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domingo, dezembro 12, 2021

Sem forma, vaga e incerta...

Antes de ir dormir, deixo um velho poema da maravilhosa Sophia de Mello Breyner Andresen.


Às vezes julgo ver nos meus olhos

A promessa de outros seres

Que eu podia ter sido,

Se a vida tivesse sido outra.


Mas dessa fabulosa descoberta

Só me vem o terror e a mágoa

De me sentir sem forma, vaga e incerta

Como a água.


Para mim não vem nem terror nem mágoa, por me sentir sem forma, vaga e incerta como a água. O terror vem quando me construo ou deixo construir, afastando-me de quem eu sou de verdade. E quem eu verdadeiramente sou é algo que tanto encontro agora, como quando tinha cinco anos e ainda estava completamente despida dos papéis que a vida me iria atribuir.

Na minha modesta opinião, este tempo, que precede Yule, é o tempo certo para nos prepararmos, libertando-nos de velhas máscaras e de velhos rótulos, para encararmos o Sol nascente com a nossa face nua.





quarta-feira, dezembro 01, 2021

Como nos livramos da armadura que já não queremos?

Hoje, ao fim da tarde, quando o meu filho preparava a mochila para a escola e colocava lá, como habitualmente, um livro, perguntei-lhe o que é que ele andava a ler. Respondeu-me que era O Cavaleiro da Armadura Enferrujada. Bem, eu adoro esse livro, que foi escrito em 1987, por Robert Fisher. Na verdade, foi um livro muito importante para mim. Mas fiz de conta que não conhecia e perguntei-lhe:

- Então, é sobre o quê?

- É sobre um cavaleiro que precisou de uma armadura, mas depois não a tirou, a armadura enferrujou e ele deixou de ser capaz de a tirar. E, agora, anda à procura de maneiras de se livrar de uma armadura que já não precisa.

- Hmm... e isso é o quê?

Ele sorriu e respondeu:

- Uma metáfora. 

E, sobre isto, eu nada mais tenho a acrescentar. ;)

Hmm, enquanto me deixo ficar aqui, só por um bocadinho, sentindo o peso que eu ainda carrego e que já não preciso de carregar, uma voz doce, como poucas, vai cantando: 

Sunrise, sunrise

Looks like mornin' in your eyes

:)

Boa noite.









quinta-feira, novembro 18, 2021

Coisas que não há que há

Hoje, no dia do aniversário do saudoso Manuel António Pina, deixo aqui um poema do qual eu gosto muito: Coisas que não há que há.


Uma coisa que me põe triste

é que não exista o que não existe.

(Se é que não existe, e isto é que existe!)

Há tantas coisas bonitas que não há:

coisas que não há, gente que não há.

bichos que já houve e já não há,

livros por ler, coisas por ver,

feitos desfeitos, outros feitos por fazer,

pessoas tão boas ainda por nascer

e outras que morreram há tanto tempo!

Tantas lembranças de que não me lembro,

sítios que não sei, invenções que não invento,

gente de vidro e de vento, países por achar,

paisagens, plantas, jardins de ar,

tudo o que eu nem posso imaginar

porque se o imaginasse já existia

embora num lugar onde só eu ia…


Pintura de Amadeo de Souza Cardoso, 1917.

sexta-feira, maio 10, 2019

Se não escrevo...

Albert Camus, em 1954, disse que Meursault sofria daquilo a que ele chamava a loucura da sinceridade. Referiu ainda que era esse fascínio pela autenticidade do que sentimos e do que somos, que dava sentido ao seu livro: O Estrangeiro.

Quanto a mim, interrogo-me se também eu sou esse tipo de personagem: que nunca diz mais do que aquilo que sente. O problema é que aquilo que eu sinto é repetitivo, conhecido e, naturalmente, aborrecido. Assim, para quem me perguntou, aqui fica a minha resposta: se nada digo é, apenas, por nada ter para dizer. Isto é, nada novo ou interessante. ;)

Mas, caso alguém queira saber, admito que ainda sinto a necessidade absoluta de que falava Kundera: a necessidade de criar um continuum nas minhas experiências, na minha vivência, que a realidade, pura e simplesmente, não me dá, nem me poderia dar.

Também eu tenho consciência de que existo apenas num momento no tempo e que me movo a partir de um passado, em direção a um futuro desconhecido. Desse passado trago uma curta seleção de memórias isoladas, possivelmente modificadas, certamente interpretadas. Contudo, o grande problema não é sequer a autenticidade dessas memórias, mas sim a sua fragmentação, o facto de não serem contínuas.

Se as nossas memórias são fragmentadas, não será também assim a nossa existência?

Kundera dizia que a literatura, a ficção, poderia funcionar como compensação para estas falhas, permitindo recriar, através da imaginação, esse continuum existencial, que a realidade nos nega.

Talvez, agora na minha modesta opinião, a autenticidade do que somos e do que sentimos, também só se encontre verdadeiramente na literatura. :P

Para terminar, deixo (de novo) a imagem de alguém bem menos louco do que eu, numa pintura de Gottlieb Theodor von Kempf Hartenkampf. ;)


quarta-feira, agosto 22, 2018

Para Ray Bradbury

22 de Agosto de 2018.

Uma voz absolutamente fantástica acabou de me dizer:
«Hello darkness, my old friend
I've come to talk with you again…»

David Draiman. The Sound Of Silence, sim, mas na versão de Disturbed, da qual eu gosto mais do que da original.

Hmm, ainda não te disse olá, pois não? Olá, Ray.

«And in the naked light I saw
Ten thousand people, maybe more
People talking without speaking
People hearing without listening.»

Tens ideia que todos os anos, mais ou menos na altura do teu aniversário, sinto a necessidade de procurar o odor fresco do trevo, erguendo-se nos campos ao lusco-fusco?

Não conheço esse aroma e certamente não será agora, no calor do verão, a melhor altura para o encontrar. Hmm, creio que estou a ser fiel a mim própria, seguindo o meu velho paradoxo pessoal: procuro, para não encontrar.

Eu gosto do cheiro do verão, sabes? Do imediato da maresia até ao subtil cheiro a terra molhada, que se sente sobretudo nestes dias de estio, depois de uma breve tempestade. Gosto do cheiro que fica nas mãos, quando passamos um fim de tarde a apanhar alecrim ou rosmaninho e muitas outras ervas, com nomes não tão poéticos, que o sol indiferente deixou igualmente secas e ressequidas, mas ainda intensamente aromáticas. Gosto do cheiro que se liberta quando abrimos um melão bem maduro. 

Gosto de todos estes aromas quentes e intensos, desde o cheiro forte dos figos a secar ao sol, até ao suave odor das amoras acabadas de apanhar. Aromas que deixam uma marca indelével, mas que não são frescos como o teu odor do trevo.

Fresco e primaveril é o cheiro dos rebentos novos de funcho, nas bordas dos meus caminhos, ou das folhas tenras do manjericão, nos vasos das minhas varandas.

Mas, meu querido, o aroma que eu mais associo contigo é, sem dúvida, o do chocolate. Será possível passar o teu dia sem comer um pedacinho de chocolate? Não me parece.

Bem, quantas vezes já pensei qual seria o teu chocolate favorito, olhando prateleiras com demasiadas marcas, sem encontrar qualquer resposta? Hmm, creio que não encontrar respostas, mais do que fazer parte de mim, é a minha natureza. Haverá alguma contradição em simplesmente continuar a procurar?

Meu querido, eu gosto deste breve momento, quase no fim do verão, em que simplesmente é o teu dia e eu posso parar e celebrar, reler um dos teus contos e lembrar-me de ti, sentindo sempre o meu coração agradecido pelas tuas palavras, por todas as tuas palavras.

Contudo, não é fácil encontrar-te agora, nesta altura do ano, sabes? Um pouco mais tarde, é quase impossível esquecer-te, mas quando o mundo encontra as cores de outubro há tanto a recordar e fica tudo tão absolutamente maravilhoso, tão intenso e tão apaixonante, que tu, meu querido amigo, diluis-te num mar imenso de coisas especiais.

Ah! Quem melhor do que tu, para entender a felicidade do outono?

Assim, nesta terrivelmente quente noite de verão, faço uma pequena pausa no meu mundo moderno e citadino, ao qual nunca pertenci, onde o meu amado tempo cíclico quase não tem lugar e onde eu mal consigo acompanhar a absurda seta do tempo, para fazer um brinde, porque é o teu aniversário. E brindo também ao tempo da magia e do maravilhoso, que está quase a chegar. Brindo com ratafia, que eu faço apenas quando a lua é azul.

Boa noite, meu amigo.

segunda-feira, julho 09, 2018

22 de Agosto

22 de Agosto de 1920. O dia em que nasceu Ray Bradbury. :)

Quero voltar a escrever, compulsiva e anonimamente.

Na verdade, quero mesmo escrever sobre tudo o que muda a minha perspectiva do mundo, que depende menos das minhas vivências diárias, do que das pessoas ou personagens que tive a sorte de encontrar.

Por vezes, sinto que somos quase levados a crer que o modo como vemos o mundo é algo quase automático e estático. Não é verdade. Todas as nossas percepções resultam de aprendizagens e são sempre dinâmicas.

Para mim, o momento mágico que muda a minha maneira de ver o mundo, e por consequência muda o meu mundo, surge sobretudo quando aparece alguém louco que faz perguntas complicadas, que gosta de andar à chuva e que me pede para olhar para a lua. :)

Valerá a pena dizer que essa loucura raramente é dada por alguém real? ;)

22 de Agosto de 2017.


Um velho amigo

Depois de ver um post sobre filmes relacionados com Nietzsche, apetece-me escrever um bocadinho sobre ele. Sei lá, sinto-me cada vez mais insignificante, nos dias que correm. Tenho saudades do tempo em que estudava engenharia e frequentava ilegalmente aulas de filosofia, noutra faculdade. :(

Admito que Nietzsche é completamente fascinante, mas daí a concordar com ele… De resto, ele é muitas vezes ambíguo e nem sempre faz sentido. Quem se pretendia que fosse, na verdade, o Super-Homem, ou como ele lhe chamava a «Besta Loira»? Por mais apelativa que seja essa vontade de poder, essa força e essa consciência de si mesmo, a ética de Nietzsche é elitista. É claro que podemos sempre pensar: e isso é mau? Eu acho que sim, que é mau.

Nietzsche queria que morressem todos os deuses e que vivesse apenas o Super-Homem. Para ele os deuses tinham tido origem na inteligência de uma humanidade primitiva e sem maturidade, não tendo lugar num mundo moderno. Eu não concordo com ele. Aliás, ele considerava qualquer forma de religião como um estado patológico. Era totalmente crítico da religião cristã, que dizia ter aviltado a noção de Homem.

Gosto das 3 metamorfoses do espírito, apresentadas no livro Assim Falava Zaratustra. O espírito começa como camelo (docilidade, veneração), passa para leão (recusa, destruição) e termina criança (afirmação e sentido de si próprio, construção).

Não gosto do Eterno Retorno, sobretudo como é mostrado por ele: um universo fechado, ausente de sentido e de onde não se pode escapar. Vejo mais esse eterno retorno como um dragão que temos que vencer, continuamente. Um dragão que nos arrasta para o seu universo de futilidade, onde estar vivo é como estar morto, onde não há verdadeiros impulsos criadores, onde a rotina está completamente instalada.

20 de Outubro de 2017.

Filosofia para crianças

Hoje, gostaria de te falar de um livro verdadeiramente extraordinário: Big Ideas for Little Kids - Teaching Philosophy through Children’s Literature, de Thomas E. Wartenberg, publicado por Rowman & Littlefield Education, 2009, UK.

É um livro que ajuda os adultos a ensinar as crianças a pensarem por elas próprias, a questionarem-se e a questionarem o mundo à sua volta. Recomendo-o vivamente!

O  primeiro módulo é sobre metafísica. Através de outro livro maravilhoso: The Important Book, da escritora Margaret Wise Brown, publicado em 1949, são introduzidas as questões básicas: o que é que realmente existe? Quem sou eu?

Em primeiro lugar, apresenta uma palavra: a palavra “importante”. E, naturalmente, leva-nos a questionar o que é importante. ;)

Começamos com artefactos. O que é importante numa colher?
Seguimos para matéria orgânica: o que é importante numa maçã?
E, por fim, entramos no tópico da identidade pessoal.

O livro The Important Book diz que o que é importante acerca de ti próprio é que tu és tu. E esse é o ponto de partida para várias perguntas verdadeiramente filosóficas, que na essência se reduzem a duas:

- O que é que poderias mudar em ti e ainda continuares a ser tu próprio?
- O que é que não poderias mudar em ti, para continuares a ser tu próprio?

Então? Que responderias?... :)

8 de Maio de 2018.

segunda-feira, abril 23, 2012

Dia Mundial do Livro

Boa tarde. :)

Como hoje é o dia mundial do livro, permito-me deixar aqui referências a dois livros:

- O Cavaleiro da Armadura Enferrujada, Robert Fisher, 1990.
É um livro profundamente inspirador. Um livro que ensina a libertar-nos das velhas armaduras que carregamos durante anos, muitas vezes sem termos percepção delas, e que são uma barreira entre nós e o mundo.


- O Homem Que Plantava Árvores, Jean Giono, 1953.
Partindo de uma história verídica, este pequeno livro ensina-nos que é possível mudar o mundo. Que mais podemos pedir? :)


Ambos editados pela Presença.

Boas leituras. :)

quarta-feira, julho 28, 2010

O livro da Viagem

Um dia peguei num livro de Bernard Werber, que me disse que eu já tinha sido todos os meus heróis. :)

É verdade. Já fui todos os meus heróis. Fui Principezinho e fui Raposa. Fui Alice no País das Maravilhas. Fui Profeta. Fui Parsifal. Fui Feiticeirinha de Abril. Fui Messias em Dune. Fui outros, muitos outros. :)

Lembro-me que na altura pensei como era fantástico que um livro me conhecesse assim tão bem.

Hoje, contudo, lamento a compreensão que apenas encontro em livros, noutros livros, muitos livros, mas ainda e só livros. É pena, pois como insistia a Yourcenar, a vida não está nos livros.


Fahrenheit 451

Um destes dias, referi um livro antigo que li há imenso tempo: Fahrenheit 451, de Ray Bradbury. Na minha adolescência, Bradbury era dos meus escritores favoritos. Os livros dele eram para mim uma verdadeira delícia. Contudo, este Fahrenheit 451 é arrepiante, por duas razões: porque nos mostra um mundo onde os livros, considerados fontes de todos os perigos, eram queimados, sendo o grau de temperatura a que se incendeia o papel o que dá o título ao romance; a segunda razão, porque é um mundo onde a felicidade era obrigatória.

Bem, um mundo de felicidade normalizada e obrigatória quase parece o paraíso, não? :P

Contudo, para aqueles para quem «queimar é um prazer» este seria um belo mundo. :)

Houve um tempo em que me interroguei se não seria uma boa prática incendiar as coisas que me incomodavam. Mas, depois pensei: e será que iria parar? Ou, simplesmente, acabava a pegar fogo a tudo o que estivesse na origem da minha estranheza ou da estranheza do mundo. Bem, é óbvio que não fiz isso, preferi deixar que a estranheza se instalasse. E, acredita, a estranheza instalou-se mesmo! :)

E a minha personalidadezinha assemelha-se, assim, um pouquinho à da miúda que atormentava o Montag, em Fahrenheit 451:

"Ela contentou-se em rir.
- Boa noite - disse. E entrou no jardim. Depois, lembrou-se de qualquer coisa, voltou para trás e pousou em Montag um olhar curioso: - É feliz?
- Sou o quê? - gritou ele."

quarta-feira, julho 21, 2010

Quem somos nós?

Na verdade, quem quer que nós sejamos, somos - como disse Uxío Novoneyra, a propósito de Rosalia Castro - "donos de canto vivimos plenamente, da infancia, da mocedade: do que ela [Rosalia] chama “as galas de un día” As galas de aquel bon dia de terra... Donos inda dos soños xa perdidos e voltados porque eran verdadeiros, donos da dádiva de toda a naturaleza terra. Donos dos tres tempos, presente, pasado e futuro, nun mesmo tempo".

Wuthering Heights, paperback cover by Robert E. McGinnis (American, born 1926).


sexta-feira, fevereiro 12, 2010

Uma livraria nova

Encontrei uma livraria nova, numa rua por onde já não passava há algum tempo. Uma livraria pequenina, com sofá confortável e um ambiente acolhedor. Sorri, agradecida com aquela bela surpresa.

Eu gosto de livros. Sempre gostei de livros. Há livros que fazem parte de mim, eu não seria quem sou se não tivesse lido certos livros.

E gosto de pessoas que gostam de livros... :)



Uma vez, levei o livro Iluminações – Um Cerveja no Inferno, do Rimbaud, para emprestar a um colega do meu marido. Estávamos num bar. Eu tirei o livro e, antes de o emprestar, expliquei que aquele livro era especial para mim. E entreguei-lho. Ele colocou-o em cima da mesa. E a namorada dele, que eu conhecia, até tinha sido eu quem os tinha apresentado, aproveitou para pôr o copo de cerveja em cima do meu livro, como se não fosse um livro, mas um mero protector de mesa. Bem, eu esperei um bocadinho e depois, tirei o copo de cerveja de cima do meu livro e voltei a colocar o livro na minha mala. Já não o emprestei.

Mesmo assim, estranhei aquele tipo de insensibilidade. E abuso. O livro não era deles, de modo que nem sequer tinham o direito de o estragar. Mas, esquecendo isso... continua a insensibilidade. A profunda insensibilidade, tão comum nos dias que correm.

Na minha maneira dever as coisas, a insensibilidade é um pecado grave. A pessoa que sofre desse mal, se calhar nem tem culpa, no entanto, a verdade é que também nunca vai deixar de ser como é. E face a esse tipo de pessoas, o melhor que temos a fazer é afastarmo-nos delas, sem mais questionamentos.

Gibran dizia que o inferno é um coração vazio. E as pessoas insensíveis, por muito que digam a si próprias algo diferente, a verdade é que vivem com um coração vazio. Isso é sempre o pior que nos pode acontecer. É uma triste condenação.

sexta-feira, outubro 03, 2008

Outra carta do passado... Beckett.

Trata-se de um texto antigo, que eu escrevi e publiquei noutro site, há milhares de anos:

«Beckett falou-nos da realidade do homem moderno, sem absoluto, sem Deus, completamente desamparado num universo hostil, desprovido de qualquer sentido. Se Sartre e Camus nos apresentaram ao absurdo, Beckett foi mais longe, atirou-nos bem lá para dentro. A sensação de estranheza, que Camus explora, é transformada na mais profunda solidão no universo Beckettiano. O herói Beckettiano é a expressão máxima do homem-matéria, mas uma matéria em decomposição, nauseabunda.

Beckett pinta nas suas telas as palavras da aproximação à morte, da infelicidade, da decadência física. Cegos, paralíticos, enfermos, mutilados. Galeria de mortos. É este o universo Beckettiano.

Beckett mostra-nos naquilo que ele diz ser a nossa verdadeira natureza: seres frágeis, incapazes de assumirmos a solidão, buscando ridiculamente companhia, iludindo-nos com tentativas de comunicação mesmo quando já não é possível qualquer comunicação, tentando fugir à dor e caindo no desespero... Enfim, Beckett vai ao mais fundo de nós e mostra-nos a nossa desesperada esperança... ainda e sempre à espera de Godot - Deus, alguém ou algo para nos aliviar o sofrimento físico e moral - mas o tão esperado Godot não vem, nunca vem.

Que mais queres que te diga? Há uma frase do livro "Malone está a morrer" que eu sei de cor: "pouco importa que eu tenha nascido ou não, que eu tenha vivido ou não, que esteja morto ou só moribundo, farei como sempre fiz, na ignorância do que faço, de quem sou, de onde sou ou se sou". Não, não é uma maldição. É a puta da realidade. Isto, meu querido, é o abismo das certezas ou da ausência delas. Tanto faz. Isto é o deserto. Mas quem é que quer o deserto? Então, sintamos. E quando acharmos que já nada sentimos, esforçamo-nos e sentimos ainda mais intensamente. Paradoxal? Mas o que é que não é paradoxal? :)

Beckett dá-nos uma perspectiva oposta à de Ionesco, no sentido em que as personagens beckettianas tornam-se cada vez mais decadentes, mais desesperadas e mais angustiadas. Nos últimos textos de beckett, especialmente em "Sobressaltos", somos atirados para o fundo do poço. Aqui a solidão e o desespero aproximam-se da loucura... de uma loucura incómoda e contagiante.

Nem imaginas como me senti assombrada durante dias depois de ler esse texto. Ainda agora, de vez em quando, a minha realidade é quebrada e eu sinto que sou transportada para esse argumento denso e absurdo. E simplesmente vejo-me a mim própria a levantar-me e ir... e sinto o intenso fascínio e a forte repulsa que provocam as personagens de Beckett, como Vladimir e Estragon.

Beckett, o homem que coloca uma das suas personagens a dizer, referindo-se à mãe, "aquela que me deu a noite". A noite e não o dia. Para beckett nascer é a maior de todas as infelicidade, nascer não é receber o dia e a luz, mas sim a noite e as trevas.

Beckett define a condição humana do seguinte modo: "nascemos, sofremos, morremos". Mas, ao mesmo tempo, afirma que nada é mais cómico do que a infelicidade. Sim, a revolta, o riso, a loucura nunca deixam de estar presentes. Que mais? Céus, como Beckett ridiculariza o amor, chama-lhe o instinto de procriação. E as suas personagens têm profunda aversão a isso de a vida simplesmente continuar. Pois, beckett foi o homem que olhou para as criancinhas e disse: "os procriadores em potência".

Diz-me: estranhas que eu leia Beckett? Bem, ele foi simplesmente genial. Sabes, o teatro dele foi designado (entre milhares de outros termos) por ateatro, no sentido em que é um teatro completamente novo, ainda que paradoxalmente mantenha uma forte identidade com o teatro tradicional. Ou com o nonsense. Hmm, permite-me uma pequena citação de memória... :)

- Todas as vozes mortas.
- Isso faz ruído de asas.
- De folhas.
- De areia.»

Ah! Aqui há uma mudança: já não leio Beckett, estou demasiado ocupada a viver cada um dos meus instantes, deste agora que me faz feliz! :)

Cartas do passado...

Quando voltei do almoço, fiquei a pensar em que medida a minha atitude mudou nos últimos anos... fui procurar-me, naquilo que eu escrevia lá pelo ano 2000. À volta do tema do Mito de Sisifio, encontrei isto:

«Liga-se muito o existencialismo aos pensadores ateus, não? O existencialismo não é necessariamente um modo de pensar ateu. Santo Agostinho e Pascal são, na essência, pensadores existencialistas. E o existencialismo de Sartre está muito longe de ser realmente uma novidade, já para não falar das influências óbvias de Heidegger (mas aqui já estou a falar por ouvir dizer, eu nunca li nem tenciono ler nada de nada de Heidegger. Hmm, que queres? Não gosto do nome do tipo. Hehehehe). Bom, mas dizia eu que Sartre foi um nadinha mais longe e atirou-nos com essa do en-soi e pour-soi. Uma classificação ontológica interessante. Mas como a filosofia não é nem de perto nem de longe a minha área, quero que se foda a definição ontológica do Ser. Hehehehe. Não te chateeis, tava só a brincar. De resto, não concordo nada que a existência humana seja absoluta, contigente, absurda. E é sempre isso que o Sartre nos quer transmitir seja na "Náusea", ou no próprio "L´être et le néant", hmm, também li duas peças de teatro dele: "Os Sequestrados de Altona" e "As Mãos Sujas". Mas quanto a isso de teatro, prefiro de longe Samuel Beckett.

Bom, mas claro que o homem não era parvo de todo, aliás, não era nada parvo. Não cometeu o erro do Hegel de fazer do nada "algo"... quero dizer, que não lhe atribui nomes, coisas, substantivos. Sabia bem que o nada é simplesmente nada. Pois é, parece uma verdade à La Palice, mas vê lá se muitos filósofos chegam lá... ;). Falta-lhes uma disciplina de Lógica no currículo, mas que havemos de fazer? :P

Camus. Ai de mim, eu simplesmente adoro Camus, é uma reminiscência do meu passado da qual não me consigo libertar, nem quero. Quando li "O Estrangeiro" e "O Mito de Sísifo", a minha vida mudou. Bom, mas na altura eu tinha aí uns 17 anos, ou menos. Não importa, o que é certo é que a minha vida mudou mesmo. Mas nem vou falar disso...

Sim, sim, é outro dos senhores do absurdo, mas quanto ao Camus... eu simplesmente não consigo dizer mal. Que queres? É assim, como poderia nem ser, mas é. Gostei particularmente da "Queda" e da "Peste", qualquer um deles, acho-os magistralmente escritos. Depois, li tudo (ou quase tudo) o que havia para ler do homem... Porque não?

"O Mito de Sísifo" influenciou-me muito, sobretudo nisso de imaginarmos o Sísifo feliz, sim, feliz. Não achas a ideia admirável? Sísifo continuamente a carregar a rocha dele montanha acima e, ainda assim, feliz. Sabendo sempre que a rocha haveria de rolar monte abaixo e que ele teria que a carregar de novo. É o tipo de determinação em que eu acredito. Creio que, de facto, interiorizei essa determinação em ser feliz, apesar das merdas com que o mundo me atira. Interiorizei essa determinação em acreditar que a humanidade é fundamentalmente boa, apesar de ter sido, algumas vezes, mutilada por seres humanos que nada valiam. Só não interiorizei foi a absoluta falta de sentido da vida, o absurdo. Não, para mim a vida tem todo o sentido que eu quiser que tenha, todo o sentido que eu for capaz de lhe dar.

"O Mito de Sísifo" mostrou-me também a rotina, a terrível rotina. Levantar, 4 horas de trabalho, almoço, mais 4 horas de trabalho, jantar, ver televisão, deitar e levantar outra vez. Com o Mito de Sísifo o meu porquê levantou-se e eu comecei imediatamente a lutar contar a rotina, antes ainda de ela ter qualquer hipótese de se instalar. E é uma luta da qual não abdico...

"O Homem Revoltado". Sim, senti fortemente o desesperado confronto entre a interrogação do homem e o silêncio do mundo. Mas já deixei de sentir que a vida seja absurda. "Se em nada se acredita, se nada possuí um sentido e se não podemos afirmar nenhum valor, tudo se torna possível e tudo carece de importância". Mas deixemos isso...

Sabes, continuo a acreditar na felicidade como destino. E o mundo atira-me com sofrimento. Mas que importa isso? Eu tenho o direito de continuar a acreditar naquilo que bem quiser, enganar-me se preciso for. Ou não tenho? Voltando ao homem revoltado: "à falta de uma felicidade incansável, um longo sofrimento ao menos constituiria um destino. Mas não, as nossas piores torturas terão um dia que acabar. Certa manhã, após tantos desesperos, uma irreprimível vontade de viver virá anunciar-nos que tudo acabou e que o sofrimento não possui mais sentido do que a felicidade." Ora, eu sei muito bem que não há verdadeiros destinos, ou pelo menos que não há destinos com sentido, mas que raio me importa isso? Eu acredito e pronto. Acredito na felicidade e no amor. E luto por eles. E como eu não me sinto disposta a desistir de lutar, hão-de aparecer, é que nem poderia ser de outra forma.

Mas, por vezes, canso-me, sabes? Por vezes, tenho vontade de fugir, de negar tudo isto. Mas eu não fujo, logo...

Bom, voltemos à literatura... Dostoievsky, para terminar, "Pode uma pessoa viver e manter-se dentro da revolta?" Nada sei quanto ao resto do mundo. Mas eu posso, a minha revolta em aceitar a falta de sentido da vida, dá-me a minha paixão de viver. A minha revolta em aceitar que a rotina se instale, dá-me a excentricidade e a loucura que dão cor ao meu mundo. A minha revolta em acreditar que a humanidade é uma merda, dá-me ágape. Olha, gosto de ser uma revoltada, hehehehe. E pouco me importa o que o resto do mundo pensa das minhas crenças. :)

Pronto, fico por aqui. Espero que tenhas um dia feliz, minha querida.»

Na verdade, muito pouco mudou... e eu continuo a ser quem sempre fui. :)

terça-feira, maio 08, 2007

Axel Munthe e O Livro de San Michele.

Hoje, quero falar de um dos meus grandes amigos: Axel Munthe. Conheci-o através d’O Livro de San Michele, quando eu era ainda uma adolescente. Bem, nessa altura, o meu amigo Axel já tinha morrido há bastante tempo. Vivemos separados não só pelo espaço, mas também pelo tempo. No entanto, espaço e tempo perdem a sua invencibilidade face a outras realidades, como o amor ou a amizade. :)

O Livro de San Michele criou dentro de mim um lugar eternamente luminoso, onde me sinto verdadeiramente eu própria. E o Axel faz parte do meu álbum de família. A ilha de Capri, na ponta sul do golfo de Nápoles, onde dizem que nunca fui, já acalmou muitas das minhas dores.

Com esse livro, noutro tempo, eu escolhi afastar-me dos rótulos e procurei o sol e o mar infinitos, sobretudo quando estava, como agora, fechada num gabinete com luz artificial.

Independentemente daquilo que outros quisessem que eu acreditasse, eu sabia que, como diria o Deepak Chopra, eu era o universo inteiro a sonhar com pequenos lugares. Então, que esses sonhos fossem agradáveis, que os meus pensamentos trouxessem até mim lugares onde eu sorria com a alma, onde a sensibilidade e o absoluto amor à vida fossem constantes.

Há tantas fotografias no meu álbum de família de pessoas que nunca vi e que nunca verei. Contudo, estão lá. São meus amigos. Compreendem-me. Vivem o mesmo deslumbramento face à vida e ao sonho. Caminhamos juntos. :)