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quarta-feira, novembro 24, 2021

Swing

Dentro de cada um de nós existe um swing próprio, autêntico. Algo com que nascemos, que é só nosso, que não se pode ensinar ou aprender. Algo que não podemos esquecer. Mas ao longo do tempo, o mundo pode privar-nos desse swing. Fica enterrado dentro de nós, sob o peso das desculpas que arranjamos para o que devíamos ter feito. Algumas pessoas até se esquecem de como era o seu swing...»

Somos condicionados, desde crianças, a pensar que há um caminho para a felicidade, de tal modo que nos habituamos a ver a felicidade como algo que irá acontecer no futuro, quando várias premissas se concretizarem. 

Na verdade, não há nenhum caminho que nos conduza à felicidade, porque a felicidade é que é o caminho.

Contudo, para entrar nesse caminho, precisamos do nosso swing... e, por mais que eu esteja a ser repetitiva, irei continuar a dizer isto. Faço-o, em parte, para me ensinar a mim própria. Também eu preciso de reencontrar o meu swing e dançar nas clareiras ao luar.

:)

Termino com esta pintura mágica: Le villi, 1906, de Bartolomeo Giuliano.



sexta-feira, setembro 25, 2020

Uma rapariga à janela

Não basta abrir a janela 

Para ver os campos e o rio. 

Não é bastante não ser cego 

Para ver as árvores e as flores. 

É preciso também não ter filosofia nenhuma. 

Com filosofia não há árvores: há ideias apenas. 

Há só cada um de nós, como uma cave. 

Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora; 

E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse, 

Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.


Alberto Caeiro


Hoje, o facebook de uma amiga trouxe este velho poema. Bem, na minha vivência da espiritualidade, este poema de Pessoa reflecte uma das minhas ideias principais: a noção de que o sujeito que vê e o acto de ver não são a mesma coisa. Esta noção leva-me à procura de uma representação do mundo, onde eu não detenho o foco central, mas sim o mundo em si mesmo. Contudo, a nossa visão do mundo e sua consequente representação, com o foco no sujeito, em quem vê, mesmo sendo um conceito moderno, está demasiado entranhada e não é nada fácil libertarmo-nos dela. 

Bem, para terminar, deixo uma janela para um mundo antigo, através da fantástica banda Sangre Cavallum e deste maravilhoso álbum Veleno de Teixo. E ainda uma rapariga à janela, de Salvador Dalí.



quinta-feira, setembro 24, 2020

Manhã de chuva

Post que coloquei no facebook:

Acordei triste esta manhã, mas hoje está um belo dia de chuva, não é um dia para se estar triste. :) A chuva, como tudo na vida, é mais bela quando é sentida. Como disse Bob Dylan, uns sentem a chuva, outros apenas se molham. Eu não quero ser dos que apenas se molham... :)

Termino este pequenino post com uma alegre pintura de Pete Rumney e com um segredo... :) O segredo vi-o ontem no facebook de uma amiga e dizia que o adulto acredita no que existe, mas a criança só existe no que acredita. Já não sei de quem é a frase, mas sei que me fez sorrir quando a li. Eu tenho gostos simples, gosto de coisas que me fazem sorrir. :)

Bom dia. :)











Depois, em resposta a alguns comentários, deixei dois pensamentos que transcrevo, talvez para voltar a eles mais tarde... 

«Para mim, tal como para Pessoa, tudo é símbolo e analogia. Também eu falo da beleza de andar à chuva, quando chove, ou ao sol, quando está sol. Sei bem que um dia de chuva ou um dia de sol deviam ter encanto em si mesmos, mas temo que tudo se misture e que sejam as memórias que atam e desatam o sentimento. É a demanda pela eternidade, não é? Hmm, gostas de Dalila Pereira da Costa? "Ah, mas sinto que nada mais hoje devia ter feito, dito, do que pensar, fundo, reviver, reaver, essa vida num dia."» 

«Se calhar, digo eu e eu engano-me muitas vezes, o dia que amanhece com chuva deprime-te porque sentes que não há ali nada teu, naquele amanhecer. Mas já houve e pode haver de novo… "Ah, a frescura das manhãs em que se chega…" como dizia Pessoa. Bem, eu creio que mais importante do que chegar a algum lado, talvez seja chegarmos nós à manhã que começa. Não sentes que nos deixamos repartir por muitos lugares e por muitas preocupações? Ultimamente, eu sinto profundamente a necessidade de aprender a reagrupar o meu eu e simplesmente chegar… chegar à frescura das manhãs, quer sejam de sol ou de chuva.»



sábado, julho 04, 2020

Filmes em família.

Esta noite foi uma noite como muitas outras, durante o verão. Vimos dois filmes em família. Sim, dois. Naturalmente, por duas simples razões: somos excessivos e um filme acaba muito antes do sono chegar. Começamos com uma comédia de 2014: Alexander and the Terrible, Horrible, No Good, Very Bad Day. Não posso dizer se é ou não uma boa adaptação do livro de Judith Viorst, uma vez que nunca o li. Mas posso dizer que gostei do filme e que me ri bastante.

O segundo filme foi outra adaptação de outro livro famoso, este muito mais conhecido por cá: O Jardim Secreto, de Frances Hodgson Burnett. Tratou-se do filme de 1993, de Agnieszka Holland, que é lindíssimo. Eu também gostei muito do filme dela de 2017, Pokot. Mas esse não é nada adequado para ver com uma criança de 11 anos. Pelo contrário, Jardim Secreto é perfeito para terminar uma noite de cinema em casa e em família, que se quer bela e mágica. :)


quinta-feira, julho 02, 2020

Um sonho só acaba, para dar início a outro...

O que é bonito neste mundo, e anima,
É ver que na vindima
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura...
E que a doçura
Que se não prova
Se transfigura
Numa doçura
Muito mais pura
E muito mais nova...

Miguel Torga

É bem possível que um sonho só acabe, para dar início a outro. ;)

Pintura: Fairy Dance, de Hans Zatzka (1859-1945).


Passamos pelas coisas sem as ver

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

O poema é de Eugénio de Andrade, um poeta que eu muito aprecio. Ele tem razão, o mundo deixa-nos assim, se permitirmos. É tão fácil ficarmos meras sombras de quem fomos e de quem queríamos ter sido... Como se luta contra isto? Bem, eu só conheço uma maneira: sendo feliz. A felicidade devolve-nos a nós próprios, deixa-nos inteiros. Se não muda o mundo à nossa volta, muda certamente a nossa maneira de ver esse velho mundo, que amanhece sempre novo, em cada dia. :)


quarta-feira, junho 24, 2020

Cariatide tombee portant sa pierre, de Rodin.

Um post do face, de rochas numa praia em África, levou-me a pensar numa conhecida escultura: Cariatide tombee portant sa pierre, de Rodin.

Rodin fez mais do que uma Cariátide caída...  Para quem não se lembra, Cariátide é o nome dado à figura de uma mulher, tipo coluna, que era usada como poste de sustentação da parte de cima de um edifício, na Grécia antiga.

O nome vêm de outras Cariátides, raparigas que dançavam para a deusa Artemis e que, nas suas danças circulares, carregavam na cabeça cestos com juncos.

Admito que tudo isto me agrada. Gosto da sonoridade da própria palavra, gosto da ideia da dança em círculos, com plantas a sair das  cabeças das jovens, e gosto da arquitectura grega. Naturalmente, também gosto da escultura de Rodin, com a bela Cariátide abraçando-se a si própria, ao mesmo tempo que o peso da pedra que carrega a derruba e a destrói. Há imensa beleza e compaixão, que me emociona. :)

Braga, 22 de junho de 2020.

sexta-feira, abril 17, 2020

Um melro ao crepúsculo...

Dantes era azul
a cor dos sonhos
e a imensidão do mar
por navegar.
(…)

Começa assim um poema de Maria Alberta Menéres. Nem sei por que razão isso me ocorreu, neste instante, enquanto olho lá para fora e vejo as tílias, viçosas e luxuriosamente verdes, a dançar com o vento.

Ontem, igualmente ao fim da tarde, quando o sol já desaparecia a oeste, eu também estava aqui, no mesmo sítio, sentindo que precisava de um sinal, um sinal qualquer, só porque sim. Nesse instante, um melro pousou na grade junto à pequenina e intensamente florida macieira, que cresce num vaso na minha varanda. E o melro deixou-se ficar quieto, simplesmente a olhar para mim, ou para o meu mundo, ou para outra coisa qualquer. Um melro ao crepúsculo é, sem dúvida, um sinal. Ainda assim, eu hoje continuo aqui, no mesmo lugar, quase igualmente desorientada e distraída.

Não o fotografei, quando me levantei para ir buscar o telemóvel, o melro voou para longe. Contei ao meu filho, que se riu e me disse: «se não o fotografaste, não conta!». Isso fez-me sorrir. Mas, agora, começo a questionar-me se ele não estaria certo…

Neste instante, noutro lugar, alguém acabou de fotografar um melro, ao crepúsculo. E sentiu a força desse sinal. Hmm, como é que eu posso ter tanta certeza? Na verdade, não é uma questão de fé. Acabei de receber um email, não com uma fotografia, mas com um vídeo de um belo pássaro negro... ;)

Azul. Azul é a minha cor favorita, por muitas razões. Também porque dantes era azul a cor dos sonhos e a imensidão do mar por navegar.

Maria Alberta Menéres morreu esta semana. Ontem, também morreu Luis Sepúlveda, outro escritor que eu muito aprecio. É triste. É a vida, que começa para uns e acaba para outros.

Termino com uma ilustração de Jeanne Waltz.

Boa noite.


sábado, novembro 23, 2019

Vitória da Samotrácia

Eu adoro esta estátua. A maravilhosa e alada Vitória da Samotrácia faz parte de mim, há muito tempo. Já fazia parte de mim quando adolescente vi, pela primeira vez, o pôr do sol sobre o mar. Talvez pela forma de proa de embarcação da sua base, ligada às suas magníficas asas, talvez por outras razões que não identifico, a verdade é que facilmente a imaginei lá, nesse momento em que o céu se liga ao mar. Depois, bem, depois imaginá-la lá nesse instante e nesse lugar onde o sol desaparece no horizonte do mar, tornou-se quase tradição, para a minha mente estranha e absurda. :)

Hmm, eu sei bem que aquilo que amamos, amamos a sós... e daí? ;)


quarta-feira, novembro 20, 2019

Umbilicus rupestris

Estou a saborear um novo chá, que é delicioso. E a música de Eivor ecoa nas minhas células, enquanto penso no umbigo de vénus. Na verdade, nunca entendi por que razão se pode dizer verde alface e não verde umbigo-de-vénus. Eu adoro esta plantinha, que é um umbigo lindo, lindo. :)

Todos os dias, durante a semana, passo junto a um longo muro, onde os umbigos se multiplicam, levando-me a imaginar aquelas pequeninas e sexys vénus verdes, pelo muro fora. Ao mesmo tempo que a música invade a minha mente. Som e visão, as duas formas perceptivas que os gregos mais valorizavam, mas não as minhas prediletas.  

Bem, os gregos, mestres da beleza, pintaram os cabelos de Afrodite de azul. Eu, pela minha parte, gosto de imaginar aquelas pequeninas vénus verdes, que no suave toque reintroduzem em mim a energia da vegetação. Assim, aquele muro transforma-se, modificado pelas relações que eu estabeleço e que fazem dele uma espécie de berço ctónico, telúrico e primitivo, ligado à pátria granítica. 

O valor sagrado que as sociedades primitivas atribuíam, por exemplo, a certas rochas, não residia nas rochas em si mesmas, mas naquilo que representavam, porque imitavam alguma coisa, porque vinham de algum lado especial, em suma, porque tinham em si algo diferente delas mesmas. O mesmo se passa com o meu berço ctónico.

Se a consagração, a sacralização se fazia pela via da imaginação, já a verdadeira participação naquele poder mágico/sagrado fazia-se sobretudo pelo toque, bem mais do que pela litania ou pela invocação.

Pronto, fico por aqui. Até porque o chá já acabou e, agora, os meus pensamentos são outros.



quinta-feira, novembro 07, 2019

Viagem de comboio na Linha do Tua


Já passa muito da meia-noite, é outro dia. Mas, para mim, ainda não é. Ah!, que sugestão maravilhosa! Bem, hoje foi um bom dia, mas este final transforma-o, torna-o memorável. Muito obrigada! :)

Durante cerca de meia hora, fui novamente a miúda que adorava esta viagem e que raramente parava de olhar o rio Tua, em baixo, ora quase ao nível da linha, calmo e pacífico, ora longínquo, no vale profundo, correndo selvagem pelo meio das pedras. Neste vídeo o rio mal se vê e isso levou-me a pensar que talvez, na minha própria peregrinação, o elemento fundamental, que define tudo o resto, também seja apenas intuído.

Bem, em tempos, escrevi aqui, na minha clareirazinha, o seguinte: «Eram 6 horas da manhã e eu estava com a minha família, na estação dos caminhos de ferro, à espera de comboio. Pouco antes de chegar o comboio, veio a correr um miúdo pouco mais velho do que eu, com quem eu tinha brincado as férias todas. Aproximou-se e deu-me dois beijos, despediu-se de mim. E quase de imediato, entrei no comboio. Percorri a linha da Tua, até Mirandela, num estranho estado de desligamento... Não sei se estava ou não apaixonada. E esses termos ainda não existiam para mim, na altura. Mas, para sempre, dentro de mim, as estações de comboios e, em especial, a linha do Tua, ficaram associadas a algo que nos transporta para fora de nós próprios, a uma estranha sensação de agigantamento.»

Tinha 12 anos e essa não foi a primeira viagem que eu fiz na linha do Tua, mas foi a primeira vez que a paisagem me disse claramente quem eu era. Foi a primeira vez que eu senti, de verdade, a canção da saudade, a subir da terra ao céu. Bem, quando penso nisso, sou levada a crer que a primeira vez que a saudade se manifestou - a saudade galaico-portuguesa, que não é uma palavra, mas sim um método de ascensão, de transfiguração – foi muito mais tarde, mas não é verdade, foi aqui, através da paisagem.

Esta viagem já não se pode fazer, a não ser virtualmente ou por via da memória. Mas, esta noite, que bom que foi fazê-la de novo, tão inesperadamente, como um presente perfeito.

Era uma viagem que durava duas ou três horas, o vídeo está acelerado, mas isso não importa. Foi maravilhoso fazer novamente esta viagem e levar comigo as pessoas que eu amo, recriando completamente aquele momento do meu passado. Obrigada!


Viagem de comboio na Linha do Tua.

quinta-feira, outubro 24, 2019

Batata coração.

Hoje, ao descascar as batatas para o jantar, encontrei esta belezinha pequenina, a lembrar Agnès Varda e o seu filme Les glaneurs et la glaneuse, E, mais do que isso, a recordar-me o amor imenso que colocamos nas pequenas coisas. Trouxe-me também à memória um episódio com o meu filho, ainda muito pequenino, a acusar a avó de que ela não cozinhava com amor. E quando ela quis saber por que razão ele dizia tal coisa, ele limitou-se a acrescentar: «porque a tua comida não sabe bem!».

Assim, entre outras coisas, fiz um bolo de chocolate com muito, mesmo muito amor. Hmm, está uma delícia! ;)


Mais pensamentos soltos...

Bom dia. :)

Hmm, por onde começo? Bem, o músculo da minha perna ainda não está bom. E, vê só, agora só consigo andar de saltos bem altos. Hmm, qual era a mensagem do universo, afinal?... ;)

Na verdade, não quero saber das mensagens do universo, importa-me o que eu quero!...

Ontem à noite, uma amiga desejou que os meus dias fossem leves. Respondi-lhe o seguinte:

«Minha querida, agora que penso um pouco mais nisso, bem, não estou muito certa de querer que os meus dias sejam leves… ;) Que posso eu dizer? Mais do que portuguesa, eu sou uma mulher do norte. Tenho a saudade na alma. Eu quero que os meus dias sejam intensos, duma felicidade transbordante, mesmo que também sejam, como na canção, um abismo antigo onde voar é abrir as asas e sangrar. :) Não te assustes, por favor, isto sou só eu a ser eu própria. ;) E, no fundo, entendo bem a beleza e a alegria desse teu dia leve… leve e puro, como diria a minha adorada Sophia, e livre como o vento… como o florir das ondas ordenadas. :) Não a lês, pois não? Sophia de Mello Breyner Andresen. Tão, tão maravilhosa! :) Hmm, o meu amado Fernando Pessoa também gostava do vento, dizia que às vezes ouvia passar o vento… e só de ouvir o vento passar, valia a pena ter nascido. :) Boa noite, minha querida, que os teus dias sejam felizes! :) »

Transcrevi este comentário, só para te dizer que é realmente isso que eu quero: que os meus dias sejam felizes!

Se queres mesmo viver, então deixa que invadam os teus sentidos como um sonho e que corram nos teus sonhos como uma sombra... sim, bem sei, são novamente palavras do Pessoa. Mas há tantas, tantas palavras dele na minha mente... Tanto de mim, que é dele. 

Que mais? Esta manhã, li uma carta que alguém me escreveu, a propósito do meu blog peregrinar. Como a carta estava em castelhano, não percebi tudo, mas sei bem que me insultou-me q.b. Ainda assim, fiquei deliciada. Disse-me que eu tinha ideias interessantes, mas que não as desenvolvia, que eu escrevia muito pouco, que não tinha nenhuma consideração pelos meus leitores. Foi isso, eu não sabia que tinha leitores e isso, por si só, fez deu ao café um gostinho diferente. ;)

Depois, não sei de todo porquê, deu-me para ouvir Wham!... Wake me up... 😲

Que queres que te diga? Eu também estou confusa. A minha mente está a reagir a isto de eu, agora, andar sempre de saltos altos, de um modo muito peculiar. O que quer dizer que possivelmente está tudo bem, uma vez que a minha mente reage de um modo muito peculiar praticamente a tudo. :P

Hmm, dançamos?... :)

Ok. Então, vou voar!... :P


terça-feira, outubro 22, 2019

Pensamentos soltos...

(A propósito de uma memória no face, que me mostrou um folar feito em 2017, no dia 22 de Outubro.)

Hmm... se eu fizer hoje um folar e fizer de conta que no ano passado, neste dia, também fiz um... bem, começo uma espécie de tradição, não? :P

Pois, até parece que eu não gosto de tradições, não? Ora, eu adoro velhas tradições, mesmo as que começaram de um modo tão absurdo, como a que acabei de referir.  ;)

Outono de 2017? Se bem me lembro, e eu lembro-me de tudo, nesse mês de outubro, eu queria, porque queria, que um amigo acabado de conhecer, cujo pai tinha nascido numa aldeia a escassos 3 km da minha, me permitisse mostrar-lhe a ele e à família aquele mundo. Um mundo onde as velhas tradições ainda são o que sempre foram. Um mundo misterioso e mágico, como dificilmente se encontram, muito dificilmente. 

Hmm, isto está a ficar um bocadinho aborrecido, até por se estar mesmo a ver que ninguém quer saber das minhas rotas de peregrinação pela paisagem, pelo corpo da minha tribo. E isso aborrece-me. Assim, acho que vou deixar o meu alter ego escrever por mim… :P

Pensas que o meu alter ego é uma miúda de 17 anos, que gosta de viajar pelas estrelas, certo? Achas? Não, na verdade é um gajo todo musculado, muito alto e loiro. Chama-se Fafhrd, não é nenhuma doçura, mas é um exímio e violento espadachim. :) Agora, por favor, não me digas que nunca leste Fritz Leiber, porque eu não quero saber nada de nada do que não leste.

:D

Música?... Na verdade, estou a ouvir a Quinta Sinfonia, de Beethoven. Hmm, o meu filho, quando era bem mais pequeno, uma vez disse-me: «põe aquela música assustadora!», para ouvir isto. Bem, como eu adoro esta música, que já não ouvia há imenso tempo. :)

Boa tarde. :)


segunda-feira, outubro 21, 2019

Quando o universo nos responde...

Esta manhã, deixei o meu filho na escola um pouco depois da hora, talvez para me esquivar a encontrar muitas das outras mães que se recusam a responder quando eu digo bom dia. Porque eu tenho lepra, naturalmente.

Hmm, que te posso eu dizer? Eu continuo a acreditar que quando olhamos directamente para o coração humano, o caminho abre-se à nossa frente e, de imediato, somos pessoas melhores. :)

Claro que posso sempre dizer que aquelas pessoas não me cumprimentam, porque não me conhecem. Mas, se quiser ser honesta, tenho que admitir que mesmo alguns daqueles que estão no meu coração, ficam por vezes irritados com a minha visão do mundo, com a minha honestidade, com o meu paganismo... e atiram-me com a inquisição espanhola. And nobody expects the spanish inquisition. Pois, mesmo quando está sempre a aparecer.

And shout out loud
I don't mind, I don't mind

Kongos, mais uma vez. Hmm, importar-me até que me importo, mas nem por isso deixo de ser quem sou. Bem, depois de deixar o meu filho na escola, não vinha a ouvir Kongos, era outra banda qualquer, uma música alegre e jovial. E, sem mais, sabe-se lá porquê, decidi questionar o universo. Queria saber se eu iria continuar a ser invisível para sempre. Queria saber o que eu poderia esperar dos outros.

Mal tinha acabado de formular a minha pergunta, quando o universo me respondeu.

Estava a atravessar uma passadeira, quando um carro que estava parado, para deixar passar outras pessoas, arrancou e me atingiu. O carro parou de imediato, um homem saiu e disse que não me tinha visto. Entretanto, apareceu outro homem que insistiu que a culpa era minha, que eu não podia andar na rua de headphones. Berrei incoerente, com eles, comigo própria, com o universo, desesperei, depois parei e fui embora a arrastar uma perna, literalmente.

And I know what I know
But I don't know what I know when I know it
And I hear what I hear
But I don’t know what I hear when I hear it
And I see what I see
But I don't know what I see when I see it

Não gostei da resposta. Lamento ter feito a pergunta, até porque eu sabia muito bem qual era resposta. Mesmo assim, estou chateada com o universo. Não sei o que esperava, mas certamente não era aquilo.

Hmm… numa manhã de Abril, em 2005, um carro também me atropelou numa passadeira, mas dessa vez foi muito pior. O carro atirou-me uns quantos metros pelo ar e eu aterrei de costas no asfalto. Mas não me lembro da queda, só me lembro do choque com o carro, do voo e, de repente, estar noutro lado. Tinha novamente 17 anos, estava deitada de costas na terra quente numa deliciosa noite de verão, olhava as estrelas. Mas aquele não era o mundo que eu conheci. Era um lugar absolutamente maravilhoso. Mágico. Ele estava deitado na terra quente ao meu lado, também olhava as estrelas. Ele não era o homem por quem eu estava apaixonada quando tinha 17 anos, mas eu sabia bem quem ele era, uma vez que ele frequentava os meus sonhos desde sempre. Mas tudo aquilo me pareceu demasiado real para ser um sonho e eu perguntei-lhe se estava morta. Ele disse-me que ainda não, mas que eu estava a morrer. De repente, a vontade absurda de não morrer tirou-me daquele mundo maravilhoso e eu vi-me a mim própria no meio da estrada. Havia várias pessoas à minha volta. E eu percebi que ninguém tinha chamado uma ambulância. Terá sido o horror desse pensamento que não me deixou continuar? Possivelmente. Havia uma pessoa que me custava mesmo muito deixar, mas aquilo era diferente: cada átomo do meu ser rejeitava veemente aquela indiferença. Eu não queria morrer assim, sem que tivessem qualquer compaixão por mim, sem a mais pequena assistência pelos seres humanos que me rodeavam. Ele continuava ao meu lado e perguntou-me se eu tinha a certeza de que queria voltar. Eu disse que sim. De repente, um pensamento igualmente assustador varreu a minha mente e eu perguntei-lhe o que me ia acontecer. Ele respondeu com outra pergunta, questionando o que eu queria que acontecesse. Nada, foi o que eu disse. De imediato, vi-me a olhar para cima e ele estava ali, à frente das outras pessoas. Ele olhou-me com ar divertido e disse-me: «tu nunca me agradeces, miúda». Sorriu e desapareceu. E eu senti uma tristeza como nunca tinha sentido, já não queria estar ali no meio do chão, sem sentir o meu corpo e com as pessoas, que me rodeavam, a falarem como se eu estivesse morta. Mas não estava morta e, algum tempo depois, pude mexer os braços, consegui falar e pedi um telefone. Chamei uma ambulância. Mais tarde, no hospital, quando me passou aquele torpor todo, constatou-se que eu tinha saído praticamente ilesa do acidente.

Hmm… eu sei disso, isto vai ser uma festa para inquisição espanhola. E daí?... ;)

Hmm... espero que a minha perna cure, em breve. É outono e eu quero dançar. :)



sábado, outubro 19, 2019

Rindo de mim própria.

Hmm, a ideia era escrever qualquer coisinha suave e alegre, só para manter o meu perfil calibrado. Mas, sem qualquer razão aparente, a minha mente trouxe-me Rabelais e eu fui à procura da lista de serpentes, em Gargântua e Pantagruel. E, agora, voltei. Aqui estou eu, ainda com muitos dos nomes, daquela estranhíssma lista, a aparecerem como pensamentos relâmpago na minha mente, enquanto penso naquilo que te vou dizer.

- Bom dia!

Não consigo deixar de me rir. De mim própria. Piedosamente. Copiosamente. Ruidosamente.

Nem o balsamozinho de ser sexta-feira parece socorrer-me. Preciso daqueles amigos que crêem. Ou daqueles que crêem crer. Ou mesmo daqueles que só parecem crer.

Caos. Eu sei. Mas é tudo relativo, depende da perspectiva. O caos para a mosca, é a ordem para a aranha.

alguém me disse isso ontem. Depois, bem, o meu dia piorou consideravelmente e a noite foi trágica. Voltaram os meus velhos pesadelos. E, esta manhã, acordei triste. Mas cada dia é, em si mesmo, único e irrepetível. E eu não quero que as minhas mágoas me impeçam de o viver. 

Sunrise, sunrise
Looks like mornin' in your eyes

A manhã já acabou, mas a voz de Norah Jones continua a ouvir-se, clareando o espaço dentro de mim. Hmm, quem seria eu, sem música?

Lembras-te de Parsifal e da pergunta que ele não conseguiu fazer? Que posso fazer por ti? É também essa a pergunta que, muitas vezes, nos esquecemos de fazer… hmm, eu não me quero esquecer. Nem quero ser outra. Quero continuar a ser eu própria, por mais mal-entendida que possa ser.

Bem, agora vou voltar ao meu bosque dos poetas, que possivelmente nunca concretizarei, mas que me deixa feliz, quando o imagino. Um negrilho para Miguel Torga, madressilvas para Eugénio de Andrade, um cedro para Khalil Gibran, um ginko para Goethe, um castanheiro para Yeats, uma romãzeira para Rumi… e muitas outras árvores para outros tantos poetas, uma floresta inteira para Fernando Pessoa.

Há um murmúrio na floresta,
Há uma nuvem e não já.
Há uma nuvem e nada resta
Do murmúrio que ainda está
No ar a parecer que há.

É que a saudade faz viver,
E faz ouvir, e ainda ver,
Tudo o que foi e acabará
Antes que tenha o que esquecer
Como a floresta esquece já.

Termino, assim, com um poema de Pessoa, com a voz de Nina Simone, em Feeling Good, com uma fotografia de um lugar que eu amo, com o desejo de que tenhas um bom dia e com um sorriso. :)






quarta-feira, outubro 16, 2019

Anedota com moralidade...

Uma noite, ela entrou num bar, no topo de um edifício e foi imediatamente abordada por um desconhecido bêbado, com um copo na mão, que lhe disse:
- Tens que provar esta bebida azul. É mesmo incrível. Faz-te voar!
- Fantástico - disse ela condescendente, enquanto tentava afastar-se dele.
- A sério! - respondeu ele e, com um sorriso enorme, acrescentou - deixa-me provar que é verdade!
De imediato, o desconhecido correu e atirou-se do edifício, reaparecendo pouco depois, a voar.
Convencida, ela dirigiu-se ao barman e pediu aquela extraordinária bebida azul. Esvaziou o copo de um trago e aproximou-se da beira do terraço. Parou, hesitou por uns segundos, riu, tirou a roupa e, sem mais contemplações, atirou-se do topo do prédio, nua e em direção ao vazio. Nesse instante, ouviu a voz do barman a repreender o desconhecido:
- Super-homem, tu quando estás bêbado és incorrigível!...
Já em queda livre, ela sorriu e disse para a escuridão à sua volta:
- Que importa? Até chegar ao chão é só rock' n' roll.

Hmm, passemos, então, à moralidade: a vida é uma anedota, há sempre alguém capaz de nos levar ao abismo, e nem precisa de razões, pode muito bem ser só pelo gozo, mas nós podemos sempre apreciar a experiência de estar vivo.
Apreciar cada minuto é tudo o que importa, quer haja ou não outro sentido.

La Nuit by Auguste Raynaud (1845 – 1937).


terça-feira, outubro 08, 2019

Under the milky way tonight…

Comecei por responder a uma grande amiga, que deixou esta música num comentário. Mas, de alguma forma, a pequena resposta transformou-se num post, possivelmente por razões misteriosas. Ou não. ;)

Esta música faz-me lembrar as noites quentes de verão, quando eu ficava longas horas deitada de costas no chão, a vaguear pelas estrelas. Tinha dezassete anos e estava apaixonada. Vivia um amor rebelde, intenso, absurdo. Não era um amor correspondido, mas como o encontrei num livro e, na verdade, ele tinha morrido muito antes de eu nascer, não me sentia propriamente rejeitada. Era algo para outra vida… ;)

Ele não trazia cor ao meu dia, mas dava profundidade à escuridão da noite, tornando a mais banal das noites em noite noitíssima, em que a profusão e a intensidade das estrelas nos impelem à viagem. Inicialmente, numa viagem em direção àqueles pontos luminosos que, quando nos deixamos realmente ir, rapidamente se torna uma viagem pela escuridão, pela vastíssima escuridão que é o verdadeiro corpo do universo. Uma escuridão livre, isenta da moralidade que os humanos insistem em lhe atribuir. Um aspecto do universo que é negro e fecundo como a própria Terra, onde podemos deixar germinar a semente que existe em nós. A escuridão que é o lugar de todos os sonhos.

Under the milky way tonight…

(Foto retirada do site Wonderful Places In The World, desconheço o seu autor.)


sábado, agosto 31, 2019

Seis coisas impossíveis antes do pequeno-almoço.



Ontem escrevi que, durante esta semana, todos os dias tenho feito um esforço para pensar em seis coisas impossíveis, antes do pequeno-almoço. E, garantidamente, esforço-me por acreditar nas minhas coisas impossíveis. ;)

Encaro-o como um exercício consciente de revolta. ;)

Bem, esta manhã, pouco depois de acordar, deparei com uma gaivota na minha varanda. Tive pena dela, porque estava perdida, longe de casa. Mas, ao mesmo tempo, não consegui deixar de pensar que a gaivota sabia que estava longe de casa, que se tinha perdido no seu voo. Certamente, fará tudo o que estiver ao seu alcance para regressar ao seu verdadeiro lugar.

Eu, por outro lado, quando me perco, levo uma eternidade para descobrir que estou perdida. E, o que ainda é pior, é cada vez mais difícil ter certezas em relação ao meu verdadeiro lugar.

Há muitos momentos em que tenho dificuldade em acreditar que ainda me chamo Maria e não Gregor Samsa. É com um estranho divertimento que penso que, um destes dias, ainda acordo transformada num inseto e, nem assim, deixarei de lado as preocupações em relação ao emprego, ao dinheiro e às necessidades da família.

Noto, também, que ultimamente regresso muitas vezes ao livro infantil de Margaret Wise Brown, The Important Book, publicado em 1949. À medida que percorro as ruas, apressada, interrogo-me acerca do que é importante para mim: nas casas, nas árvores, na paisagem, no vento, nas nuvens… Adoro esses instantes em que as minhas próprias respostas me surpreendem. ;)

Contudo, no livro de Brown, tudo nos conduz a duas questões finais:

- O que é que poderias mudar em ti e ainda continuares a ser tu próprio?

- O que é que não poderias mudar em ti, para continuares a ser tu próprio?

Bem, eu acredito que é importante fazer estas perguntas a mim própria, de vez em quando, quanto mais não seja, para não me esquecer completamente de quem eu sou. ;)

Hmm, escrevi muito, não foi? Termino, então, com uma imagem e Yuumei Art. :)



terça-feira, julho 02, 2019

Pegadas no meu mundo...

Hmm… quase parece a paisagem dos nossos sonhos, caso a sonhássemos, não? :) Bem, eu sonho e o meu mundo é praticamente este, só não há casas, nem cercas, nem portões. E as árvores são muito mais antigas, altas e majestosas. Também não há flores em canteiros, as flores aparecem por todo o lado, sem qualquer tipo de restrição. ;)

Ocorreu-me um pensamento inesperado: haverá pegadas? :)

Hoje acordei com uma frase do Ray Bradbury a pairar na minha mente. Deixa cá ver se ainda me lembro, sim, porque eu não acordei agora, acordei há muito tempo. :P

Era algo relacionado com as pegadas que deixaram aqueles que caminharam no nosso coração. Hmm, qualquer coisa como isso, mas mais concreto. Bem, não sei bem por que razão, houve várias pessoas que saíram da minha vida, ao longo do tempo. Estranhamente, não é um pensamento deprimente. E, se querem mesmo saber, cada vez aceito isso mais facilmente, ao mesmo tempo que continuo a sentir-me feliz com as pegadas que outros deixaram no meu mundo. :)

Voltando aos sonhos. por maior que seja a beleza dos lugares com que sonhamos, na minha modesta opinião, o mais importante é não esquecer que, ainda assim, continuamos a ser o que sempre fomos: um universo inteiro, que vai sonhando com pequenos lugares.

Boa tarde. :)

(Imagem retirada da net, não sei quem é o autor.)