quarta-feira, janeiro 05, 2022

Coisas doutro ano...

O FB trouxe de volta um pequenino post de 5 de janeiro de 2018.

«Hoje, deveria escrever pelo menos a um ou dois amigos, já não escrevo nada a ninguém há algum tempo. Em vez disso, volto-me para o face. :)

Bem, uma das minhas resoluções de Ano Novo foi deixar de falar da minha vidinha de trazer por casa e passar a falar de ideias. Mas, verdade seja dita, sabemos bem que os velhos hábitos demoram a desaparecer. ;)

Assim, querido face, permite-me que te fale do meu primeiro livro de 2018. No segundo dia do ano comecei um tratado das flores, de 1824, que já acabei. Admito que há uma certa estranheza num livro de botânica que não tem uma única imagem. Contudo, tenho de admitir que funciona muito bem como exercício de imaginação. De resto, tanto ou mais do que o que lá estava, apreciei o que se adivinhava: o carinho com que o autor tratava cada uma das flores do seu jardim. Esse carinho resulta da paixão, mas eu sinto que a paixão pelo mundo à nossa volta, ou mesmo pela própria vida, é algo que escasseia nos nossos dias. No mundo que nos rodeia não há um minuto de silêncio, de pausa, de paciência. É um mundo onde tudo tende a ser cada vez mais imediato e superficial. Uma superficialidade global e igual para todos, o que me entristece.

Passemos ao meu segundo livro de 2018: um ensaio de David Lodge, de 2002, A Consciência e o Romance. Prometem-me na capa que, depois de ler este livro, a minha percepção dos romances – e até da própria leitura – nunca mais será a mesma. Sem dúvida um objectivo ambicioso, que possivelmente não será realizado, mas não me posso queixar: «objectivos ambiciosos que simplesmente não se realizam» deveria se o meu nome do meio. :(

Que mais? Cá em casa, já acabamos de ver a nova temporada de Black Mirror, uma das nossas séries favoritas. Fantástica, como sempre. Antes disso, vimos The Handmaid's Tale, também muito boa. 

Hmm, percebe-se agora por que não escrevi aos meus amigos? Escrevo de um modo aborrecido, enquanto penso em torradas de pão de passas, barradas com manteiga e geleia, o que é delicioso, mas excessivo. E café acabadinho de fazer. ;) »

Art by Tanielle Childers.




segunda-feira, dezembro 13, 2021

A sedução fácil de Monet...

Hoje, o facebook trouxe de volta um velho post, onde me indicavam um pintor e eu teria que escrever sobre a sua obra. Bem, só o copiei para aqui, porque estou com saudades do meu amigo Endo e quero dizer isso ao mundo. Acarinho a saudade e sinto que tudo o resto já não importa.

«Calhou-me, então, a sedução fácil de Monet. ;)

Bem, a primeira imagem que me ocorre é a das mulheres com chapéus de sol... não se chamavam sombrinhas? A recorrência desse elemento é um bocadinho irritante, digo eu. Mulheres com longos vestidos brancos, em meticulosos jardins. Jardins de flores predominantemente brancas… Ah! E todas aquelas telas que Monet dedicou às ninféias. É engraçado como eu me lembro disso, várias vezes, ao ver os nenúfares em Tibães. Os nenúfares que aparecem num espaço sempre limitado, mas que Monet nos força a imaginar sem princípio nem fim. Admito que gosto desses quadros dele. :)

Hmm, lembro-me de piqueniques… creio que se chamavam almoços, não? Não importa. Lembro-me de um piquenique num jardim, outro num bosque. Gosto particularmente desse no bosque. Tento lembrar-me das árvores. Tílias talvez. Não sei. Mas sei bem que as mulheres estavam vestidas de branco, ou de cores bem claras, e que a toalha estendida no chão era imaculadamente branca. ;)

Ocorrem-me ainda as paisagens fluviais de Monet, que era apaixonado pelo Sena. Eu identifico-me completamente com essa paixão por um rio. Mutatis mutandis, é como diz a canção: 

I consider myself lucky to have fallen in love 

With a girl, the city, and the river of mud

Sim, bem sei. É melhor parar por aqui, antes que a minha mente me leve para Dalila Pereira da Costa, uma escritora que me deu parte da minha visão do mundo. Mas isso foge completamente ao tema, a não ser por um pequenino pormenor: se eu imaginar uma mulher com um longo vestido branco e um delicado chapéu de sol, essa mulher será sempre a minha querida Dalila. :)

Para terminar, escolho, então, a pintura Amapolas en Argenteuil, óleo sobre tela, Claude Monet, 1873. Pela eterna suavidade da luz, pelo céu, pelas manchas vermelhas dominantes, aquelas belas flores silvestres, papoilas, bem mais ao meu gosto. Ah! E por retratar um passeio de uma mulher com uma criança, que me faz lembrar os meus passeios com o meu filho, sem dúvida, dos melhores momentos da minha vida. :) »



domingo, dezembro 12, 2021

Sem forma, vaga e incerta...

Antes de ir dormir, deixo um velho poema da maravilhosa Sophia de Mello Breyner Andresen.


Às vezes julgo ver nos meus olhos

A promessa de outros seres

Que eu podia ter sido,

Se a vida tivesse sido outra.


Mas dessa fabulosa descoberta

Só me vem o terror e a mágoa

De me sentir sem forma, vaga e incerta

Como a água.


Para mim não vem nem terror nem mágoa, por me sentir sem forma, vaga e incerta como a água. O terror vem quando me construo ou deixo construir, afastando-me de quem eu sou de verdade. E quem eu verdadeiramente sou é algo que tanto encontro agora, como quando tinha cinco anos e ainda estava completamente despida dos papéis que a vida me iria atribuir.

Na minha modesta opinião, este tempo, que precede Yule, é o tempo certo para nos prepararmos, libertando-nos de velhas máscaras e de velhos rótulos, para encararmos o Sol nascente com a nossa face nua.





quarta-feira, dezembro 01, 2021

Como nos livramos da armadura que já não queremos?

Hoje, ao fim da tarde, quando o meu filho preparava a mochila para a escola e colocava lá, como habitualmente, um livro, perguntei-lhe o que é que ele andava a ler. Respondeu-me que era O Cavaleiro da Armadura Enferrujada. Bem, eu adoro esse livro, que foi escrito em 1987, por Robert Fisher. Na verdade, foi um livro muito importante para mim. Mas fiz de conta que não conhecia e perguntei-lhe:

- Então, é sobre o quê?

- É sobre um cavaleiro que precisou de uma armadura, mas depois não a tirou, a armadura enferrujou e ele deixou de ser capaz de a tirar. E, agora, anda à procura de maneiras de se livrar de uma armadura que já não precisa.

- Hmm... e isso é o quê?

Ele sorriu e respondeu:

- Uma metáfora. 

E, sobre isto, eu nada mais tenho a acrescentar. ;)

Hmm, enquanto me deixo ficar aqui, só por um bocadinho, sentindo o peso que eu ainda carrego e que já não preciso de carregar, uma voz doce, como poucas, vai cantando: 

Sunrise, sunrise

Looks like mornin' in your eyes

:)

Boa noite.









quarta-feira, novembro 24, 2021

Swing

Dentro de cada um de nós existe um swing próprio, autêntico. Algo com que nascemos, que é só nosso, que não se pode ensinar ou aprender. Algo que não podemos esquecer. Mas ao longo do tempo, o mundo pode privar-nos desse swing. Fica enterrado dentro de nós, sob o peso das desculpas que arranjamos para o que devíamos ter feito. Algumas pessoas até se esquecem de como era o seu swing...»

Somos condicionados, desde crianças, a pensar que há um caminho para a felicidade, de tal modo que nos habituamos a ver a felicidade como algo que irá acontecer no futuro, quando várias premissas se concretizarem. 

Na verdade, não há nenhum caminho que nos conduza à felicidade, porque a felicidade é que é o caminho.

Contudo, para entrar nesse caminho, precisamos do nosso swing... e, por mais que eu esteja a ser repetitiva, irei continuar a dizer isto. Faço-o, em parte, para me ensinar a mim própria. Também eu preciso de reencontrar o meu swing e dançar nas clareiras ao luar.

:)

Termino com esta pintura mágica: Le villi, 1906, de Bartolomeo Giuliano.



quinta-feira, novembro 18, 2021

Coisas que não há que há

Hoje, no dia do aniversário do saudoso Manuel António Pina, deixo aqui um poema do qual eu gosto muito: Coisas que não há que há.


Uma coisa que me põe triste

é que não exista o que não existe.

(Se é que não existe, e isto é que existe!)

Há tantas coisas bonitas que não há:

coisas que não há, gente que não há.

bichos que já houve e já não há,

livros por ler, coisas por ver,

feitos desfeitos, outros feitos por fazer,

pessoas tão boas ainda por nascer

e outras que morreram há tanto tempo!

Tantas lembranças de que não me lembro,

sítios que não sei, invenções que não invento,

gente de vidro e de vento, países por achar,

paisagens, plantas, jardins de ar,

tudo o que eu nem posso imaginar

porque se o imaginasse já existia

embora num lugar onde só eu ia…


Pintura de Amadeo de Souza Cardoso, 1917.

sexta-feira, setembro 25, 2020

Uma rapariga à janela

Não basta abrir a janela 

Para ver os campos e o rio. 

Não é bastante não ser cego 

Para ver as árvores e as flores. 

É preciso também não ter filosofia nenhuma. 

Com filosofia não há árvores: há ideias apenas. 

Há só cada um de nós, como uma cave. 

Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora; 

E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse, 

Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.


Alberto Caeiro


Hoje, o facebook de uma amiga trouxe este velho poema. Bem, na minha vivência da espiritualidade, este poema de Pessoa reflecte uma das minhas ideias principais: a noção de que o sujeito que vê e o acto de ver não são a mesma coisa. Esta noção leva-me à procura de uma representação do mundo, onde eu não detenho o foco central, mas sim o mundo em si mesmo. Contudo, a nossa visão do mundo e sua consequente representação, com o foco no sujeito, em quem vê, mesmo sendo um conceito moderno, está demasiado entranhada e não é nada fácil libertarmo-nos dela. 

Bem, para terminar, deixo uma janela para um mundo antigo, através da fantástica banda Sangre Cavallum e deste maravilhoso álbum Veleno de Teixo. E ainda uma rapariga à janela, de Salvador Dalí.



quinta-feira, setembro 24, 2020

Manhã de chuva

Post que coloquei no facebook:

Acordei triste esta manhã, mas hoje está um belo dia de chuva, não é um dia para se estar triste. :) A chuva, como tudo na vida, é mais bela quando é sentida. Como disse Bob Dylan, uns sentem a chuva, outros apenas se molham. Eu não quero ser dos que apenas se molham... :)

Termino este pequenino post com uma alegre pintura de Pete Rumney e com um segredo... :) O segredo vi-o ontem no facebook de uma amiga e dizia que o adulto acredita no que existe, mas a criança só existe no que acredita. Já não sei de quem é a frase, mas sei que me fez sorrir quando a li. Eu tenho gostos simples, gosto de coisas que me fazem sorrir. :)

Bom dia. :)











Depois, em resposta a alguns comentários, deixei dois pensamentos que transcrevo, talvez para voltar a eles mais tarde... 

«Para mim, tal como para Pessoa, tudo é símbolo e analogia. Também eu falo da beleza de andar à chuva, quando chove, ou ao sol, quando está sol. Sei bem que um dia de chuva ou um dia de sol deviam ter encanto em si mesmos, mas temo que tudo se misture e que sejam as memórias que atam e desatam o sentimento. É a demanda pela eternidade, não é? Hmm, gostas de Dalila Pereira da Costa? "Ah, mas sinto que nada mais hoje devia ter feito, dito, do que pensar, fundo, reviver, reaver, essa vida num dia."» 

«Se calhar, digo eu e eu engano-me muitas vezes, o dia que amanhece com chuva deprime-te porque sentes que não há ali nada teu, naquele amanhecer. Mas já houve e pode haver de novo… "Ah, a frescura das manhãs em que se chega…" como dizia Pessoa. Bem, eu creio que mais importante do que chegar a algum lado, talvez seja chegarmos nós à manhã que começa. Não sentes que nos deixamos repartir por muitos lugares e por muitas preocupações? Ultimamente, eu sinto profundamente a necessidade de aprender a reagrupar o meu eu e simplesmente chegar… chegar à frescura das manhãs, quer sejam de sol ou de chuva.»



sábado, julho 04, 2020

Filmes em família.

Esta noite foi uma noite como muitas outras, durante o verão. Vimos dois filmes em família. Sim, dois. Naturalmente, por duas simples razões: somos excessivos e um filme acaba muito antes do sono chegar. Começamos com uma comédia de 2014: Alexander and the Terrible, Horrible, No Good, Very Bad Day. Não posso dizer se é ou não uma boa adaptação do livro de Judith Viorst, uma vez que nunca o li. Mas posso dizer que gostei do filme e que me ri bastante.

O segundo filme foi outra adaptação de outro livro famoso, este muito mais conhecido por cá: O Jardim Secreto, de Frances Hodgson Burnett. Tratou-se do filme de 1993, de Agnieszka Holland, que é lindíssimo. Eu também gostei muito do filme dela de 2017, Pokot. Mas esse não é nada adequado para ver com uma criança de 11 anos. Pelo contrário, Jardim Secreto é perfeito para terminar uma noite de cinema em casa e em família, que se quer bela e mágica. :)


quinta-feira, julho 02, 2020

Um sonho só acaba, para dar início a outro...

O que é bonito neste mundo, e anima,
É ver que na vindima
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura...
E que a doçura
Que se não prova
Se transfigura
Numa doçura
Muito mais pura
E muito mais nova...

Miguel Torga

É bem possível que um sonho só acabe, para dar início a outro. ;)

Pintura: Fairy Dance, de Hans Zatzka (1859-1945).


Passamos pelas coisas sem as ver

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

O poema é de Eugénio de Andrade, um poeta que eu muito aprecio. Ele tem razão, o mundo deixa-nos assim, se permitirmos. É tão fácil ficarmos meras sombras de quem fomos e de quem queríamos ter sido... Como se luta contra isto? Bem, eu só conheço uma maneira: sendo feliz. A felicidade devolve-nos a nós próprios, deixa-nos inteiros. Se não muda o mundo à nossa volta, muda certamente a nossa maneira de ver esse velho mundo, que amanhece sempre novo, em cada dia. :)


quarta-feira, junho 24, 2020

Cariatide tombee portant sa pierre, de Rodin.

Um post do face, de rochas numa praia em África, levou-me a pensar numa conhecida escultura: Cariatide tombee portant sa pierre, de Rodin.

Rodin fez mais do que uma Cariátide caída...  Para quem não se lembra, Cariátide é o nome dado à figura de uma mulher, tipo coluna, que era usada como poste de sustentação da parte de cima de um edifício, na Grécia antiga.

O nome vêm de outras Cariátides, raparigas que dançavam para a deusa Artemis e que, nas suas danças circulares, carregavam na cabeça cestos com juncos.

Admito que tudo isto me agrada. Gosto da sonoridade da própria palavra, gosto da ideia da dança em círculos, com plantas a sair das  cabeças das jovens, e gosto da arquitectura grega. Naturalmente, também gosto da escultura de Rodin, com a bela Cariátide abraçando-se a si própria, ao mesmo tempo que o peso da pedra que carrega a derruba e a destrói. Há imensa beleza e compaixão, que me emociona. :)

Braga, 22 de junho de 2020.

sexta-feira, abril 17, 2020

Um melro ao crepúsculo...

Dantes era azul
a cor dos sonhos
e a imensidão do mar
por navegar.
(…)

Começa assim um poema de Maria Alberta Menéres. Nem sei por que razão isso me ocorreu, neste instante, enquanto olho lá para fora e vejo as tílias, viçosas e luxuriosamente verdes, a dançar com o vento.

Ontem, igualmente ao fim da tarde, quando o sol já desaparecia a oeste, eu também estava aqui, no mesmo sítio, sentindo que precisava de um sinal, um sinal qualquer, só porque sim. Nesse instante, um melro pousou na grade junto à pequenina e intensamente florida macieira, que cresce num vaso na minha varanda. E o melro deixou-se ficar quieto, simplesmente a olhar para mim, ou para o meu mundo, ou para outra coisa qualquer. Um melro ao crepúsculo é, sem dúvida, um sinal. Ainda assim, eu hoje continuo aqui, no mesmo lugar, quase igualmente desorientada e distraída.

Não o fotografei, quando me levantei para ir buscar o telemóvel, o melro voou para longe. Contei ao meu filho, que se riu e me disse: «se não o fotografaste, não conta!». Isso fez-me sorrir. Mas, agora, começo a questionar-me se ele não estaria certo…

Neste instante, noutro lugar, alguém acabou de fotografar um melro, ao crepúsculo. E sentiu a força desse sinal. Hmm, como é que eu posso ter tanta certeza? Na verdade, não é uma questão de fé. Acabei de receber um email, não com uma fotografia, mas com um vídeo de um belo pássaro negro... ;)

Azul. Azul é a minha cor favorita, por muitas razões. Também porque dantes era azul a cor dos sonhos e a imensidão do mar por navegar.

Maria Alberta Menéres morreu esta semana. Ontem, também morreu Luis Sepúlveda, outro escritor que eu muito aprecio. É triste. É a vida, que começa para uns e acaba para outros.

Termino com uma ilustração de Jeanne Waltz.

Boa noite.


terça-feira, janeiro 07, 2020

Novo ano, novas ideias.

Hoje, o face mostrou-me uma memória de 2018, onde afirmo que uma das minhas resoluções de Ano Novo foi deixar de falar da minha vida insignificante e passar a falar de ideias. Hahahaha…

Ainda no mesmo post, com a desculpa de que os velhos hábitos demoram a desaparecer, falei do meu primeiro livro de 2018: um tratado das flores, de 1824, do qual já só tenho uma ideia muito vaga. Lembro-me sobretudo da estranheza de um livro de botânica que não tinha uma única imagem. A memória é uma coisa interessante, mas também estranha.

Em 2020, já que eu não consigo libertar-me do vício de olhar para o meu passado, quero ver apenas experiências, umas com melhores resultados do que outras, algumas com elevado nível de sofrimento, mas, ainda assim, apenas experiências, sem os rótulos certo ou errado.

Hmm, eu estou a envelhecer. Envelhecer é uma coisa boa, creio que ansiei por isso toda a minha vida. Não pelas rugas nem pelos cabelos brancos, naturalmente. Mas por aquela sabedoria, ainda que pouca, que só vem com a idade. Só a idade nos faz olhar o tempo de outra maneira, valorizando-o como aquilo que realmente é: insubstituível. Só a idade nos traz o prazer crescente das coisas simples.

Ao mesmo tempo, precisamente por ter consciência de que estou a envelhecer, anseio por coisas novas. Desvio-me do percurso habitual e caminho por outras ruas. Experimento novos sabores, novos lugares. Ouço novas músicas. Contudo, nos filmes e nos livros noto que tendo a regressar aos velhos amores. O que, naturalmente, também não é proibido. ;)

Por falar em filmes, num filme sul-coreano que eu vi no ano passado, do qual não recordo o nome, uma personagem estava a fazer um curso de poesia. Bem, esse não é o enredo principal da história, ainda que pudesse ser. É só uma linha secundária do argumento, que me cativou. Então, foi ensinado à personagem que o primeiro passo para trazer a poesia para a sua vida era, precisamente, reparar nas pequenas coisas, que facilmente passavam despercebidas, na azáfama dos dias. Admito que gosto disso. Há dias em que reparo em coisas nas quais nunca tinha reparado antes e isso é muito gratificante. Também é interessante manter a minha mente focada, orientada para singularidades.

Hmm, não sei bem por que razão, os meus pensamentos levaram-me para Ayn Rand e o egoísmo como virtude. Mas isso não é o que eu professo, de todo. Contudo, sinto que tem que haver um equilíbrio. Certamente, não quero viver totalmente em função de mim própria, mas também não quero viver totalmente em função dos outros, mesmo que os outros sejam aqueles que eu amo.

Termino, então, este primeiro post mais pessoal, de 2020, com uma frase do Dalai Lama: «Sê sabiamente egoísta.» ;)


sábado, novembro 23, 2019

Vitória da Samotrácia

Eu adoro esta estátua. A maravilhosa e alada Vitória da Samotrácia faz parte de mim, há muito tempo. Já fazia parte de mim quando adolescente vi, pela primeira vez, o pôr do sol sobre o mar. Talvez pela forma de proa de embarcação da sua base, ligada às suas magníficas asas, talvez por outras razões que não identifico, a verdade é que facilmente a imaginei lá, nesse momento em que o céu se liga ao mar. Depois, bem, depois imaginá-la lá nesse instante e nesse lugar onde o sol desaparece no horizonte do mar, tornou-se quase tradição, para a minha mente estranha e absurda. :)

Hmm, eu sei bem que aquilo que amamos, amamos a sós... e daí? ;)


quarta-feira, novembro 20, 2019

Umbilicus rupestris

Estou a saborear um novo chá, que é delicioso. E a música de Eivor ecoa nas minhas células, enquanto penso no umbigo de vénus. Na verdade, nunca entendi por que razão se pode dizer verde alface e não verde umbigo-de-vénus. Eu adoro esta plantinha, que é um umbigo lindo, lindo. :)

Todos os dias, durante a semana, passo junto a um longo muro, onde os umbigos se multiplicam, levando-me a imaginar aquelas pequeninas e sexys vénus verdes, pelo muro fora. Ao mesmo tempo que a música invade a minha mente. Som e visão, as duas formas perceptivas que os gregos mais valorizavam, mas não as minhas prediletas.  

Bem, os gregos, mestres da beleza, pintaram os cabelos de Afrodite de azul. Eu, pela minha parte, gosto de imaginar aquelas pequeninas vénus verdes, que no suave toque reintroduzem em mim a energia da vegetação. Assim, aquele muro transforma-se, modificado pelas relações que eu estabeleço e que fazem dele uma espécie de berço ctónico, telúrico e primitivo, ligado à pátria granítica. 

O valor sagrado que as sociedades primitivas atribuíam, por exemplo, a certas rochas, não residia nas rochas em si mesmas, mas naquilo que representavam, porque imitavam alguma coisa, porque vinham de algum lado especial, em suma, porque tinham em si algo diferente delas mesmas. O mesmo se passa com o meu berço ctónico.

Se a consagração, a sacralização se fazia pela via da imaginação, já a verdadeira participação naquele poder mágico/sagrado fazia-se sobretudo pelo toque, bem mais do que pela litania ou pela invocação.

Pronto, fico por aqui. Até porque o chá já acabou e, agora, os meus pensamentos são outros.



quinta-feira, novembro 07, 2019

Viagem de comboio na Linha do Tua


Já passa muito da meia-noite, é outro dia. Mas, para mim, ainda não é. Ah!, que sugestão maravilhosa! Bem, hoje foi um bom dia, mas este final transforma-o, torna-o memorável. Muito obrigada! :)

Durante cerca de meia hora, fui novamente a miúda que adorava esta viagem e que raramente parava de olhar o rio Tua, em baixo, ora quase ao nível da linha, calmo e pacífico, ora longínquo, no vale profundo, correndo selvagem pelo meio das pedras. Neste vídeo o rio mal se vê e isso levou-me a pensar que talvez, na minha própria peregrinação, o elemento fundamental, que define tudo o resto, também seja apenas intuído.

Bem, em tempos, escrevi aqui, na minha clareirazinha, o seguinte: «Eram 6 horas da manhã e eu estava com a minha família, na estação dos caminhos de ferro, à espera de comboio. Pouco antes de chegar o comboio, veio a correr um miúdo pouco mais velho do que eu, com quem eu tinha brincado as férias todas. Aproximou-se e deu-me dois beijos, despediu-se de mim. E quase de imediato, entrei no comboio. Percorri a linha da Tua, até Mirandela, num estranho estado de desligamento... Não sei se estava ou não apaixonada. E esses termos ainda não existiam para mim, na altura. Mas, para sempre, dentro de mim, as estações de comboios e, em especial, a linha do Tua, ficaram associadas a algo que nos transporta para fora de nós próprios, a uma estranha sensação de agigantamento.»

Tinha 12 anos e essa não foi a primeira viagem que eu fiz na linha do Tua, mas foi a primeira vez que a paisagem me disse claramente quem eu era. Foi a primeira vez que eu senti, de verdade, a canção da saudade, a subir da terra ao céu. Bem, quando penso nisso, sou levada a crer que a primeira vez que a saudade se manifestou - a saudade galaico-portuguesa, que não é uma palavra, mas sim um método de ascensão, de transfiguração – foi muito mais tarde, mas não é verdade, foi aqui, através da paisagem.

Esta viagem já não se pode fazer, a não ser virtualmente ou por via da memória. Mas, esta noite, que bom que foi fazê-la de novo, tão inesperadamente, como um presente perfeito.

Era uma viagem que durava duas ou três horas, o vídeo está acelerado, mas isso não importa. Foi maravilhoso fazer novamente esta viagem e levar comigo as pessoas que eu amo, recriando completamente aquele momento do meu passado. Obrigada!


Viagem de comboio na Linha do Tua.

quinta-feira, outubro 24, 2019

Batata coração.

Hoje, ao descascar as batatas para o jantar, encontrei esta belezinha pequenina, a lembrar Agnès Varda e o seu filme Les glaneurs et la glaneuse, E, mais do que isso, a recordar-me o amor imenso que colocamos nas pequenas coisas. Trouxe-me também à memória um episódio com o meu filho, ainda muito pequenino, a acusar a avó de que ela não cozinhava com amor. E quando ela quis saber por que razão ele dizia tal coisa, ele limitou-se a acrescentar: «porque a tua comida não sabe bem!».

Assim, entre outras coisas, fiz um bolo de chocolate com muito, mesmo muito amor. Hmm, está uma delícia! ;)


Voar...

Sim, bem sei, só os pássaros com a mesma plumagem voam juntos, mas isso não quer dizer que tu voas sozinho. Na verdade, tu nunca estás sozinho, pois aqueles que amaste ou que amas estão sempre, sempre contigo.

Por favor, não te esqueças, mesmo se uma das coisas que te põe triste é que não exista o que não existe, como dizia o poeta… mesmo nesses momentos, não te esqueças que quem não ri e não voa contigo, não é teu amigo!

Metal Migration, by Michelle McKinney.


Mais pensamentos soltos...

Bom dia. :)

Hmm, por onde começo? Bem, o músculo da minha perna ainda não está bom. E, vê só, agora só consigo andar de saltos bem altos. Hmm, qual era a mensagem do universo, afinal?... ;)

Na verdade, não quero saber das mensagens do universo, importa-me o que eu quero!...

Ontem à noite, uma amiga desejou que os meus dias fossem leves. Respondi-lhe o seguinte:

«Minha querida, agora que penso um pouco mais nisso, bem, não estou muito certa de querer que os meus dias sejam leves… ;) Que posso eu dizer? Mais do que portuguesa, eu sou uma mulher do norte. Tenho a saudade na alma. Eu quero que os meus dias sejam intensos, duma felicidade transbordante, mesmo que também sejam, como na canção, um abismo antigo onde voar é abrir as asas e sangrar. :) Não te assustes, por favor, isto sou só eu a ser eu própria. ;) E, no fundo, entendo bem a beleza e a alegria desse teu dia leve… leve e puro, como diria a minha adorada Sophia, e livre como o vento… como o florir das ondas ordenadas. :) Não a lês, pois não? Sophia de Mello Breyner Andresen. Tão, tão maravilhosa! :) Hmm, o meu amado Fernando Pessoa também gostava do vento, dizia que às vezes ouvia passar o vento… e só de ouvir o vento passar, valia a pena ter nascido. :) Boa noite, minha querida, que os teus dias sejam felizes! :) »

Transcrevi este comentário, só para te dizer que é realmente isso que eu quero: que os meus dias sejam felizes!

Se queres mesmo viver, então deixa que invadam os teus sentidos como um sonho e que corram nos teus sonhos como uma sombra... sim, bem sei, são novamente palavras do Pessoa. Mas há tantas, tantas palavras dele na minha mente... Tanto de mim, que é dele. 

Que mais? Esta manhã, li uma carta que alguém me escreveu, a propósito do meu blog peregrinar. Como a carta estava em castelhano, não percebi tudo, mas sei bem que me insultou-me q.b. Ainda assim, fiquei deliciada. Disse-me que eu tinha ideias interessantes, mas que não as desenvolvia, que eu escrevia muito pouco, que não tinha nenhuma consideração pelos meus leitores. Foi isso, eu não sabia que tinha leitores e isso, por si só, fez deu ao café um gostinho diferente. ;)

Depois, não sei de todo porquê, deu-me para ouvir Wham!... Wake me up... 😲

Que queres que te diga? Eu também estou confusa. A minha mente está a reagir a isto de eu, agora, andar sempre de saltos altos, de um modo muito peculiar. O que quer dizer que possivelmente está tudo bem, uma vez que a minha mente reage de um modo muito peculiar praticamente a tudo. :P

Hmm, dançamos?... :)

Ok. Então, vou voar!... :P