segunda-feira, outubro 27, 2008

Frase do dia

A verdadeira viagem de descoberta consiste em não procurar novas paisagens, mas em ter novos olhos.

Marcel Proust

sábado, outubro 11, 2008

meu senhor menino

Amor é sentir-te assim terno, suave e carinhoso
junto ao meu coração alegre e palpitante
e com murmúrios e afagares
perder-me no teu corpo
e encontrar-me... nos cânticos puros
de nomes sentidos, que repetimos
até os eternizar... nas tardes que são noites
nas noites que nascem manhãs.

Amor é saber que é o meu riso que te faz rir
que é o meu choro que tu acarinhas
que são as minhas palavras aquelas que tu escutas.

quarta-feira, outubro 08, 2008

O Poeta

















Ninguém contempla as coisas admirado.
Dir-se-á que tudo é simples e vulgar...
E se olho a terra, a flor, o céu doirado,
Que infinda comoção me faz sonhar!

É tudo para mim extraordinário!
Uma pedra é fantástica! Alto monte,
Terra viva a sangrar, como um Calvário
E branco espetro, ao luar, a minha fonte!

É tudo luz e voz, tudo me fala:
Ouço lamúrias de almas no arvoredo
Quando a tarde tão lívida se cala
Porque adivinha a noite e lhe tem medo

Não posso abrir os olhos sem abrir
Meu coração à dor e à alegria.
Cada coisa nos sabe transmitir
Uma estranha e quimérica harmonia!

É bem certo quer tu, meu coração,
Participas de toda a Natureza.
Tens montanhas na tua solidão
E crepúsculos negros de tristeza!

As coisas que me cercam silenciosas
São almas a chorar que me procuram.
Quantas vagas palavras misteriosas
Neste ar que aspiro, trémulas, murmuram!

Vozes de encanto vêm aos meus ouvidos,
Beijam meus olhos sombras de mistério.
Sinto que perco, às vezes, os sentidos
E que vou a flutuar num rio aéreo...


O Poeta, Teixeira de Pascoaes

sexta-feira, outubro 03, 2008

Poemas do passado...

A net tem destas coisas... também encontrei um poema meu que já nem me lembrava de ter escrito. Aqui fica, para registo futuro. :)

vieste nocturno e em silêncio
e sem fórmulas encontraste o meu sentir

apagaste a lua e tudo o que luzia
com a mais clara das claridades
chama que escureceria o deus solar!

na tua visão nua
foram ditas todas as palavras
evocadas todas as vontades
e foste chegada de todas as partidas

agora dormes aconchegado
o teu sono de menino
e eu guardo os teus sonhos...


Escrevi este poema há muito tempo, sem o dedicar a alguém em concreto. Esqueci-me completamente que o tinha escrito. Hoje, quando o encontrei, não consegui deixar de me sentir arrepiada... que é isto de guardar sonhos? Parece-me que o meu guardador de sonhos esteve sempre presente e que somos, de verdade, um só... Será possível?

Outra carta do passado... Beckett.

Trata-se de um texto antigo, que eu escrevi e publiquei noutro site, há milhares de anos:

«Beckett falou-nos da realidade do homem moderno, sem absoluto, sem Deus, completamente desamparado num universo hostil, desprovido de qualquer sentido. Se Sartre e Camus nos apresentaram ao absurdo, Beckett foi mais longe, atirou-nos bem lá para dentro. A sensação de estranheza, que Camus explora, é transformada na mais profunda solidão no universo Beckettiano. O herói Beckettiano é a expressão máxima do homem-matéria, mas uma matéria em decomposição, nauseabunda.

Beckett pinta nas suas telas as palavras da aproximação à morte, da infelicidade, da decadência física. Cegos, paralíticos, enfermos, mutilados. Galeria de mortos. É este o universo Beckettiano.

Beckett mostra-nos naquilo que ele diz ser a nossa verdadeira natureza: seres frágeis, incapazes de assumirmos a solidão, buscando ridiculamente companhia, iludindo-nos com tentativas de comunicação mesmo quando já não é possível qualquer comunicação, tentando fugir à dor e caindo no desespero... Enfim, Beckett vai ao mais fundo de nós e mostra-nos a nossa desesperada esperança... ainda e sempre à espera de Godot - Deus, alguém ou algo para nos aliviar o sofrimento físico e moral - mas o tão esperado Godot não vem, nunca vem.

Que mais queres que te diga? Há uma frase do livro "Malone está a morrer" que eu sei de cor: "pouco importa que eu tenha nascido ou não, que eu tenha vivido ou não, que esteja morto ou só moribundo, farei como sempre fiz, na ignorância do que faço, de quem sou, de onde sou ou se sou". Não, não é uma maldição. É a puta da realidade. Isto, meu querido, é o abismo das certezas ou da ausência delas. Tanto faz. Isto é o deserto. Mas quem é que quer o deserto? Então, sintamos. E quando acharmos que já nada sentimos, esforçamo-nos e sentimos ainda mais intensamente. Paradoxal? Mas o que é que não é paradoxal? :)

Beckett dá-nos uma perspectiva oposta à de Ionesco, no sentido em que as personagens beckettianas tornam-se cada vez mais decadentes, mais desesperadas e mais angustiadas. Nos últimos textos de beckett, especialmente em "Sobressaltos", somos atirados para o fundo do poço. Aqui a solidão e o desespero aproximam-se da loucura... de uma loucura incómoda e contagiante.

Nem imaginas como me senti assombrada durante dias depois de ler esse texto. Ainda agora, de vez em quando, a minha realidade é quebrada e eu sinto que sou transportada para esse argumento denso e absurdo. E simplesmente vejo-me a mim própria a levantar-me e ir... e sinto o intenso fascínio e a forte repulsa que provocam as personagens de Beckett, como Vladimir e Estragon.

Beckett, o homem que coloca uma das suas personagens a dizer, referindo-se à mãe, "aquela que me deu a noite". A noite e não o dia. Para beckett nascer é a maior de todas as infelicidade, nascer não é receber o dia e a luz, mas sim a noite e as trevas.

Beckett define a condição humana do seguinte modo: "nascemos, sofremos, morremos". Mas, ao mesmo tempo, afirma que nada é mais cómico do que a infelicidade. Sim, a revolta, o riso, a loucura nunca deixam de estar presentes. Que mais? Céus, como Beckett ridiculariza o amor, chama-lhe o instinto de procriação. E as suas personagens têm profunda aversão a isso de a vida simplesmente continuar. Pois, beckett foi o homem que olhou para as criancinhas e disse: "os procriadores em potência".

Diz-me: estranhas que eu leia Beckett? Bem, ele foi simplesmente genial. Sabes, o teatro dele foi designado (entre milhares de outros termos) por ateatro, no sentido em que é um teatro completamente novo, ainda que paradoxalmente mantenha uma forte identidade com o teatro tradicional. Ou com o nonsense. Hmm, permite-me uma pequena citação de memória... :)

- Todas as vozes mortas.
- Isso faz ruído de asas.
- De folhas.
- De areia.»

Ah! Aqui há uma mudança: já não leio Beckett, estou demasiado ocupada a viver cada um dos meus instantes, deste agora que me faz feliz! :)

Cartas do passado...

Quando voltei do almoço, fiquei a pensar em que medida a minha atitude mudou nos últimos anos... fui procurar-me, naquilo que eu escrevia lá pelo ano 2000. À volta do tema do Mito de Sisifio, encontrei isto:

«Liga-se muito o existencialismo aos pensadores ateus, não? O existencialismo não é necessariamente um modo de pensar ateu. Santo Agostinho e Pascal são, na essência, pensadores existencialistas. E o existencialismo de Sartre está muito longe de ser realmente uma novidade, já para não falar das influências óbvias de Heidegger (mas aqui já estou a falar por ouvir dizer, eu nunca li nem tenciono ler nada de nada de Heidegger. Hmm, que queres? Não gosto do nome do tipo. Hehehehe). Bom, mas dizia eu que Sartre foi um nadinha mais longe e atirou-nos com essa do en-soi e pour-soi. Uma classificação ontológica interessante. Mas como a filosofia não é nem de perto nem de longe a minha área, quero que se foda a definição ontológica do Ser. Hehehehe. Não te chateeis, tava só a brincar. De resto, não concordo nada que a existência humana seja absoluta, contigente, absurda. E é sempre isso que o Sartre nos quer transmitir seja na "Náusea", ou no próprio "L´être et le néant", hmm, também li duas peças de teatro dele: "Os Sequestrados de Altona" e "As Mãos Sujas". Mas quanto a isso de teatro, prefiro de longe Samuel Beckett.

Bom, mas claro que o homem não era parvo de todo, aliás, não era nada parvo. Não cometeu o erro do Hegel de fazer do nada "algo"... quero dizer, que não lhe atribui nomes, coisas, substantivos. Sabia bem que o nada é simplesmente nada. Pois é, parece uma verdade à La Palice, mas vê lá se muitos filósofos chegam lá... ;). Falta-lhes uma disciplina de Lógica no currículo, mas que havemos de fazer? :P

Camus. Ai de mim, eu simplesmente adoro Camus, é uma reminiscência do meu passado da qual não me consigo libertar, nem quero. Quando li "O Estrangeiro" e "O Mito de Sísifo", a minha vida mudou. Bom, mas na altura eu tinha aí uns 17 anos, ou menos. Não importa, o que é certo é que a minha vida mudou mesmo. Mas nem vou falar disso...

Sim, sim, é outro dos senhores do absurdo, mas quanto ao Camus... eu simplesmente não consigo dizer mal. Que queres? É assim, como poderia nem ser, mas é. Gostei particularmente da "Queda" e da "Peste", qualquer um deles, acho-os magistralmente escritos. Depois, li tudo (ou quase tudo) o que havia para ler do homem... Porque não?

"O Mito de Sísifo" influenciou-me muito, sobretudo nisso de imaginarmos o Sísifo feliz, sim, feliz. Não achas a ideia admirável? Sísifo continuamente a carregar a rocha dele montanha acima e, ainda assim, feliz. Sabendo sempre que a rocha haveria de rolar monte abaixo e que ele teria que a carregar de novo. É o tipo de determinação em que eu acredito. Creio que, de facto, interiorizei essa determinação em ser feliz, apesar das merdas com que o mundo me atira. Interiorizei essa determinação em acreditar que a humanidade é fundamentalmente boa, apesar de ter sido, algumas vezes, mutilada por seres humanos que nada valiam. Só não interiorizei foi a absoluta falta de sentido da vida, o absurdo. Não, para mim a vida tem todo o sentido que eu quiser que tenha, todo o sentido que eu for capaz de lhe dar.

"O Mito de Sísifo" mostrou-me também a rotina, a terrível rotina. Levantar, 4 horas de trabalho, almoço, mais 4 horas de trabalho, jantar, ver televisão, deitar e levantar outra vez. Com o Mito de Sísifo o meu porquê levantou-se e eu comecei imediatamente a lutar contar a rotina, antes ainda de ela ter qualquer hipótese de se instalar. E é uma luta da qual não abdico...

"O Homem Revoltado". Sim, senti fortemente o desesperado confronto entre a interrogação do homem e o silêncio do mundo. Mas já deixei de sentir que a vida seja absurda. "Se em nada se acredita, se nada possuí um sentido e se não podemos afirmar nenhum valor, tudo se torna possível e tudo carece de importância". Mas deixemos isso...

Sabes, continuo a acreditar na felicidade como destino. E o mundo atira-me com sofrimento. Mas que importa isso? Eu tenho o direito de continuar a acreditar naquilo que bem quiser, enganar-me se preciso for. Ou não tenho? Voltando ao homem revoltado: "à falta de uma felicidade incansável, um longo sofrimento ao menos constituiria um destino. Mas não, as nossas piores torturas terão um dia que acabar. Certa manhã, após tantos desesperos, uma irreprimível vontade de viver virá anunciar-nos que tudo acabou e que o sofrimento não possui mais sentido do que a felicidade." Ora, eu sei muito bem que não há verdadeiros destinos, ou pelo menos que não há destinos com sentido, mas que raio me importa isso? Eu acredito e pronto. Acredito na felicidade e no amor. E luto por eles. E como eu não me sinto disposta a desistir de lutar, hão-de aparecer, é que nem poderia ser de outra forma.

Mas, por vezes, canso-me, sabes? Por vezes, tenho vontade de fugir, de negar tudo isto. Mas eu não fujo, logo...

Bom, voltemos à literatura... Dostoievsky, para terminar, "Pode uma pessoa viver e manter-se dentro da revolta?" Nada sei quanto ao resto do mundo. Mas eu posso, a minha revolta em aceitar a falta de sentido da vida, dá-me a minha paixão de viver. A minha revolta em aceitar que a rotina se instale, dá-me a excentricidade e a loucura que dão cor ao meu mundo. A minha revolta em acreditar que a humanidade é uma merda, dá-me ágape. Olha, gosto de ser uma revoltada, hehehehe. E pouco me importa o que o resto do mundo pensa das minhas crenças. :)

Pronto, fico por aqui. Espero que tenhas um dia feliz, minha querida.»

Na verdade, muito pouco mudou... e eu continuo a ser quem sempre fui. :)

Carta para um amigo ausente

Olá, meu querido. :)

Há já muito tempo que não te escrevo, não há? Querido, tu estás sempre no meu coração. E sabes bem que eu nem sequer acredito no tempo e na distância, de modo que está tudo certo. ;)

Sabes, o meu mundo continua estapafurdiamente feliz. Ah! Não me perguntas porquê... sabes bem que não é preciso razões para se ser feliz. Eu adoro tudo isto, estes instantes em que te apetece sorrir e sorris, sem necessidade de razões transcendentes. Cada vez mais sinto que a vida é simplesmente maravilhosa. E, obviamente, sou suficientemente infantil para o dizer e repetir as vezes que me apetecer... hehehehe.

Aqui neste blog, tenho um pequeno post sobre o Míto de Sísifo. Diz o seguinte: Camus disse que era preciso imaginar o Sísifo feliz – actualmente eu não consigo conceber um Sísifo que não seja feliz. Sim, mesmo carregando a rocha montanha acima, mesmo sabendo que a rocha chegará ao topo do monte e necessariamente rolará até lá baixo e tudo recomeçará de novo... não vejo a inutilidade de outrora. Pelo contrário, vejo instantes profundamente significativos. Vejo a pausa reconfortante, o olhar que se deslumbra com a beleza da montanha, os olhos que se fecham suavemente sob o sol intenso. Será preciso algo mais?...

De certa forma, creio que já não quero um destino, o caminho esbate-se um bocadinho e é a caminhada que passa a ser cada vez mais importante.

Ok, voltemos ao mundo real. :)
No meu mundo real, os meus amigos estão fartinhos da minha contínua felicidade, para eles é um bocadinho como a cena do Tarantino no programa do Conan, em que ele disse que foi ver um filme qualquer romântico, com uma história simples e feliz, sem grande dramas, e quase teve que ligar para a linha de apoio a suicidas. :)

Por isso escrevo-te a ti, meu querido, pois sei bem que tu não achas toda esta minha felicidade enjoativa. Quanto a mim, hum, que posso dizer? Nem imaginas a quantidade de pessoas que me telefonam quando estão mal e só quando estão mal. Começo a ver que perco o meu tempo, pois nada do que eu diga parece fazer qualquer diferença e, o que é ainda pior, por vezes perco também a minha boa disposição. Eu não consigo que a minha felicidade passe para eles e, muitas vezes, acabo esgotada e triste. Às vezes, parece-me que eles não querem ser felizes. Ou, então, já estão demasiado habituados à complexidade que criaram nas suas vidas. E a felicidade é uma coisa simples.

Meu querido, eu sei muito bem que uma das coisas que me deixa feliz é precisamente o amor que há na minha vida. Eu amo profundamente o Alexandre e sei que sou amada. Essa vontade de um amor verdadeiro e correspondido foi uma das mais profundas necessidades que eu tive ao longo da vida. E só quando o alcancei é que consegui acalmar e ser verdadeiramente eu própria. De modo que eu entendo a necessidade deles, entendo o desespero deles que, na maior parte das vezes, passa por relações amorosas infelizes. No entanto, quando eu lhes digo que esse tipo de realização só depende de cada um de nós, aborrecem-se. Sim, sei bem que se escutarmos a maioria das pessoas, hão-de desencantar milhões de razões que nos mostrarão como isso é ridículo, que, para começar, o amor verdadeiro nem sequer existe ou, se existe, é por mero acaso. Não é, digo-te eu. E, acredita, eu sei do que falo. Saberão também eles?...

Um amor intenso e verdadeiro, um amor correspondido, um amor que dê cor e alegria à nossa vida, é na verdade um milagre, mas um milagre que depende de nós. Temos que o plantar bem fundo no nosso inconsciente, temos que o fazer germinar e alimentá-lo para que continue sempre a florescer. Sim, temos que tratar dele sempre, porque ainda que nasça e floresça, se nos esquecermos de o alimentar, seca e morre. Mas depende sempre de nós, da nossa dedicação. No entanto, não é fácil. E é exactamente por isso que muitos não o vivem, porque ficam-se pelas conhecidas soluções de facilidade... de que se queixam, então?

Digo-lhes que têm que pensar no amor que há-de vir como se já existisse. Peço-lhes para não se sentirem ridículos e de modo algum falarem nisso... há que manter o segredo, isso ajuda a acreditar. Se dedicarem os primeiros e os últimos momentos do seu dia a esse amor que querem, se o imaginarem, se acreditarem nele, sem particularizarem em relação a uma ou outra pessoa, se sentirem que esse amor intenso de alguém que já está na sua vida, mas que ainda não conhecem pelo nome, é real... então, acontecerá de verdade, será real.

Há um filme engraçado, que eu gosto muito, Amor e Vacas, de Harry Sinclair. Bem, o filme é simplesmente delicioso. Conta a história de uma mulher que vive um amor feliz mas, deixa-se levar por medos irracionais e quase perde o homem da vida dela. A história começa quando ela por descuido atropela uma mulher idosa, que acaba por não sofrer nada. Ainda assim, percebe-se que ela se sente culpada. A mulher entretanto diz-lhe para ela se manter quente, aconchegada. E isso desencadeia o medo dela, o medo de que a relação de algum modo arrefeça... a partir dali, tudo se torna hilariante mas comovente, complemente estranho mas ainda assim real naquilo por que se luta. E mostra bem como nós temos sempre crenças... às vezes, estão é mal direccionadas. Às vezes acreditamos no que só nos faz mal. Tememos que a felicidade acabe e, naturalmente, a felicidade acaba. Outras vezes, temos medo que a felicidade nunca apareça... e não aparece. Para quê ter medo?...

Por falar em filmes, domingo vamos ver Nightwatching, do Greenaway. Bem, já nem me lembro há quanto tempo não vejo um filme do Peter Greenaway no cinema. :))

Bem, tenho que ir, vou almoçar.

Até amanhã, doçura. :)

terça-feira, setembro 30, 2008

Receita de queijnhos de bolota

Receita do livro de Soror Maria Leocádia Tavares de Sousa, que professou no Convento da Conceição de Beja.

Ponha 500 g de açúcar em ponto de cabelo e deite 500 g de bolota, pelada e ralada. Junte uma clara de ovo e um pouco de canela. Retire do lume depois de ferver e deixe arrefecer. Com esta massa fina, molde com as mãos uns queijinhos, metendo no meio recheio de ovos-moles.

Fonte: Sociedade agrícola do Freixo do Meio

Nota: esta receita utiliza as bolotas doces, provenientes da azinheira. Se se quiserem usar bolotas de carvalho, é necessário proceder em primerio lugar à eliminação dos taninos em excesso.

domingo, setembro 14, 2008

Pequenos almoços de fim-de-semana

Chá e scones...


De vez em quando, convido alguns amigos para tomar chá, em locais absolutamente fantásticos, onde certamente não há nenhum salão de chá, o que me obriga a levar tudo, do bule às chávenas, scones, brioche e algumas das minhas compotas caseiras. :)

Hmm, é certo que esses momentos extraordinários dão imenso trabalho… mas também criam memórias. :)

sábado, agosto 09, 2008

quinta-feira, julho 24, 2008

Ainda e sempre Kahlil Gibran

Ainda ontem pensava que não era
mais do que um fragmento trémulo sem ritmo
na esfera da vida.
Hoje sei que sou eu a esfera,
e a vida inteira em fragmentos rítmicos move-se em mim.

Eles dizem-me no seu despertar:
«Tu e o mundo em que vives não passais de um grão de areia
sobre a margem infinita
de um mar infinito.»

E no meu sonho eu respondo-lhes:
«Eu sou o mar infinito,
e todos os mundos não passam de grãos de areia
sobre a minha margem.»

Só uma vez fiquei mudo.
Foi quando um homem me perguntou:
«Quem és tu?»

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

mundo real

A criança que brinca com os meus sonhos
ri de mim e da minha adulta descrença...

Eu falo-lhe de despertadores, oito horas de trabalho,
rotinas e preocupações, correrias e cansaços...
e ela mostra-me lugares eternos e imutáveis
onde, diz ela, eu continuo inteira
onde eu sou quem sempre fui ou serei...

Eu acredito na criança
e brinco com o tão celebrado mundo real...
pouso a chávena do meu café da manhã no chão
perto da pedra de Intihuatana em Machu Picchu,
passeio à hora do almoço pelo deserto de Gobi...

E a criança ri quando aqueles que não sonham
me atribuem um rótulo e pensam que isso é que é real...

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

mundos

Olho o mundo fora de mim...
não me é revelada nenhuma verdade
não vejo sentidos para encontrar ou perder
não tenho a luz de um dia iluminado
nem a noite é noitíssima...

Sorrio e sei que estou a olhar para o lado errado
só em mim se encontra o meu caminho
o meu sentido e a minha verdade...

Olho o mundo dentro de mim...
perfume de flores silvestres, de ervas e de romã
azul transparente no apelo do sol
frescura refrescante da água cristalina
e repouso dos prados verdejantes...

entre o dia e a noite...

segunda-feira, outubro 08, 2007

Mais sonhos...

A noite passada sonhei que estava num campo verde, infindável. Estava sozinha e sentia-me muito bem. Tudo era tranquilo, parecia-me um mundo onde tudo estava no lugar certo...

À minha frente havia imensos ovos, grandes como ovos de avestruz... E, como se fosse a única coisa certa a fazer, comecei a desfazer os ovos com as minhas mãos. Os ovos desfaziam-se como se estivessem cozidos, caindo no chão à minha volta bocados de clara espojosa e branca. No centro havia outro ovo, de ouro, que eu guardava.


A imagem faz parte do painel central de The Garden of Earthly Delights, de Hieronymus Bosch.

terça-feira, outubro 02, 2007

Se não foste amado, foi porque não tinhas que ser...

Ontem recebi sms de um amigo, onde se interrogava: “porque é que só importa o amor?” Claro que entendi que a questão se referia ao enamoramento. O enamoramento, o amor paixão, não é ainda o caminho do amor... mas, se pensarmos no amor de um modo abrangente, nas suas inúmeras manifestações, que mais haveria de importar para além do amor?...

“Ainda que eu falasse línguas, as dos homens e as dos anjos, se não tivesse amor, seria como sino ruidoso ou como címbalo estridente.
Ainda que tivesse o dom da profecia, o conhecimento de todos os mistérios e de toda a ciência; ainda que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tivesse amor, nada seria.
Ainda que eu distribuísse todos os meus bens aos famintos, ainda que entregasse o meu corpo às chamas, se não tivesse amor, nada disso me adiantaria.”

“O amor é paciente, o amor é prestativo. Não é invejoso, não se ostenta, não se incha de orgulho. Nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.”

O amor é o caminho, porque “O amor jamais passará".

"As profecias desaparecerão, as linguas cessarão, a ciência também desaparecerá. Pois o nosso conhecimento é limitado; limitada é também a nossa profecia. Mas, quando vier a perfeição, desaparecerá o que é limitado.”

O amor paixão é limitado, mas o amor como caminho é ilimitado, é a perfeição. O importante não é ser amado... importante é fazer do amor, sobretudo do amor compaixão, destino!

“Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Depois que me tornei adulto, deixei o que era próprio de criança.”

À criança foi dito: ama o próximo como a ti mesmo. E só na idade adulta surgiu a confusão e a constatação de que nunca lhe tinham ensinado a amar-se a si mesmo...

“Agora vemos como em espelho e de maneira confusa; mas depois veremos face a face. Agora o meu conhecimento é limitado, mas depois conhecerei como sou conhecido.

Agora, portanto, permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e o amor. A maior delas, porém, é o amor.”

Eu acredito verdadeiramente no caminho do amor. E acredito também que, cada vez que nos afastamos do amor, estamos a contrair-nos, a involuir e a desaparecer...

Nota: Os excertos são da Primeira Carta de S. Paulo aos Coríntios

segunda-feira, agosto 27, 2007

Procura os teus caminhos...

“Abre todas as janelas que encontrares e as portas também. Persegue um sonho, mas não o deixes viver sozinho. Alimenta a tua alma com amor, cura as tuas feridas com carinho. Descobre-te todos os dias, deixa-te levar pelas vontades, mas não enlouqueças por elas. Procura, sempre, procura o fim de uma história, seja ela qual for. Dá um sorriso para quem se esqueceu como se faz. Acelera os teus pensamentos, mas não permitas que eles te consumam. Olha para o lado, alguém precisa de ti. Mergulha de cabeça nos teus desejos. Procura os teus caminhos, mas não magoes ninguém nessa procura. Arrepende-te, volta atrás, pede perdão! Não te acostumes com o que não te faz feliz, revolta-te quando julgares necessário. Alaga o teu coração de esperanças, mas não deixes que ele se afogue nelas. Se achares que precisas voltar, volta! Se perceberes que precisas seguir, segue! Se estiver tudo errado, começa novamente. Se estiver tudo certo, continua. Se sentires saudades, mata-as. Se perderes um amor, não te percas! Se o achares, segura-o!”

Mandaram-me este texto por email. Supostamente seria da autoria de Fernando Pessoa... hum, um bocadinho estranho para Fernando Pessoa. Bem, seja de quem for, é muito interessante. :)

quarta-feira, julho 04, 2007

Vitória de Samotrácia


Sem medo e sem arrependimento
entras no mundo dos sonhos e do ar
da vida que se vive a cada momento
sem memórias e sem pesar...

E quem no mar voa contigo, minha amada?
Só aqueles que voam contigo te podem amar!
Quem não tem asas vê-te imóvel e quebrada
e passa pela vida como por ti, sem sonhar...

É esse teu ímpeto do voo que eu amo
a tua força e a tua vontade…
É a tua natureza inteira que eu chamo!...

Senhora, quem de nós tece o encantamento
com a ilusão que é a tua verdade...
com o sonho que à própria vida dá alento?...

La Belle Heaulmiere


quinta-feira, maio 10, 2007

Um pequeno milagre para a Tanira

Sexta-feira, dia 4 de Maio, quando chegamos a casa após um longo dia de trabalho, só a gatinha Nabica veio ter connosco... a pequena Tanira não aparecia em lado nenhum. Procurámo-la por todo o lado mas, sempre sem resultado. À medida que a noite avançava, o medo aumentou e pedimos ajuda a vários amigos. Mas a Tanira continuou sem aparecer.

Acreditamos que no dia seguinte seria mais fácil. Mas não foi. Passamos o fim de semana em desespero a tentar encontrá-la. Colocamos papéis a procurá-la por todo o lado. Segunda-feira de manhã contactei a ABRA que de imediato colocou o anúncio no seu site. Contactamos veterinários e gatil, colocamos na zona mais alguns papéis. E continuamos sempre a procurá-la, sem saber que mais poderíamos fazer...

Na noite passada (do dia 9 para o dia 10 de Maio) acordei em sobressalto com um estranho sonho... comecei por sonhar com duas pessoas da ABRA. No meu sonho uma dessas pessoas entrega-me a Tanira, que era uma folha de papel dobrada e diz-me que a Tanira está a morrer. E, de imediato, afastam-se ambos de mim. Eu sigo-os por um sítio negro, com motores e peças mecânicas, muito sujo. Acordo assustada. Levanto-me de imediato. Naquele momento, a meio da noite, acreditei sem qualquer dúvida que a Tanira tinha subido para o motor de um carro e que precisava de ajuda para voltar a sair. Recusei-me a questionar fosse o que fosse dessa minha certeza e fui procurá-la.

Mais de uma hora depois de andarmos às voltas na rua, às 3 ou 4 da manhã, fixei-me num carro, sem saber muito bem porquê. Mas se não havia nada mais do que intuição, porquê parar a meio? Não me dizia a intuição que era aquele carro? Ficamos por lá, chamamos a Tanira vezes sem conta, sem obter qualquer resposta. Quando já estávamos quase a desistir, o meu namorado achou que tinha visto pêlo de gato, pouco depois achou que estava a ver a Tanira... bem, a partir dali tentamos tudo, sempre sem resultado. Mesmo assim, não desitimos. Veio a polícia que, infelizmente, nada pôde fazer. Disse-nos a morada de registo do veículo mas, era noutra localidade. Não desistimos. Achamos que era assim porque por alguma razão o registo da polícia não tinha sido actualizado... sim, sabíamos bem que tudo aquilo parecia desespero, completo desespero. Mas quisemos acreditar que era mesmo uma intuição fortíssima, com tão pouco de racional que até temos vergonha de a admitir. E simplesmente decidimos não desistir. Para assumir que estávamos errados, tanto fazia ser naquele momento como umas horas depois. Esperamos ansiosos pela manhã.

A primeira pessoa a quem nos dirigimos na rua, hoje de manhã, sabia quem era o dono daquele carro, que morava dois prédios acima... ainda com mais ansiedade, esperamos por uma hora um pouco mais aceitável e tocamos à campainha.

Foi um acto de fé! E essa fé foi totalmente recompensada no momento em que foi aberto o capô do carro (que por obra e graça do destino estava avariado) e vimos a Tanira lá, na manhã do dia 10 de Maio, quinta-feira, depois de ter estado lá presa desde o dia 4, sexta-feira anterior.

Muito obrigada, Universo! Muito Obrigada!!!

terça-feira, maio 08, 2007

Axel Munthe e O Livro de San Michele.

Hoje, quero falar de um dos meus grandes amigos: Axel Munthe. Conheci-o através d’O Livro de San Michele, quando eu era ainda uma adolescente. Bem, nessa altura, o meu amigo Axel já tinha morrido há bastante tempo. Vivemos separados não só pelo espaço, mas também pelo tempo. No entanto, espaço e tempo perdem a sua invencibilidade face a outras realidades, como o amor ou a amizade. :)

O Livro de San Michele criou dentro de mim um lugar eternamente luminoso, onde me sinto verdadeiramente eu própria. E o Axel faz parte do meu álbum de família. A ilha de Capri, na ponta sul do golfo de Nápoles, onde dizem que nunca fui, já acalmou muitas das minhas dores.

Com esse livro, noutro tempo, eu escolhi afastar-me dos rótulos e procurei o sol e o mar infinitos, sobretudo quando estava, como agora, fechada num gabinete com luz artificial.

Independentemente daquilo que outros quisessem que eu acreditasse, eu sabia que, como diria o Deepak Chopra, eu era o universo inteiro a sonhar com pequenos lugares. Então, que esses sonhos fossem agradáveis, que os meus pensamentos trouxessem até mim lugares onde eu sorria com a alma, onde a sensibilidade e o absoluto amor à vida fossem constantes.

Há tantas fotografias no meu álbum de família de pessoas que nunca vi e que nunca verei. Contudo, estão lá. São meus amigos. Compreendem-me. Vivem o mesmo deslumbramento face à vida e ao sonho. Caminhamos juntos. :)


quinta-feira, abril 19, 2007

Caminhar...

Acordar

Anteontem, quando saía do trabalho, ainda embrenhada nos meus pensamentos sobre questões laborais, senti o impacto do cheiro da terra quente e molhada. Apanhou-me desprevenida. Agarrou-me e abanou-me no meu entorpecimento do dia a dia, no meu sonambulismo próprio desta minha vida quotidiana, onde milhares de pensamentos povoam a minha mente a cada instante, onde me permito viver infinitos passados e futuros - e nenhum presente.

Se dissesse que foi uma espécie de epifania - mutatis mutandis -, nem sequer exagerava muito. Mas não vou dizer nada disso. ;) Contudo, não posso deixar de referir a intensa sensação de deslumbramento. Mais tarde, tive percepção que isso se deveu apenas a ter realmente estado lá, a ter vivido de facto aquele instante, o presente. Durante um momento, nada mais importou, era como se nada mais existisse a não ser aquele preciso instante. E, na verdade, nada mais existe... nada, a não ser precisos e preciosos instantes.

Não é de modo nenhum a primeira vez que isto me acontece, parece-me até que é um tipo de acontecimento mais ou menos recorrente. Lembro-me, a título de exemplo, do último eclipse lunar, em que vivi algo similar. O momento em que saí do carro no alto da montanha, onde fui talvez para me sentir mais perto do céu... e, claro!, o eclipse lunar que pareceu materializar-se à minha frente. Que posso eu dizer? A tal sensação de despertar. É o que eu sinto nesses momentos. Há indiscutivelmente o deslumbramento e a forte sensação de estar desperta, como nunca me parece que estou.

Lembrei-me agora de um velho filme, do qual me apetece falar um bocadinho. Pois é! Creio que já quase me tinha deixado deste vício de dizer o que me vai na alma. Mas parece que há vícios que nunca morrem. De resto, também não me parece que seja preciso justificar-me. ;)

O sabor da cereja, de Kiarostami. Foi um filme que me marcou bastante, há uns anos atrás, pela temática da depressão profunda. O filme começa por nos mostrar um homem num carro, às voltas numa estrada de terra batida numa paisagem árida. Bom, com um bocadinho de boa vontade, podemos concluir que o personagem anda às voltas num deserto. Que procura? Na verdade, procura muitas coisas... mas, naquele momento, concentra-se em algo específico: procura alguém que lhe tape o buraco que ele fez e onde se vai deitar para morrer um destes dias. Sim, alguém que vá ao buraco dele quando ele estiver morto e que o tape, somente isso. Mas parece que ninguém quer aceitar... Fica a questão: porque é que ele ainda se preocupa com algo tão absurdo? Eu acho que é simplesmente porque a morte planeada é tão violenta que, se não nos concentrarmos em pequenos pormenores que nos afastem mentalmente do nosso objectivo, se calhar não só não a conseguimos realizar, como ainda perdemos definitivamente a sanidade mental.

No filme (estou a contá-lo de memória, vi-o há 7 ou 8 anos, de modo que há coisas que podem falhar) há outro momento importante: ele encontra um homem que finalmente decide ajudá-lo, mas antes quer contar-lhe uma história: um suicida afasta-se de casa de madrugada, pára junto a uma árvore e sobe para prender a corda com que irá enforcar-se. Ao prender a corda, sente nas mãos algo macio, com um cheiro intenso, apercebe-se que é fruta e leva-a à boca. Cerejas (ou amoras). E o homem deixa-se estar um bocadinho, a saborear as cerejas... entretanto, o sol começa a nascer. E é esse o momento de revelação, o momento em que os sentidos que pareciam estar entorpecidos, voltam em pleno. E com o presente, com o agora, acordamos. Ao acordarmos, a sensação de que a vida é absolutamente maravilhosa é inevitável.

Lembro-me que na altura fiquei fascinada. Também eu penso que é sempre a vida que se revela. Aquilo que nos salva e que nos devolve a nós próprios é algo que sempre esteve lá, algo que nunca perdemos verdadeiramente... a própria vida, feita de pequeninos instantes.

Só um outro momento do filme: o fim. O filme tem um final verdadeiramente assombroso e, na minha opinião, perfeito. O homem deita-se no seu buraco para morrer e o filme acaba. Mas acaba precisamente mostrando-nos imagens da equipa de realização, do actor a confraternizar... e não será um pouco assim também na vida? Não estaremos de certa forma a representar também um papel, do qual já não sabemos sair é certo, mas ainda assim e só um papel...

Talvez só estejamos verdadeiramente vivos quando estamos realmente no presente, sem passados e sem futuros. Sem máscaras e sem personagens... a sós, agora.


quarta-feira, abril 18, 2007

Hoje não acordei...

... pela simples razão de não ter dormido. Há 3 dias/noites que ando com insónias. Depois, durante o dia não me sinto realmente desperta. Até os meus pensamentos têm o seu quê de sonâmbulos. Hum... sinto uma estranha e invulgar tendência para pensamentos hardcore. :) Na verdade, há que dizê-lo, não se traduzem em vontade real. Sei lá. Diz que é uma espécie de curto-circuito mental que induz uma predisposição para imagens hardcore banaizinhas de tão inconsequentes. Bah!

Mudemos de assunto. Ou não. Tanto faz. Continuemos então com a estranheza. Hoje, perdida no meu absoluto torpor mental, reparei que no café, onde vou todos os dias da semana pela hora de almoço, havia uma pequenina árvore de Natal, no meio de uma prateleira, entre chicletes e chocolates. Questão: estará lá desde o Natal?... E só hoje é que reparei? Bem, que é que eu posso dizer? É claro que isto me chateia. Porque sim! A merda da minúscula arvorzinha de Natal tornou-se, de repente, importante. Sei bem que, a partir de hoje, todos os dias a procurarei mal entre no café. Como se aquele berloque da loja dos trezentos tivesse importância. Porquê!? Só porque ainda lá está, fora de tempo? E quem sou eu para definir o tempo de validade de uma árvore de natal? Sou alguma espécie de entidade reguladora? Bah!

Concordo: devia estar a dormir!!! Sniff, sniff, sniff...

Hum... Natal, não era? Bem, no Natal passado mudei a mensagem de "Bom Natal e Próspero Ano Novo" e atrevi-me a enviar para a habitual lista de sms o seguinte: "Bom Diz Que É Uma Espécie De Solstício!". Recebi uma resposta. Uma. Só uma! E não pude deixar de pensar que a culpa era dos Gato Fedorento! :) Saberão eles que por sua causa fiquei privada dos tradicionais votos de Bom Natal? E importar-se-ão?... Hum... Acho que é melhor ir beber outro café.

quinta-feira, abril 12, 2007

Mude - Edson Marques

Mude,

mas comece devagar,
porque a direção é mais importante
que a velocidade.

Sente-se em outra cadeira,
no outro lado da mesa.
Mais tarde, mude de mesa.

Quando sair,
procure andar pelo outro lado da rua.
Depois, mude de caminho,
ande por outras ruas,
calmamente,
observando com atenção
os lugares por onde
você passa.

Tome outros ônibus.
Mude por uns tempos o estilo das roupas.
Dê os seus sapatos velhos.
Procure andar descalço alguns dias.

Tire uma tarde inteira
para passear livremente na praia,
ou no parque,
e ouvir o canto dos passarinhos.

Veja o mundo de outras perspectivas.
Abra e feche as gavetas
e portas com a mão esquerda.

Durma no outro lado da cama...
depois, procure dormir em outras camas.

Assista a outros programas de tv,
compre outros jornais...
leia outros livros.
Viva outros romances.

Não faça do hábito um estilo de vida.
Ame a novidade.
Durma mais tarde.
Durma mais cedo.

Aprenda uma palavra nova por dia
numa outra língua.
Corrija a postura.
Coma um pouco menos,
escolha comidas diferentes,
novos temperos, novas cores,
novas delícias.

Tente o novo todo dia.
O novo lado,
o novo método,
o novo sabor,
o novo jeito,
o novo prazer,
o novo amor.
A nova vida.

Tente.
Busque novos amigos.
Tente novos amores.
Faça novas relações.

Almoce em outros locais,
vá a outros restaurantes,
tome outro tipo de bebida
compre pão em outra padaria.
Almoce mais cedo,
jante mais tarde ou vice-versa.

Escolha outro mercado...
outra marca de sabonete,
outro creme dental...
tome banho em novos horários.

Use canetas de outras cores.
Vá passear em outros lugares.
Ame muito,
cada vez mais,
de modos diferentes.

Troque de bolsa,
de carteira,
de malas,
troque de carro,
compre novos óculos,
escreva outras poesias.

Jogue os velhos relógios,
quebre delicadamente
esses horrorosos despertadores.

Abra conta em outro banco.
Vá a outros cinemas,
outros cabeleireiros,
outros teatros,
visite novos museus.

Mude.
Lembre-se de que a Vida é uma só.
E pense seriamente em arrumar um outro emprego,
uma nova ocupação,
um trabalho mais light,
mais prazeroso,
mais digno,
mais humano.

Se você não encontrar razões para ser livre,
invente-as.
Seja criativo.

E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa,
longa, se possível sem destino.

Experimente coisas novas.
Troque novamente.
Mude, de novo.
Experimente outra vez.

Você certamente conhecerá coisas melhores
e coisas piores do que as já conhecidas,
mas não é isso o que importa.
O mais importante é a mudança,
o movimento,
o dinamismo,
a energia.
Só o que está morto não muda!

Repito por pura alegria de viver:
a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não
vale a pena!!!

Edson Marques - http://mude.weblogger.terra.com.br/

terça-feira, março 13, 2007

Fazer a vida acontecer e ser feliz

Há algum tempo, uma amiga disse-me que ainda haveria de me dizer: "olha para mim, cresci, fiz a vida acontecer e estou feliz".

Parece-me, contudo, que para fazermos a vida acontecer e sermos felizes, não será necessário crescer... pelo contrário, acho que precisamos voltar à infância e resgatar, em primeiro lugar, a capacidade de viver cada instante por si só. À medida que crescemos tendemos a preocupar-nos com o futuro e a pensar sistematicamente no passado... e no meio disso tudo, naturalmente esquecemo-nos do presente. Esquecemo-nos de ser felizes agora. E sermos felizes agora, no instante presente, só depende de nós. Podemos escolher ser felizes neste momento, neste pequeno instante, qualquer que tenha sido o passado e qualquer que seja o futuro.

Nos últimos tempos, eu tento conscientemente viver o agora. E tenho reparado que desse modo sou realmente muito mais feliz, até porque fico feliz com pequenas coisas nas quais antes nem sequer reparava. :)

Viver cada instante por si só, sem preocupações com o futuro, que não existe ainda, sem pensar no passado, que já não existe... é absolutamente libertador!

Creio que temos também que resgatar da infância a fé e a inocência perdidas. Chamar as coisas que ainda não são como se já fossem... ;)

Para voltar a acreditar com a fé inabalável das crianças não é preciso aprender nada novo... mas, talvez seja preciso desaprender algumas das convicções que fomos adquirindo ao longo da vida e que, acima de tudo, nos limitam.

Muitas vezes pensamos que se acreditarmos na beleza da vida acabamos desiludidos, temos medo de sofrer... e esquecemo-nos que, mesmo temendo tudo e fechados na nossa concha, podemos sofrer de milhares de modos diferentes. Citando Calvin & Hobbes: "uma das coisas fantásticas da vida é que nunca nada está tão mal que não possa ficar pior". :P

Mas também pode melhorar! :)

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Sonho da noite passada - noite de 12 para 13 de Fevereiro de 2007

Começo por sonhar que estou a acordar. Contudo, olho à volta no quarto e vejo de imediato que continuo a sonhar. Não recordo a razão que me levou a concluir isso. Mas o facto de saber que ainda estava a sonhar deixa-me deliciada. Decido sair, partir à aventura. Levanto-me e visto-me. Nesse momento reparo em dois gatos que estão comigo no quarto: uma gata tartaruga e um gato preto. Na realidade eu tenho duas gatas, uma tartaruga e uma preta. No entanto, no sonho eu não reconheci aqueles gatos como meus, eram apenas gatos. Os gatos não querem que eu saia. Eu rio e digo que vou mesmo sair. Visto umas calças de ganga e uma camisola preta. E calço umas sandálias cheias de cor, artesanais e muito bonitas - que eu não tenho :). Por último, pego no telemóvel e abro a porta do quarto.

Mal saio do quarto, a realidade transforma-se: à minha frente há um corredor enorme, com imensas portas. Muitas dessas portas também se abrem e outras pessoas aparecem no corredor. Pessoas que no sonho eu reconheço, que me cumprimentam e que eu cumprimento. No mundo real não conheço nenhuma daquelas pessoas. Quando acordei pensei que se calhar eram também sonhadores, mas isso já é a minha mente a fantasiar. Ou não. :)

Do corredor saímos para um pátio, descemos algumas escadas e deparamos com uma praça ampla, de uma cidade medieval, imponente, fantástica. Eles dirigem-se todos para o mesmo sítio e eu sigo-os. Paramos em frente a um imenso templo de pedra. O templo é magnífico. Eu fico completamente extasiada. Fico a olhar à volta, enquanto os outros entram no templo, que foi construído na encosta de um monte bastante íngreme. E, do sítio onde eu me encontro, o topo do monte parece uma continuação do templo. Ao ver o monte por cima do templo, sinto um reconhecimento imediato. O fascínio que o monte exerce sobre mim é absoluto. E, com alguma pena afasto-me do templo, em direcção ao monte. Pouco depois, começo a correr com desespero. Só páro quando sinto o impacto do lugar, a forte energia telúrica que me rodeia. Estou nitidamente numa fronteira: até ali percorri um terreno relvado, agora à minha frente começa a floresta, uma floresta incrivelmente densa. Eu hesito por segundos. E, de repente, apercebo-me que há imensa gente a caminhar para a floresta, parece uma procissão. Eu entro de imediato no cortejo e sigo com os outros. Quando entro na floresta, tenho percepção de um intenso murmúrio, a pouco e pouco vou dando conta de que as árvores, os arbustos, enfim, toda a vegetação daquela floresta "ronrona". Sim, é uma espécie de ronronar feliz. Fico maravilhada. E não recordo nada mais da passagem pela floresta sagrada, a não ser o momento em que saí da floresta, do outro lado do monte, ainda inundada de uma felicidade intensa.

À medida que vou descendo o monte, sinto o vento nos meus cabelos, ouço o riso das pessoas que me acompanham e eu própria tenho vontade de rir. Penso que não me lembro de me sentir assim tão viva, quando estou acordada. Ou feliz. :)

Descemos até um planalto vasto, onde há centenas de menires. Eu olho, mas não entendo, não consigo ver desenhos ou formas inteligíveis naquela floresta de pedras. Limito-me a seguir os outros... Lembro-me de sentir a forte intensidade do sol, enquanto serpenteava pelo meio da pedras. Até que por fim chegamos ao círculo central onde várias pessoas dançam, sem música, em transe. Eu e os outros começamos também a dançar. E, muito rapidamente, eu começo a sentir um calor incrível em todo o meu corpo. Danço durante imenso tempo, até que alguém me abana e me diz para seguir a procissão que abandona o círculo. Eu vou, cambaleante ao princípio, depois, já mais coordenada e consciente. Vejo que nos dirigimos para um lago, ainda mais em baixo, no vale.

Quando chegamos ao vale, eu reparo que o lago é articifial, uma espécie de piscina gigantesca, de pedra. As pessoas serpenteiam pelo lago, parecem caminhar sobre a água. Quando é a minha vez de entrar na água noto as pedras ligeiramente cobertas de água, por onde os outros caminham. Sigo o caminho das pedras. À minha volta a água é límpida, de uma clareza sobrenatural. Reparo que o lago tem uma profundidade incrível. Penso que se não estivesse a sonhar se calhar tinha medo de caminhar naquelas pedras que, na verdade, são colunas gigantescas. Penso por instantes no facto de saber que estou a sonhar e fico de imediato incrédula, constato como tudo à minha volta é tão incrivelmente real e as dúvidas intensificam-se.

A procissão segue em silêncio, num caminho serpentiforme. Por fim, chegamos a uma casa no meio do lago. Uma casa de pedra cujos alicerces são impossíveis de vislumbrar, de tão profundos. Entramos na casa de pedra por uma larga porta em arco. E, de repente, tudo escurece. Deparo com pequenas plataformas, cheias de pessoas, que, aparentemente, tem medo de avançar mais. Eu não sinto qualquer receio, só um fascínio enorme. Nada me poderia afastar dali. Continuo, habituando-me a pouco e pouco à menor luminosidade. As pedras por onde caminhamos são agora mais lisas e escorregadias. Mesmo assim, não tenho medo. Continuo a avançar, sempre pelo caminho das pedras.

Estou perto de um terraço enorme, onde nos aguardam algumas pessoas. Há apenas duas ou três pessoas entre mim e o fim do caminho. As pessoas, à minha frente, são recebidas de um modo efusivo. Eu reparo em especial num rapaz no fim da adolescência e numa mulher com uma idade indefinida, de quem todos parecem querer aproximar-se. Ela recebe a pessoa antes de mim e vai-se embora. Eu fico desolada. Avanço para o terraço, ajudada pelo rapaz que me dá a mão. Ele olha para mim e ri do meu ar infeliz. Sem largar a minha mão, leva-me, conduz-me ao logo de várias salas de pedra, paralelas, vazias, sem janelas, contudo com uma luminosidade própria, não muito intensa e sem partir de um ponto específico. Por fim, paramos. Ele larga a minha mão e outra jovem aproxima-se e coloca-me uma coroa de flores na cabeça. E, de imediato, fazem-me entrar noutra sala. Estão várias pessoas nessa sala, uma delas é a mulher que se afastou de mim à saída do lago. Ela sorri e pergunta-me se está tudo bem. Eu digo que a coroa de flores está apertada. Todos riem. A jovem que ma colocou, dirige-se para mim e alarga a coroa. A outra mulher volta a dirigir-se a mim, pergunta-me se já me sinto capaz de assumir a minha responsabilidade? Eu pergunto: «qual?» e acordo de imediato.

Acordo e quero voltar ao sonho. Fecho de novo os olhos e, por instantes, sinto que estou quase de volta. Mas o rapaz que me acompanhou pelas salas, fica à minha frente, diz uma palavra estranha que eu não entendo e eu acordo, de vez.


Obrigada. Muito obrigada pelo sonho. Sinto-me verdadeiramente agradecida. Não sei ainda como o interpretar. Não sei sequer se o quero interpretar. Mas, adorei o sonho. Obrigada.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Joyce Kilmer, Trees

I THINK that I shall never see

A poem lovely as a tree.


A tree whose hungry mouth is prest

Against the sweet earth's flowing breast;


A tree that looks at God all day,

And lifts her leafy arms to pray;


A tree that may in summer wear

A nest of robins in her hair;


Upon whose bosom snow has lain;

Who intimately lives with rain.


Poems are made by fools like me,

But only God can make a tree.

sexta-feira, novembro 17, 2006

Criança, queres voar comigo?...

Viajaremos sobre florestas frondosas ou sobre lagos de águas cristalinas, na clarividência das noites de luar. Sob as estrelas os nossos corpos, que são naves. E à nossa volta, fazendo eco nas nossas células, os latidos primitivos e intemporais da noite...

:)

Há duas noites, sonhei com que caminhava de noite num deserto, acompanhada apenas por crianças, íamos ao encontro da deusa Isis. E, de repente, começa a cair uma chuva miudinha, suave e morna, e nós rimos deliciadas. Agradeço a presença da deusa que, de algum modo, identifico com aquela chuva. A sensação de felicidade no sonho foi muito intensa. Depois acordei e passou. Mas mesmo ao acordar, a sensação era boa, por instantes senti uma paz enorme, bem pouco habitual nos tempos que correm.

Hmm, reparo que tenho sonhado muito com crianças. :)

terça-feira, março 21, 2006

Sonhos 3.0

Sonho da noite passada.

É o fim do dia e estou numa praça de uma cidade, cheia de árvores enormes, de folhas intensamente verdes. Árvores que não reconheço. Acompanham-me o Alexandre, uma amiga e um amigo. Tínhamos combinado algo mas, a minha amiga diz que não quer ir. Fico contente e volto para casa com o Alexandre e com amigos mas, já são outros os amigos que me acompanham, não lembro quem. Antes de chegarmos a casa paramos noutra praça, as casas são de pedra, muito antigas mas, com algumas fachadas em ruínas. O Sol ainda vai alto, há imensa claridade e alegria. Há pessoas a viver no meio da rua, muito felizes. Estão acampadas em tendas esvoaçantes, feitas de seda de diversas cores e sempre às riscas, as cores alternam-se e contrastam nas riscas dos tecidos. No sonho acho muito bonita aquela junção de ruínas e tendas coloridas, de seda. Sinto-me bem ali...

Estou dentro de um quarto enorme, cheio de luz mas, desta vez, luz artificial, é de noite. Uma mulher vestida de preto, que eu reconheço no sonho, mas que na verdade não sei quem é, escreveu com letras enormes e nas portas de um roupeiro algo que no sonho me agrada muito, já não sei bem o quê. As portas do roupeiro são em vidro, espelhos. O roupeiro está voltado com as portas para a parede, mas não encostado, dava para passar entre o roupeiro e a parede e ver o que lá estava escrito, o que eu fiz, por indicação dela. Sei que, entre outras coisas, me diz para não ir a algum lado, onde eu estava para ir. Fico muito feliz com a indicação dela e desisto de imediato de ir onde quer que seja que tinha planeado ir.

É ainda de noite, estou com a minha irmã, uma das minhas primas e o marido dela. Estamos no carro deles, estávamos parados, mas preparados para partir, para ir a qualquer lado, não sei onde. Entretanto, há outro carro que pára mesmo na nossa frente e deixa-se ficar com os faróis voltados para nós, toda aquela luz deixa-nos quase cegos. O marido da minha prima irrita-se e decide não ir onde estava planeado ir. Eu fico feliz, reparo na maneira como os vidros do carro estão incrivelmente limpos e acordo.

Hmm, sonhozinho insistente, não? E irritante!!! Bah.

segunda-feira, março 20, 2006

Sonhos 2.0

A noite passada sonhei que acordava noutro quarto e noutra cama. Abri a porta do quarto e deparei com um corredor enorme, repleto de portas fechadas... e por todo o lado gatos, muitos muitos gatos.
















Hmm, como devo interpretar este sonho? :)

Primavera, um poema de Rafael Morales

Era una noche azul; la primavera
inundaba mis sienes y mis manos,
y era el mundo, muchacha, un fruto inmenso,
cálido, abierto, mudo y entregado.

Sentí mi carne desprenderse, irse
por el paisaje misterioso y claro,
mi sangre fue con los arroyos lentos,
mi corazón perdióse en el espacio.

Era hermoso en la piel sentir el roce,
hecho leve suspiro, de los astros,
y tener en la mano, dulcemente,
un murmullo de nubes y de pájaros.

Me fundí con el aire, con las cosas,
sentí el fondo del mundo entre los labios
y palpité, en la noche inmensa, grande,
como un tremendo arcángel derramado.

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

Esta noite, querem voar comigo?

"Voam as andorinhas, é Verão. Voam libélulas, tão transparentes como a palavra libélula, voam rente ao ribeiro sem se molharem, são férias. Voa o vento, voa a música, voa o anjo, voa o grito do alto desta montanha até à outra montanha e constrói uma ponte por cima do vale, voa a luz de agosto das folhas das árvores (e faz manchas claras no chão), e eu ... eu também voo em sonhos."

Vá lá, não se riam de mim... sei bem que é um livro para crianças mas, chama-se álbum de família...

:)



Ainda não sei o que pensar do sonho da noite passada... mas estou feliz por termos estado de novo juntos, os três. Sinto-me agradecida. :)

Pablo Neruda, Nasci para Nascer

"... os meus textos foram as solidões montanhosas, o aroma acre dos restolhos, a vida pululante dos cárabos dourados sob os troncos derribados na selva, a espessura onde pende a cápsula de jade dos frutos do copihue, o corte do machado nos raulís, as goteiras que caíram sobre a minha pobre infância, o amor cheio da lua, lágrimas e jasmins da adolescência estrelada."

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Outras tardes...

Pequenos bandos de pardais a voarem por cima da tua cabeça, imagens reflectidas no chão. Sombras que brincam na nudez da terra transparente, quase luminosa. Carreiros pelo meio dos canteiros de um verde luxuriante. Amores-perfeitos. E tantas outras flores com cores quentes, que deslumbram e não precisam de nomes. A fonte por trás de ti, o barulho da água a cair, devagarinho, muito devagarinho. Terá sido isso que fez o tempo quase parar? O instante em que o tempo se transforma. Depois fechas os olhos e o teu mundo fica vermelho, laranja. Intenso e quente. Algo te faz cócegas na palma da mão, abres os olhos e vês a borboleta. Instantaneamente, tens vontade de chorar e sorris. A borboleta parte. Fechas novamente os olhos. Na tua mente uma frase de Shelley: "Dormitei e, numa revelação, vi o que não é possível ver com os olhos abertos". Brincas e, de repente, estás bem no meio de um jardim de trapézios azuis, um jardim que não é teu.

À tua volta vozes, muitas vozes. Voltas-te ainda mais para dentro de ti própria. Outras vozes. Agora, falam-te na linguagem mítica e tudo o que te dizem são fantasias intemporais, sonho e magia. Gibran a falar-te da alma, Chopra a insistir contigo para que continues a interrogar-te: "quem sou eu? quem sou eu?", Redfield a ensinar-te a reconhecer o caminho. E, de repente, a voz bem terrena da Yourcenar a mandar-te ter cuidado com os livros, com as vozes que encontras nos livros, insistindo contigo que a realidade não está nos livros, porque não a contém inteira. Mas, aqui, de olhos fechados, sentindo apenas o sol, tens a realidade por inteiro... mas ainda sentes a falta das vozes que te falam dos caminhos para novos mundos, não sentes? As tuas luzes de esperança e de verdade. Mais do que exercícios de memória ou contos do passado, essas vozes profetizam o que está à tua frente, mas é ainda o sol que te mostra a mais clara de todas as claridades. O sol...

18.09.2000

A criança (outro conto velhinho)

A mulher sem rosto aproximou-se da criança que olhava as estrelas com ar sonhador. A criança notou a presença da mulher sem rosto por trás de si, mas não se virou. A criança continuava a olhar as estrelas e a falar consigo própria acerca da beleza e da magia de tantas luzes.

Embrulhada nas suas roupas escuras, a mulher sem rosto apresentava uma máscara de velha. Naquele momento, permanecia quieta e calada, por trás da criança. E parecia ser capaz de ficar assim para sempre.

Estendendo um braço para a imensidão de céu à sua frente, a criança apontou uma estrela.

— Olha! Aquela é a minha estrela. Não há outra mais bela.... e é minha. Vês como brilha?

Após uns instantes de silêncio, a mulher sem rosto falou com uma voz cansada:

— Está muito longe, muito longe mesmo... Sabes, a luz demora imenso tempo a percorrer o espaço entre a estrela e a tua janela. Tanto tempo que quando tu olhas e vês a brilhante luz daquela estrela, podes estar apenas a olhar para os restos luminosos de uma estrela morta.

A criança não entendeu a mulher sem rosto. Estrelas mortas? A criança abanou vigorosamente a cabeça, fechou e abriu os olhos.

— Vês como brilha? — murmurou para si própria.

A criança pediu outra companheira. Desta vez escolheu uma jovem fada, contadora de histórias, de máscara sempre sorridente. A criança gostava do sorriso da jovem fada. Mas, por precaução, não lhe falou das estrelas.

— Minha fada querida, fala-me do mundo místico dos sonhos...

E a jovem fada, sempre de máscara sorridente, começou a cantarolar histórias em versos e rimas. Nesse instante, a criança soube que não queria aquela companheira. Mas também sabia que não valia a pena escolher outra.

Quando chegou a hora de dormir, a criança recusou a história para adormecer. Apenas quis ficar sozinha. E, de olhos fechados, a criança disse a si própria que quando fosse capaz de deixar que outros encontrassem a sua alma, estaria no mundo místico e iluminado dos sonhos.

Na manhã seguinte, a criança não pediu uma companheira. A criança dirigiu-se ao seu computador e escreveu apenas que queria falar com Deus. Para espanto da criança, a resposta demorou alguns minutos a surgir. E dizia o seguinte:

"Esta noite vai até à tua janela e escolhe uma estrela".

A Nave (um conto velhinho)

Foi numa das minhas longas viagens que eu a conheci. Avancei muito para além da paisagem familiar dos meus passeios, numa manhã em que o sol e o azul do céu convidavam à aventura.

Estava plenamente consciente da realidade do meu voo para outras paragens, mas nem por isso me sentia apreensiva. Deixei que os novos caminhos se estabelecessem sem reservas da minha parte e, quando dei por mim, estava na aldeia.

Levada pelo aparecimento súbito do sentido de sobrevivência, bem depressa pensei que era loucura não voltar para trás. Mas, por muitas ordens que eu desse, nenhum átomo me obedecia e eu vagueava por horizontes novos.

Tinha a minha imaginação em festa e, apesar dos perigos que os arbustos e certos recantos escondiam, estava feliz.

Não lembro quantas voltas dei, olhando com pouca atenção a eira e os campos em redor. Saboreava a satisfação plena, a beleza de saber-me leve e poder deslizar sem esforço, fazendo curvas segundo uma linha imaginária e imutável.

Era só eu e era livre.

Por fim, surgiu um pequenino momento de regresso a uma maior consciência do manto verde, com retalhos de granito, por baixo de mim. Olhei com olhos de ver e a solidão e a tristeza daquela que, em breve, seria a menina dos meus olhos, levaram a que me aproximasse.

Ela tinha um rosto oval e bonito, os cabelos negros estavam presos numa trança que lhe caía pelas costas. Mas foram os seus olhos, de uma cor indefinida, que imediatamente me mostraram maravilhas.

Calçava sandálias de tiras de couro, vestia calças de ganga desbotadas pelo uso e uma camisola de algodão, de mangas curtas, com riscas vermelhas e azuis. E, para minha delícia, tinha a idade certa para eu poder falar-lhe e ela ouvir-me - era muito nova.

Estava sentada debaixo de uma oliveira, aproveitando a sombra. Mantinha-se um nadinha encostada ao tronco, deixando as suas pernas descansarem na terra macia.

Aproximei-me devagarinho e com ares de convidada. Ela viu-me e certamente achou natural que eu parasse a alguma distância dela. Olhou para mim durante um bocadinho, depois estendeu uma das mãos na minha direcção e mexeu os dedos. Talvez ela esperasse que eu me afastasse, mas não me mexi. Em seguida, ela pegou numa pedra pequenina e atirou-a para perto de mim, com cuidado. Só para lhe fazer a vontade, levantei num voo rasteiro, dei duas voltas e pousei novamente. Quando voltei a olhá-la, ela sorria-me maravilhada.

Foi assim que tudo começou. Naquele instante, ficamos ambas a saber que éramos amigas. E, ainda sorridente, ela começou a falar-me.

— O que é para sempre? Queria tanto conhecer o tempo de um para sempre. Para sempre, para sempre, para sempre, sempre, sempre...

E a minha amiga olhava-me, novamente, com vestígios de tristeza e de solidão. Mas só duraram uns segundos. Ela riu, abanou a cabeça e o sol brilhou outra vez.

Longo tempo me deixei estar assim, esquecendo-me de responder à pergunta que a linda menina me tinha feito. Até que, por fim, a resposta surgiu:

Deixei que todo o meu corpo se elevasse e parti à procura de luz para seguir, raios de sol filtrados por farrapos de nuvens. Deixei-me simplesmente ser... para correr por entre astros cintilantes, feitos de sonho e de beleza, no corpo de cristal que é estrela e nave. Meu refúgio sob as tuas asas, minha morada... e ser casa pequenina, esfera que brinca e gira no céu azul. E correr. Parar. Correr, correr. Dançar no ar puro e leve, voar até ao infinito. E brilhar!... Sentir o meu coração agradecido pelos sonhos, pelo amor. Ser um com o universo. E ainda querer estar aqui e ser o corpo que dança, a nave que vagueia. Eu e todos. Eu. Inventar sempre novos caminhos. Seguir somente os passos da minha vontade. E ser totalmente na liberdade do voo. Ser essência e ser sonho. Ser feliz e, por momentos, ser para sempre!

O meu voo terminou. Dei um último giro, mais lento, e suavemente deslizei até ao chão.

Ela riu para mim, com lágrimas de felicidade nos seus olhos de cor indefinida. Depois levantou-se e começou a correr, voltando para casa. Uns passos à frente, parou por um bocadinho, atirou-me um beijo e disse:

— Agora já sei, obrigada!

Encontramo-nos durante muitas manhãs, à mesma hora. Ela estava sempre sentada debaixo da oliveira, à minha espera. Eu chegava, parava um pouco distante dela e olhávamo-nos. Depois, ela sorria-me e falava. Fazia perguntas difíceis, com ar de brincadeira. Ou então ria-se de mim, fazendo-me perguntas para as quais só ela conhecia as respostas. E eu também me divertia.

— Vou passar a rir como tu, sem fazer barulho. Se tu te ris assim, é porque é assim que deve ser...

Claro que não era. E eu não queria, de modo nenhum, perder o som cristalino das gargalhadas dela. Quando ela ria todo o mundo ganhava cor. Comigo isso era uma impossibilidade. Mas ria com ela, brilhando de contentamento.

Lembrarei para sempre como as minhas manhãs eram belas. Esperava ansiosa o nascer do sol. Cada raio de sol, do novo dia, trazia-me a alegria e o brilho dos olhos dela. E eu encontrava nas cores da manhã a sua presença, sentia no ressurgir da vida a sua vivacidade e tudo à minha volta evocava os seus movimentos, a maneira como ela se movia, quase dançando. E sempre, sempre a pureza do seu riso. Ela estava em todo o lado, era todo o meu mundo. Era a magia dela que fazia o mundo ser admirável. E quando eu deslizava no ar, sentia o seu carinho e o seu perfume. O meu mundo tinha sentido.

Cada encontro com ela apagava as memórias da sua ausência. E eu acreditava sempre tê-la conhecido. Ela era eu e eu era ela.

E dia após dia foi-se consumindo o Verão. Mas eu gostei ainda mais do mundo com as cores de Outubro. Ela falava-me do aroma intenso e agradável das maçãs, do anis e da cidreira a secarem ao sol, agora suave e aconchegante. Contava-me histórias de pés descalços na terra lavrada, húmida e macia. Dizia-me que com o vento que soprava de Oeste, viria tempo húmido e chuvoso. Mandava-me proteger do vento do Norte, que agora traria tempo muito frio.

À nossa volta, misturados com um restinho de Verão que não queria morrer, havia bocadinhos de Inverno nascidos prematuramente. Mas era ainda o tempo da magia, o mundo das cores multifacetadas, dos aromas fortes, dos sons renovados e dos sentidos completamente despertos. E a minha feiticeirinha brilhava, também ela, com as cores de Outubro.

E foi assim durante muito tempo, até que outro tempo surgiu.

Não lamento o dia em que separei os átomos do meu corpo, passando a ter apenas o tamanho de um grão de pó, mas onde todo o meu ser se concentrara. Assim teve que ser, para eu poder acompanhar a minha linda menina na sua partida para terras distantes.

Estive sempre com ela. Falei-lhe noite após noite, mas o seu conhecimento de mim perdera-se e ela já não me ouvia. Se ela pudesse encontrar-me, ver que eu estive sempre lá...

Fui a cor clara do sol da manhã, despertando-a. Fui a água que brinca e ri, no rio onde ela mergulhava. Fui a sombra no seu corpo, ao meio dia. Fui a areia branca e quente a seus pés, na praia infindável. Fui a carícia do vento nos seus cabelos. Fui as cores do pôr do sol e os reflexos nos seus olhos. Fui brilho na noite estelar, só para ela.
E foi assim até ao fim.

Um poema antigo

que fiz aos dias da minha vida?

se passei pelas mesmas ruas
nunca lhes vi a cor...
se rodopiei com os mesmos ventos
nunca lhes conheci o sabor...

não sei se me perdi na virtude ou no vício...
não sei se era indiferente ou se amava...
só sei que esqueci a chuva, quando chovia
e o sol, quando o dia clareava...

Mito de Sísifo

Camus disse que era preciso imaginar o Sísifo feliz – actualmente eu não consigo conceber um Sísifo que não seja feliz. Sim, mesmo carregando a rocha montanha acima, mesmo sabendo que a rocha chegará ao topo do monte e necessariamente rolará atá lá baixo e tudo recomeçará de novo... não vejo a inutilidade de outrora. Pelo contrário, vejo instantes profundamente significativos... vejo a pausa reconfortante, o olhar que se deslumbra com a beleza da montanha, os olhos que se fecham suavemente sob o sol intenso. Será preciso algo mais?...

Sisyphus, by Titian.

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Sonhos 1.5

Vou começar com um sonho que tive a semana passada: não sei se seria o início do sonho ou não, mas não me lembro de nada antes, nessa parte eu estou numa manifestação numa cidade americana (não sei qual), no inicio do século passado. Estou acompanhada por um homem jovem e extraordinariamente bem parecido. Ele pergunta-me se eu me lembro daquilo que estamos a ver, ao que eu respondo que não. E de imediato mudamos de cenário. Na imagem seguinte eu estou com ele dentro de uma casa, junto a uma janela, vejo uma paisagem urbana imponente, toda em pedra, mas de modo algum familiar... Há diversas ruas que se cruzam... mas mesmo à minha frente, vejo uma rua que parece ser muito grande. Nos edificios de ambos os lados do início dessa rua, há duas estátuas gigantescas e iguais: um homem nu a espetar uma espada num dragão... o homem do meu sonho pergunta-me se eu sei o que é aquilo e eu respondo que é fácil, é S. Jorge. A resposta irrita profundamente o homem do sonho, que diz qualquer coisa numa língua desconhecida para mim. Logo de seguida estamos noutra cidade, que me faz lembrar a idade média, entramos noutra casa... na sala há outro homem, está aparentemente a meditar. O homem que me acompanha pergunta-me se eu sei quem é a pessoa que está a meditar e eu digo que sim, refiro o nome de um amigo meu. Desta vez o homem do meu sonho sorri e acena que sim. Eu aproximo-me do meu amigo e nesse instante ele abre os olhos e vê-me, sorri, reconhece-me. De imediato o sonho muda e estamos os três noutro sítio, num deserto. Nessa altura o meu amigo vira-se para o homem que me acompanha e agradece a presença dele, chama-lhe venerável Hórus. Eu desato a rir e digo que aquele não é nada Hórus, onde é que está a cabeça de pássaro? Bom, isso irrita verdadeiramente o homem do meu sonho, que se aproxima de mim e me dá uma valente bofetada, que me projecta pelo ar alguns metros... e, antes de bater no chão, acordo.

Pois!... :) Bom, já agora vou contar outro, que aconteceu antes da noite de Imbolc. Sonhei que estava dentro de um círculo feito por uma cobra enorme, não ouroboros, era uma cobra com duas cabeças, uma cabeça em cada extremidade, que estavam juntas na entrada do círculo. E várias pessoas estavam no meu sonho, gritavam para eu fugir dali, mas eu não sentia nenhum medo, a cobra gostava de mim. Mas tanto insistiram que eu saltei o corpo da cobra e saí do circulo e, nesse instante, a cobra ficou furiosa e tentou apanhar-me com ambas as cabeças... acordei bem assustada.

Mais tarde, nesse dia, chegou mais um livro de uma colecção do circulo de leitores que eu ando a fazer. Era sobre os celtas. Bom, ao ver os torques (um torque é um típico colar celta, um círculo que não está unido e que muitas vezes termina com duas cabeças de animais, incluindo serpentes), não consegui deixar de associar ao meu sonho... Na verdade, senti uma espécie de revelação, uma sensação muito intensa de que era aquele o símbolo representado no sonho. Será? :)