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domingo, dezembro 12, 2021

Sem forma, vaga e incerta...

Antes de ir dormir, deixo um velho poema da maravilhosa Sophia de Mello Breyner Andresen.


Às vezes julgo ver nos meus olhos

A promessa de outros seres

Que eu podia ter sido,

Se a vida tivesse sido outra.


Mas dessa fabulosa descoberta

Só me vem o terror e a mágoa

De me sentir sem forma, vaga e incerta

Como a água.


Para mim não vem nem terror nem mágoa, por me sentir sem forma, vaga e incerta como a água. O terror vem quando me construo ou deixo construir, afastando-me de quem eu sou de verdade. E quem eu verdadeiramente sou é algo que tanto encontro agora, como quando tinha cinco anos e ainda estava completamente despida dos papéis que a vida me iria atribuir.

Na minha modesta opinião, este tempo, que precede Yule, é o tempo certo para nos prepararmos, libertando-nos de velhas máscaras e de velhos rótulos, para encararmos o Sol nascente com a nossa face nua.





quinta-feira, novembro 18, 2021

Coisas que não há que há

Hoje, no dia do aniversário do saudoso Manuel António Pina, deixo aqui um poema do qual eu gosto muito: Coisas que não há que há.


Uma coisa que me põe triste

é que não exista o que não existe.

(Se é que não existe, e isto é que existe!)

Há tantas coisas bonitas que não há:

coisas que não há, gente que não há.

bichos que já houve e já não há,

livros por ler, coisas por ver,

feitos desfeitos, outros feitos por fazer,

pessoas tão boas ainda por nascer

e outras que morreram há tanto tempo!

Tantas lembranças de que não me lembro,

sítios que não sei, invenções que não invento,

gente de vidro e de vento, países por achar,

paisagens, plantas, jardins de ar,

tudo o que eu nem posso imaginar

porque se o imaginasse já existia

embora num lugar onde só eu ia…


Pintura de Amadeo de Souza Cardoso, 1917.

sexta-feira, setembro 25, 2020

Uma rapariga à janela

Não basta abrir a janela 

Para ver os campos e o rio. 

Não é bastante não ser cego 

Para ver as árvores e as flores. 

É preciso também não ter filosofia nenhuma. 

Com filosofia não há árvores: há ideias apenas. 

Há só cada um de nós, como uma cave. 

Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora; 

E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse, 

Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.


Alberto Caeiro


Hoje, o facebook de uma amiga trouxe este velho poema. Bem, na minha vivência da espiritualidade, este poema de Pessoa reflecte uma das minhas ideias principais: a noção de que o sujeito que vê e o acto de ver não são a mesma coisa. Esta noção leva-me à procura de uma representação do mundo, onde eu não detenho o foco central, mas sim o mundo em si mesmo. Contudo, a nossa visão do mundo e sua consequente representação, com o foco no sujeito, em quem vê, mesmo sendo um conceito moderno, está demasiado entranhada e não é nada fácil libertarmo-nos dela. 

Bem, para terminar, deixo uma janela para um mundo antigo, através da fantástica banda Sangre Cavallum e deste maravilhoso álbum Veleno de Teixo. E ainda uma rapariga à janela, de Salvador Dalí.



quinta-feira, julho 02, 2020

Um sonho só acaba, para dar início a outro...

O que é bonito neste mundo, e anima,
É ver que na vindima
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura...
E que a doçura
Que se não prova
Se transfigura
Numa doçura
Muito mais pura
E muito mais nova...

Miguel Torga

É bem possível que um sonho só acabe, para dar início a outro. ;)

Pintura: Fairy Dance, de Hans Zatzka (1859-1945).


Passamos pelas coisas sem as ver

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

O poema é de Eugénio de Andrade, um poeta que eu muito aprecio. Ele tem razão, o mundo deixa-nos assim, se permitirmos. É tão fácil ficarmos meras sombras de quem fomos e de quem queríamos ter sido... Como se luta contra isto? Bem, eu só conheço uma maneira: sendo feliz. A felicidade devolve-nos a nós próprios, deixa-nos inteiros. Se não muda o mundo à nossa volta, muda certamente a nossa maneira de ver esse velho mundo, que amanhece sempre novo, em cada dia. :)


quinta-feira, agosto 30, 2018

Só e mal acompanhada

Caminho sozinha
Penso sozinha
Sinto sozinha
Ninguém me compreende.

Quero outros
Procuro outros
Espero outros
Que me compreendam.

Os outros entendem e eu não
Os outros aceitam e eu não
Os outros acreditam e eu não.

Só eu é que não me compreendo.


30 de agosto de 2018.

Evening by Gabriel Joseph Marie Augustin Ferrier, 1911.


sábado, agosto 25, 2018

Recordando

Do que eu lembro,
o mundo sempre me disse
que eu não aguentava
a tempestade.

Caí
levantei-me,
voltei a cair
e a levantar.

Desesperei,
prometi a mim própria
que não me deixaria cair de novo
e de novo caí
e de novo me levantei.

Mas foram em vão
todas as vezes em que tentei
pois esqueci
no meio do sofrimento
da luta e do esforço
que eu sou
a tempestade.

25 de agosto de 2018.

The Storm, by Pierre Auguste Cot, 1880.


sábado, julho 28, 2018

Bosque dos Poetas

Escrevi este texto em outubro de 2014. Nunca passou disso mesmo, meia dúzia de linhas numa folha qualquer, sem importância. Tinha criado um grupo chamado Tuela, que também não teve pernas para andar. Cancelei o grupo e afastei-me. Agora é outro tempo e eu creio que estou novamente preparada para falhar, por isso aqui vou eu outra vez. ;)

«Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.»
São os Bosques dos Poetas.

O poema é de Eugénio de Andrade. O bosque dos poetas é meu. Não acham que era uma boa ideia construir lá um espaço que seria o nosso bosque dos poetas? Vá lá, participem. :)

O Artur, que é ainda um menino pequenino, vai plantar um negrilho (que eu lhe vou arranjar) junto a uma fraga. Um negrilho para o Miguel Torga, plantado por uma criança. Creio que ele ia gostar... :) O negrilho (Ulmus minor) é uma variedade de ulmeiro (Ulmus campestris), típica de Trás-os-Montes. Assim, o Artur que dizia Olá a uma árvore no parque do infantário (e que foi marginalizado por causa disso), plantará um negrilho para o poeta que falava com o negrilho da sua terra natal, como se falasse com outro poeta.

A um negrilho, Miguel Torga.

«Na terra onde nasci há um só poeta,
Os seus versos são filhos dos seus ramos.
Quando chego de longe e conversamos.
É ele que me revela o mundo visitado.
Desce a noite do céu, ergue-se a madrugada,
E a luz do sol aceso ou apagado
É nos seus olhos que se vê pousada,

Que poeta és tu, mestre da inquietação
Serena!
Tu, imortal avena,
Que harmonizas o vento e adormeces o imenso
Redil de estrelas ao luar maninho,
Tu, gigante a sonhar, bosque suspenso
Onde os pássaros e o tempo fazem ninho!»

Eu plantarei nesse bosque um cedro do Líbano, para o meu querido Khalil Gibran. Não sei bem quando será, porque ainda tenho que arranjar a árvore... mas cedro do Líbano e Gibran surgem na minha mente profundamente associados. :)

Na verdade, nem tem que ser uma árvore, pode ser um arbusto. E não tem que escolher só um poeta, podemos escolher os poetas que quisermos. Mesmo poetas que já foram escolhidos, e colocar lá outra árvore, que, noutro tempo, se entenda estar mais identificada com esse poeta. Na verdade, não há muitas regras. :)

Lembram-se do poema As Amoras, de Eugénio de Andrade?

«O meu país sabe a amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.»

Assim, deixarei um belo canteiro de silvas para Eugénio de Andrade, para poder colher lá amoras no verão e lembrar-me desse poeta maravilhoso. :)

E para o poeta de «une saison en enfer» que outra senão uma árvore maldita? Mas como pode ser maldita uma árvore? Não é sempre mágica uma clareira? «Ah! encore: je danse le sabbat dans une rouge clairière, avec des vieilles et des enfants».  ;)

Eucalipto, para Arthur Rimbaud.
«Mas, hoje, já ninguém consente,
Em nome da Arte, – isto é verídico, –
Que um hexâmetro, qual serpente,
Cinja o esplendor de um Eucalipto;»
Tradução de Pedro Ludgero.

Para Rumi (poeta persa do séc. XIII), uma árvore originária da Persia, uma romãzeira. Para Rumi uma romã, um fruto de mil sementes. :)

«Na árvore de mil ramos todos
os universos se mesclam,
mas tu, na calma da árvore,
percebes a Imensidão.»

E isto é só o princípio. :)

terça-feira, maio 31, 2011

chamamentos

Era madrugada
ainda dormia
o canto dos pássaros
chamava-me:
«está a nascer o dia
anda voar!»
não acordei
e fui voar!

Era madrugada
já estava acordada
o canto dos pássaros
chamava-me:
«está a nascer o dia
anda voar!»
deixei-me ficar
eu não sei voar.

sexta-feira, maio 27, 2011

rotina

Tivesses apenas
o dom do esquecimento
que vem com amores impossíveis
ou sonhos loucos
e a rotina passaria por ti
sem te encontrar.

Talvez nem precises de tanto,
porque os dias
que se repetem iguais
só pertencem àqueles
que não sabem
que a felicidade é um hábito.

certo ou errado

Certo ou errado
são moralidades,
mas se encontrares
sem fórmulas
o sentir
risos e choros
e silêncios
outro nome virá
com a sabedoria e a demência
e certo ou errado
serão apenas memórias...

Só não podes provar o chá
antes das folhas assentarem
porque não estarás a provar o chá...

quinta-feira, abril 16, 2009

espiritualidade do corpo

“É no interior do teu corpo, por muito mortal que seja e apenas com seis pés de comprimento, que existe o mundo e a origem do mundo e o fim do mundo e semelhantemente o caminho que conduz ao nirvana.” Buda

Quero deixar fluir os meus sentidos.
Quero ficar em paz e quero ser feliz.
Tudo o que preciso é comer quando sentir fome,
andar à chuva quando chover
e ao sol quando o dia estiver luminoso.

Tudo o que peço é que me deixem chorar
com todas as minhas lágrimas
quando me apetecer chorar
e que me deixem rir com todo o meu riso
quando me apetecer rir.

sábado, outubro 11, 2008

meu senhor menino

Amor é sentir-te assim terno, suave e carinhoso
junto ao meu coração alegre e palpitante
e com murmúrios e afagares
perder-me no teu corpo
e encontrar-me... nos cânticos puros
de nomes sentidos, que repetimos
até os eternizar... nas tardes que são noites
nas noites que nascem manhãs.

Amor é saber que é o meu riso que te faz rir
que é o meu choro que tu acarinhas
que são as minhas palavras aquelas que tu escutas.

quarta-feira, outubro 08, 2008

O Poeta

















Ninguém contempla as coisas admirado.
Dir-se-á que tudo é simples e vulgar...
E se olho a terra, a flor, o céu doirado,
Que infinda comoção me faz sonhar!

É tudo para mim extraordinário!
Uma pedra é fantástica! Alto monte,
Terra viva a sangrar, como um Calvário
E branco espetro, ao luar, a minha fonte!

É tudo luz e voz, tudo me fala:
Ouço lamúrias de almas no arvoredo
Quando a tarde tão lívida se cala
Porque adivinha a noite e lhe tem medo

Não posso abrir os olhos sem abrir
Meu coração à dor e à alegria.
Cada coisa nos sabe transmitir
Uma estranha e quimérica harmonia!

É bem certo quer tu, meu coração,
Participas de toda a Natureza.
Tens montanhas na tua solidão
E crepúsculos negros de tristeza!

As coisas que me cercam silenciosas
São almas a chorar que me procuram.
Quantas vagas palavras misteriosas
Neste ar que aspiro, trémulas, murmuram!

Vozes de encanto vêm aos meus ouvidos,
Beijam meus olhos sombras de mistério.
Sinto que perco, às vezes, os sentidos
E que vou a flutuar num rio aéreo...


O Poeta, Teixeira de Pascoaes

sexta-feira, outubro 03, 2008

Poemas do passado...

A net tem destas coisas... também encontrei um poema meu que já nem me lembrava de ter escrito. Aqui fica, para registo futuro. :)

vieste nocturno e em silêncio
e sem fórmulas encontraste o meu sentir

apagaste a lua e tudo o que luzia
com a mais clara das claridades
chama que escureceria o deus solar!

na tua visão nua
foram ditas todas as palavras
evocadas todas as vontades
e foste chegada de todas as partidas

agora dormes aconchegado
o teu sono de menino
e eu guardo os teus sonhos...


Escrevi este poema há muito tempo, sem o dedicar a alguém em concreto. Esqueci-me completamente que o tinha escrito. Hoje, quando o encontrei, não consegui deixar de me sentir arrepiada... que é isto de guardar sonhos? Parece-me que o meu guardador de sonhos esteve sempre presente e que somos, de verdade, um só... Será possível?

quinta-feira, julho 24, 2008

Ainda e sempre Kahlil Gibran

Ainda ontem pensava que não era
mais do que um fragmento trémulo sem ritmo
na esfera da vida.
Hoje sei que sou eu a esfera,
e a vida inteira em fragmentos rítmicos move-se em mim.

Eles dizem-me no seu despertar:
«Tu e o mundo em que vives não passais de um grão de areia
sobre a margem infinita
de um mar infinito.»

E no meu sonho eu respondo-lhes:
«Eu sou o mar infinito,
e todos os mundos não passam de grãos de areia
sobre a minha margem.»

Só uma vez fiquei mudo.
Foi quando um homem me perguntou:
«Quem és tu?»

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

mundo real

A criança que brinca com os meus sonhos
ri de mim e da minha adulta descrença...

Eu falo-lhe de despertadores, oito horas de trabalho,
rotinas e preocupações, correrias e cansaços...
e ela mostra-me lugares eternos e imutáveis
onde, diz ela, eu continuo inteira
onde eu sou quem sempre fui ou serei...

Eu acredito na criança
e brinco com o tão celebrado mundo real...
pouso a chávena do meu café da manhã no chão
perto da pedra de Intihuatana em Machu Picchu,
passeio à hora do almoço pelo deserto de Gobi...

E a criança ri quando aqueles que não sonham
me atribuem um rótulo e pensam que isso é que é real...

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

mundos

Olho o mundo fora de mim...
não me é revelada nenhuma verdade
não vejo sentidos para encontrar ou perder
não tenho a luz de um dia iluminado
nem a noite é noitíssima...

Sorrio e sei que estou a olhar para o lado errado
só em mim se encontra o meu caminho
o meu sentido e a minha verdade...

Olho o mundo dentro de mim...
perfume de flores silvestres, de ervas e de romã
azul transparente no apelo do sol
frescura refrescante da água cristalina
e repouso dos prados verdejantes...

quarta-feira, julho 04, 2007

Vitória de Samotrácia


Sem medo e sem arrependimento
entras no mundo dos sonhos e do ar
da vida que se vive a cada momento
sem memórias e sem pesar...

E quem no mar voa contigo, minha amada?
Só aqueles que voam contigo te podem amar!
Quem não tem asas vê-te imóvel e quebrada
e passa pela vida como por ti, sem sonhar...

É esse teu ímpeto do voo que eu amo
a tua força e a tua vontade…
É a tua natureza inteira que eu chamo!...

Senhora, quem de nós tece o encantamento
com a ilusão que é a tua verdade...
com o sonho que à própria vida dá alento?...

quinta-feira, abril 12, 2007

Mude - Edson Marques

Mude,

mas comece devagar,
porque a direção é mais importante
que a velocidade.

Sente-se em outra cadeira,
no outro lado da mesa.
Mais tarde, mude de mesa.

Quando sair,
procure andar pelo outro lado da rua.
Depois, mude de caminho,
ande por outras ruas,
calmamente,
observando com atenção
os lugares por onde
você passa.

Tome outros ônibus.
Mude por uns tempos o estilo das roupas.
Dê os seus sapatos velhos.
Procure andar descalço alguns dias.

Tire uma tarde inteira
para passear livremente na praia,
ou no parque,
e ouvir o canto dos passarinhos.

Veja o mundo de outras perspectivas.
Abra e feche as gavetas
e portas com a mão esquerda.

Durma no outro lado da cama...
depois, procure dormir em outras camas.

Assista a outros programas de tv,
compre outros jornais...
leia outros livros.
Viva outros romances.

Não faça do hábito um estilo de vida.
Ame a novidade.
Durma mais tarde.
Durma mais cedo.

Aprenda uma palavra nova por dia
numa outra língua.
Corrija a postura.
Coma um pouco menos,
escolha comidas diferentes,
novos temperos, novas cores,
novas delícias.

Tente o novo todo dia.
O novo lado,
o novo método,
o novo sabor,
o novo jeito,
o novo prazer,
o novo amor.
A nova vida.

Tente.
Busque novos amigos.
Tente novos amores.
Faça novas relações.

Almoce em outros locais,
vá a outros restaurantes,
tome outro tipo de bebida
compre pão em outra padaria.
Almoce mais cedo,
jante mais tarde ou vice-versa.

Escolha outro mercado...
outra marca de sabonete,
outro creme dental...
tome banho em novos horários.

Use canetas de outras cores.
Vá passear em outros lugares.
Ame muito,
cada vez mais,
de modos diferentes.

Troque de bolsa,
de carteira,
de malas,
troque de carro,
compre novos óculos,
escreva outras poesias.

Jogue os velhos relógios,
quebre delicadamente
esses horrorosos despertadores.

Abra conta em outro banco.
Vá a outros cinemas,
outros cabeleireiros,
outros teatros,
visite novos museus.

Mude.
Lembre-se de que a Vida é uma só.
E pense seriamente em arrumar um outro emprego,
uma nova ocupação,
um trabalho mais light,
mais prazeroso,
mais digno,
mais humano.

Se você não encontrar razões para ser livre,
invente-as.
Seja criativo.

E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa,
longa, se possível sem destino.

Experimente coisas novas.
Troque novamente.
Mude, de novo.
Experimente outra vez.

Você certamente conhecerá coisas melhores
e coisas piores do que as já conhecidas,
mas não é isso o que importa.
O mais importante é a mudança,
o movimento,
o dinamismo,
a energia.
Só o que está morto não muda!

Repito por pura alegria de viver:
a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não
vale a pena!!!

Edson Marques - http://mude.weblogger.terra.com.br/