do leite

Agora que já não conseguimos aguentar mais séries (pelo menos, até voltar GoT), voltamos em força aos filmes. Assim, no fim de semana passado vimos On the Milky Road, de Emir Kusturica, 2016.

Bem, tem o próprio Kusturica, como personagem principal, e é um filme estranho e surreal, logo, interessante. Mas, se o sr. Kusturica me permite, tenho uma ou duas coisinhas a apontar. :P

Comecemos com a cena da galinha a cacarejar em frente a um velho espelho, em cima de uma mesa de cozinha, cheia de cerejas. Adorei a imagem, mas parece-me que a força dessa imagem se perde um bocadinho na repetição. É uma imagem indelével, para quê mostrá-la mais do que uma vez?

Passemos, então à cobra: a magnífica, gigantesca víbora. Agradou-me o leite derramado nas covinhas, na estrada do leite, uma velha reminiscência das nossas lendas de serpentes… Depois, a cobra monstruosa que sobe por nós, prendendo-nos com o seu corpo, enquanto a sua cabeça assustadora se dirige para a nossa cara, bem, é simplesmente perfeito. Um eco, nada distante, das nossas lendas das mouras encantadas. Contudo, rebolar com a cobra no chão destrói um pouco esse imaginário…  é forçado e, mais tarde, percebe-se porquê, mas continua a ser forçado. De resto, a simbologia majestosa e pagã da cobra, que nos salva, acaba por voltar, talvez devidamente cristianizada, como símbolo dos nossos pecados, que nos destroem. :(

E que perseguição era aquela? Que tal não nos mostrar os ridículos soldados tantas vezes? Poderiam estar presentes, sem estar verdadeiramente, não? Dando um cariz mágico à já um pouco misteriosa perseguição. ;)

Por fim, a cena da eternamente bela Monica Bellucci a costurar uma orelha decepada, junto a um velho poço, enquanto canta baixinho uma música de embalar... Que posso eu dizer? É simplesmente maravilhosa. Uma cena que certamente voltará cada vez que olharmos algumas pinturas, sentindo no nosso coração o conforto de imaginar um solitário Vincent a ser costurado e acarinhado por tão carinhosa e bela senhora. Não estou a brincar, é sem dúvida algo pelo qual temos que agradecer.

Bem, ainda nesse fim de semana, revisitamos Black Cat, White Cat, de 1998. Uma comédia simples, despretensiosa e genial. Esse sim,um filme fantástico do kusturica. :D


November

Deixo aqui uma pequena referência a um delicioso filme pagão:

November, dir. Rainer Sarnet, 2017.

Hmm, aquele momento em que ele invoca uma força elementar, que lhe diz o quanto lamenta não poder conceder-lhe o que lhe pede. Lamenta, por se sentir grato pela invocação, que lhe deu o som da sua voz. É simplesmente divertido e, ao mesmo tempo, profundamente belo ver aquela força primordial apaixonada pela sua própria voz. Não quer partir, quer ficar, conversar com ele e ouvir-se.

E que voz era aquela? Uma voz que atravessa as nossas células e fica a ecoar no espaço vazio, dentro dos nossos átomos. Hmm, pressinto que da próxima vez que os meus dedos tocarem o corpo desse elemento, a minha imaginação trará aquela voz de volta.

Como é que se pode agradecer algo assim?... :)

November, um filme extraordinário!


quarta-feira, julho 25, 2018

Feel the thunder

Ontem à noite, um amigo virtual apareceu num dos meus sonhos fetiche, em que eu estou deitada de costas na terra quente, em Capri, de noite. A minha viagem pelas estrelas foi interrompida e quando eu lhe perguntei o que queria, disse apenas que queria que eu soubesse o quanto me desprezava. E eu acordei de imediato.

Bem, não consegui deixar de sorrir, mesmo acordando abruptamente de um sonho que eu muito acarinho. A nossa mente é verdadeiramente maravilhosa, não é? Tão querida, a deixar-nos ficar com a ilusão de que nos importaríamos. ;)

Thunder, feel the thunder
Lightning and the thunder, thunder
Thunder, feel the thunder.

É a música que eu estou a ouvir. Sim, bem sei, é terrivelmente popular, mas também é fantástica! E quem poderia resistir a uma banda com um nome tão apelativo como Imagine Dragons? Hmm, o vídeo até tem uma mulher com língua bífida… que é um daqueles sonhos impossíveis, da infância de todas as menininhas, certo? :)

Acredita ou não, quando pensei em escrever qualquer coisinha, aqui, tinha em mente escrever sobre a admiração que o Fellini dizia ter, pelas pessoas que falhavam e persistiam. Sei lá, pareceu-me um bom tema, positivo e tal… Mas distraí-me e o meu tempo esgotou-se.

O que está de acordo com outra das grandes lições dele: princípio e fim.

Não existe fim, não existe princípio, existe apenas a paixão da vida.

Eu gostaria de acrescentar que essa paixão pela vida é inesgotável, renovada a cada amanhecer.

That’s all! :)

25 de Julho de 2018.

segunda-feira, julho 09, 2018

Esperar o inesperado

Ontem à tarde, numa das minhas adoradas florestas de velhos carvalhos, percebi que tinha que repensar, não tanto a minha vida, mas sobretudo a mim própria.

Creio que chegou o tempo de simplesmente entrar no rio e seguir a corrente, onde quer que ela me leve. Sei lá. Cansei-me da ilusão de que detenho algum controlo. E, sobretudo, cansei-me de querer. Agora, simplesmente deixo-me ir com o rio. Ainda assim, tenho que admitir que me custa a entrega. Custa-me não saber o que esperar.

Na verdade, não precisava de me preocupar com isso… bastava perguntar, que o universo respondia. ;)

Hoje, veio mais um miminho no correio, para o meu filho. Não tinham pins (que foi o que eu pedi), mas enviaram canetas, sacos de panos (ele já tem imensos!), postais, autocolantes e ainda o que mostro na foto.

Bem, não consegui deixar de pensar que, mesmo sendo a t-shirt para ele, a resposta era para mim. E, desta vez, só para variar, serei obediente e esperarei o inesperado, sem mais questionamentos. :)

De resto, creio que a vida só nos mostra a sua verdadeira magia e o seu encantamento, se formos capazes de continuar sempre a esperar o inesperado. :)

9 de Julho de 2018.


Felicidade como hábito

Começo por dizer que ontem o meu filho recebeu da Áustria um estojo com uma tesoura, com imensos acessórios de corte, muito giro. Mas não é por isso (pelos objectos diferentes e interessantes, que nunca me passaria pela cabeça comprar) que eu oriento as coisas de modo a que, de vez em quando, ele receba correio. Faço-o porque é importante que ele interiorize que, por esse mundo fora, há imensa gente generosa e simpática, capaz de gastar tempo e dinheiro com desconhecidos, só porque sim.

De resto, é quase obrigatório socorrer-nos de desconhecidos, para continuarmos a acreditar que podemos sair dos rótulos, que tão leviana e facilmente a sociedade nos atribui, e simplesmente sermos quem quisermos ser, sonharmos o que nos apetecer sonhar.

O meu filho quer ser realizador, quando crescer. Hmm, na verdade, se ele soubesse que eu acabei de escrever isto corrigia-me de mediato: «cineasta, não realizador». Não sei bem porquê, mas ele acha que os cineastas podem mudar o mundo. É um sonho tão válido como outro qualquer, que tanto eu como o pai valorizamos.

Hmm… no dia da mãe, o meu filho escreveu que eu era mágica. Bem, posso confessar que isso me deprimiu um bocadinho? É claro que eu sei bem que ele estava a dizer a verdade, é a visão dele. Naturalmente não foi isso que me deprimiu. O que me deprimiu foi o facto de saber que já são poucas as vezes em que eu ainda sou capaz de ter uma visão mágica do mundo… e que se isso ainda acontece é por ele, para que ele preserve a sua visão mágica.

Neste contexto, poderia substituir a palavra mágica por inocente, traduziria de igual modo uma visão sem rótulos, capaz de ver as coisas tal como elas são e não apenas como foram catalogadas e ensinadas.   

Questão: como é que se mantém uma visão mágica ou inocente do mundo? Talvez esperes uma resposta complexa, mas é muito simples: é preciso aprender a gozar a vida, a fazer da felicidade um hábito.

Entre outras coisas, fazer da felicidade um hábito dá-nos, a pouco e pouco, a capacidade de ver para lá da aparência das coisas, desenvolve a nossa sabedoria e a nossa espiritualidade.

Se a felicidade não for uma das características mais marcantes do desenvolvimento do nosso eu transcendente, talvez seja porque não o estamos a desenvolver de verdade…  ;)

31 de Maio de 2018.


Muitas questões sem resposta, nenhuma resposta inquestionável.

Cada vez tenho mais questões e menos respostas. Será do tempo?...

Que tempo é este? Para onde foi o verão, afinal?...

Sinto-me num daqueles dias em que me apetece pegar em dois revólveres, esquecer o velho faroeste e começar a minha tarde já com uma fuga para a Bolívia. Butch Cassidy e Sundance Kid, lembram-se? :)

Ou entrar no universo do meu adorado Fafhrd e ficar por lá durante os próximos 3 dias. ;)

Hmm… westerns ou aventuras de capa e espada, só estou a escolher percursos irremediavelmente condenados ao fracasso. Deveria questionar isso também?

Bem, o melhor é acalmar. Bem vistas as coisas, não há problema nenhum em não ter respostas para umas quantas questões. Desde que não tenha respostas inquestionáveis, creio que ainda está tudo bem. ;)

2 de Julho de 2018.


Quando nos esquecemos de nós próprios

Miguel de Unamuno dizia que quando estamos felizes, esquecemo-nos de nós próprios, de que existimos. Contudo, no mundo em que vivemos, as pessoas estão cada vez mais centradas nelas próprias. O que talvez só queira dizer que há cada vez mais pessoas infelizes. E não seja preciso inferir nenhuma moralidade.

De vez em quando, pergunto ao meu filho de cinco anos o que o faz feliz. A resposta vai mudando, há alturas em que é verdadeiramente surpreendente. :) Ultimamente também tenho perguntado isso a mim própria e, acreditem ou não, às vezes também me surpreendo com a resposta. ;)

A felicidade é uma coisa simples. Por vezes, só não somos mais felizes, ou não fazemos os outros mais felizes, porque nem pensamos nisso...

Sim, bem sei, é uma filosofia de trazer por casa. Mas, é a minha filosofia de trazer por casa e eu gosto dela. :)

Também gosto muito deste tempo que antecede Fevereiro e do seu início. Gosto dos passeios ao fim da tarde, na minha cidade, nestes dias já um pouco mais longos. Gosto de sentir a aproximação da primavera. E hoje de manhã reparei em duas bétulas, acabadinhas de nascer, nos meus vasos. :)

28 de Janeiro de 2015.

Crianças

Frequentemente deparo com artigos ou discussões onde se fala das crianças apenas em termos de crianças bem ou mal comportadas. Contudo, na minha opinião, parece-me que a essa visão das crianças, escapa o essencial.

Christiane Singer disse que a grande infelicidade do nosso mundo vinha de nos encarregarmos da educação das crianças, em vez de as deixarmos tratar da nossa. Eu concordo com ela. Não quer isto dizer que as crianças não devam ser ensinadas, devem! Mas, ao mesmo tempo, cabe-nos também a tarefa de aprender com elas. As crianças transportam para as nossas vidas, a bem ou a mal, níveis de autenticidade e de profundidade a que muitos de nós simplesmente não estamos habituados. É inevitável, faz parte da própria natureza das crianças.

Contudo, no mundo em que vivemos, somos cada vez mais superficiais, temos cada vez mais máscaras e a nossa verdade diluí-se. E só a criança tem a coragem de nos levar aos nossos limites, de nos arrancar as máscaras, as representações que se sobrepõem ao nosso verdadeiro eu. A relação de um pai ou de uma mãe com um filho ou uma filha é uma das relações mais profundas e verdadeiras que podem existir. Na minha opinião, a pessoa que é a/o mãe/pai e a pessoa que é o/a filho/a são, em si mesmas, menos verdadeiras do que a relação que se estabelece entre elas. Digo isto no sentido em que as pessoas inevitavelmente acabam por desaparecer, mas o amor permanecerá, para sempre.
Paralelamente ao nascimento da criança, ocorre o acto de nascer como mãe ou como pai, que é, em si mesmo, um processo sagrado. O sagrado que, quando chega à nossa vida, não deixa pedra sobre pedra. De modo que não me parece certo que se reduza tudo isto a nada e se fale de um modo generalizado em crianças obedientes ou desobedientes, crianças mal ou bem comportadas. A generalização muitas vezes conduz-nos à ilusão do conhecimento. E aquilo que pensamos ver, torna-se de todo invisível. Mas, de certa maneira, já todos nós nos habituamos a ser invisíveis, total ou parcialmente. Ora, as crianças ainda não estão habituadas a isso e querem ser vistas! Da mesma forma que nunca, jamais, abdicam de ver realmente a mãe e o pai. Dou graças por isso! E dou graças por um mundo onde as crianças podem, cada vez mais, ser crianças.

10 de Junho de 2015.

Apenas um post fofinho

Em vez de me concentrar no jogo de futebol, dei comigo a pensar em unicórnios. Como pode ser isso?...

«O unicórnio é um pequeno animal, semelhante ao cabrito, mas ferocíssimo. O caçador não pode aproximar-se dele por causa da sua força extraordinária. Tem um só corno no meio da cabeça.» Do Fisiólogo (sécs. II-III)

O imaginário do unicórnio, promovido pela Disney, é bem mais interessante. Contudo, ao aumentarem-lhe o tamanho, retiraram-nos a idílica imagem do pequeno unicórnio a saltar para o colo da donzela. «Expõem uma virgem imaculada, o animal salta para o seu colo e ela aleija-o», isto é, fere-o mortalmente.

E pronto, era isso.

Agora vou procurar uma imagem de um unicórnio, porque eu gosto de posts fofinhos...

8 de Novembro de 2015.


Um coração agradecido

Um destes dias, li um poema escrito por uma pessoa idosa que vivia num lar, esquecida pelos filhos e pelos netos, ignorada pelos funcionários da instituição onde estava.

Um poema de uma pessoa invisível, pouco tempo antes de morrer. Um poema de alguém que ainda mantinha vivos todos os momentos de alegria e de felicidade: as brincadeiras de criança, os enamoramentos, o grande amor, a felicidade de ver crescer os filhos e a alegria de milhares de pequenas coisas.

Maravilhoso, não é? Alguém que chega ao fim da vida com um coração verdadeiramente agradecido.
Também eu me sinto grata por o Universo me ter relembrado a necessidade de me manter focada no que verdadeiramente importa. É tão fácil cairmos na superficialidade do mundo moderno e esquecermos a gratidão.

Contudo, um coração agradecido é um elemento essencial da felicidade.

Alguém com um coração agradecido pode ser invisível, mas certamente vê o mundo à sua volta. E ver o que está à nossa volta é importante, para mim é bem mais importante do que sermos vistos. :)

13 de Maio de 2016.



Meros acasos

Hum, apetece-me escrever a alguém, um amigo talvez, mas não tenho nadinha de nada para dizer (sim, bem sei, isso nunca me deteve anteriormente), assim, só me resta escrever aqui. Por favor, reconsidera antes de leres este post, eu escrevo muito e raramente digo o que quer que seja de interessante. É assim como poderia não ser.

Bem, escrever o quê? Sim, claro! Poderia referir o último filme que vi, o livro que ando a ler ou a música que estou a ouvir, mas isso demora apenas 30 segundos, não? E eu preciso de um pouco mais…

Filme: Arrival de Denis Villeneuve, baseado no conto Story of Your Life, de Ted Chiang. E devo dizer que gostei muito.

Livro: vou na 3ª página de Lavínia, de Ursula K. Le Guin.

Música: neste momento, um pouco por acaso, estou a ouvir Angel, do álbum Mezzanine, de Massive Attack.

Pois, escasseiam os adjectivos. Ok, então. Hoje sinto-me triste. Apenas porque não vamos passar o Carnaval a Trás-os-Montes e tenho saudades da minha floresta. Gosto da floresta nesta época do ano (e nas outras todas, mas não falemos disso agora), o mundo renasce e isso leva-me a sentir que também eu entro no tempo de todas as possibilidades.

Na semana passada, na madrugada de quarta-feira, estava eu a sonhar com uma floresta maravilhosa, quando o telefone me acordou. Atendi e ouvi uma voz simpática que me disse: «Bambi, acorda! Está na hora de acordares.» Claro que era engano. Não conheço ninguém que considerasse sequer a hipótese de me chamar Bambi. Hum, fico quase com pena de aquele telefonema ter sido um mero acaso, se o sonho e a chamada telefónica estabelecessem uma coincidência, poderia sempre divertir-me a pensar nisso… mas não, trata-se simplesmente de um acaso!

Os meros acasos também me deixam triste.

Hum, talvez fosse possível modificar ligeiramente essa memória. ;)

Lembro-me de uma vez, quando o meu filho tinha quatro anos, regressava da escola e quando eu lhe perguntei como tinha sido o dia dele, depois de pensar um bocadinho, ele respondeu:
- Hoje a Fabiana desapareceu.
- Desapareceu como? Não foi à escola o dia todo? Ou foi de manhã e de tarde já não voltou? Ou, então, estava lá na tua sala e, de repente, do meio do nada, apareceram três aliens verdes e viscosos que agarraram a Fabiana e desapareceram todos no meio do ar?...
O rosto do meu filho mostrou um misto de surpresa e deslumbramento, olhou para mim e disse cheio de entusiasmo:
- Foram os aliens!

Pois! O meu problema é que ninguém me fornece uma lista de possibilidades e a minha imaginação está muito longe de fazer o trabalho que lhe compete. Assim, vejo-me forçada a manter-me nos meros acasos. :(

Nada mais tenho a dizer, por agora. Termino com uma fotografia do meu lugar agreste, remoto e praticamente desabitado. :)

23 de Fevereiro de 2017.