terça-feira, outubro 19, 2010
quarta-feira, setembro 22, 2010
A minha terra
Para mim a Galécia é, antes de mais, a terra: os carvalhos e as pedras que, mais do que me dizerem quem são, dizem-me quem eu sou. E quem eu sou é um eco que eu não encontro noutros lugares, por maior que seja a sua beleza ou antiguidade, o que é quase impossível de explicar a um cidadão do mundo, como o meu marido e como a maior parte dos meus amigos. Mas, mesmo não sendo entendido pelos outros, contínua a ser esse o meu sentir. E a Galécia é a terra que me diz quem eu sou.
Há lugares, por esse vasto e maravilhoso mundo, que me deslumbraram e que ficaram para sempre guardados nas minhas memórias. Há outros que me transformaram, que me deram esse sentir ainda mais raro: a chegada – o sentimento simples e, ao mesmo tempo, arrebatador de chegar, a sensação de que aquele lugar é uma meta na minha viagem. - Contudo, volto a repetir: a Galécia é a terra que me diz quem eu sou, a cada instante e a cada passo...
A paisagem agreste e montanhosa do nordeste transmontano moldou-me, desde os meus primeiros anos. Na minha infância, o rio chamava-se Tuela. E Montesinho é ainda a terra onde não há memórias das primeiras vezes, ao contrário do Gerês, que comecei visitar apenas na idade adulta, mas pelo qual senti de imediato um amor igualmente intenso. E, de verdade, poucos lugares são, para mim, comparáveis à velha Mata de Albergaria, que em cada encontro me redefine.
A primeira vez que percorri as pedras gastas da velha Citânia de Briteiros, por um estranho acaso no dia do Lughnasadh, é bem mais do que uma memória, é um instante eterno que ainda ecoa dentro de mim, recriando um momento em que me senti estranhamente inteira, como se só nesse instante tivesse encontrado uma parte de mim que eu nem sequer sabia que estava em falta.
E o que é que, nas minhas memórias, se pode comprar à chegada, quase ao pôr-do-sol, a Finisterra? O terminus de uma viagem de vários dias que percorreu toda a Costa da Morte, numa travessia de saudade, profundamente marcada pelo Espírito do Lugar.
Outro anoitecer. O final de um dia no Penedo Durão, ou a primeira vez em que parti do Porto e acompanhei no comboio as curvas do rio, saboreando o Alto Douro vinhateiro. Outras memórias, os mesmo lugares. Instantes que dentro de mim permaneceram eternos: encostas de caminhos íngremes e pedregosos, imensidão de amendoeiras em flor e a maravilha das gravuras rupestres de Foz Côa.
E para sempre a memória da subida à velha ruína de Penas Róias, também ao pôr-do-sol de um longo dia de verão, depois de um dia perfeito nas escarpas do Douro. Poucos lugares detém um significado tão absoluto, para mim. Penas Róias foi durante toda a minha infância um lugar mágico, antigo e distante. Era o cenário de muitas batalhas que alimentavam as minhas noites de inverno. Histórias contadas à lareira que partiam da Canção de Rolando e iam sendo reinventadas, numa miscelânea que, para a criança que eu era, fazia todo o sentido. A minha espada, que tantas vezes imaginei na infância e que só encontrei muito mais tarde. A minha espada maravilhosa com a cabeça de um leão no punho. A minha espada que não faz de mim uma guerreira, mas que eu tenho precisamente porque sou uma guerreira.
Uma longínqua ida a uma romaria que permanece como um dia luminoso e eterno. Um monte sagrado onde nunca mais voltei, uma das muitas montanhas da minha terra. Um santuário que mal recordo, mas guardo com carinho a memória da longa caminhada que começou ainda de noite, ao luar. Um dia intenso, pleno de alegria e de deslumbramento.
A primeira vez que me senti enamorada e o modo como, para sempre, dentro de mim, as estações de comboios e, em especial, a linha do Tua, ficaram associadas a algo que nos transporta para fora de nós mesmos, a uma estranha sensação de agigantamento.
Há muitas outras memórias, que se parecem com um sonho recorrente e que me levam sempre de volta a esta terra. Esta terra que me faz esquecer as minhas viagens por outros lugares. Esta terra que me viu nascer, esta terra onde hei-de morrer. Esta terra que é minha, porque está no meu coração. Galécia... a terra que me diz quem eu sou.
Há lugares, por esse vasto e maravilhoso mundo, que me deslumbraram e que ficaram para sempre guardados nas minhas memórias. Há outros que me transformaram, que me deram esse sentir ainda mais raro: a chegada – o sentimento simples e, ao mesmo tempo, arrebatador de chegar, a sensação de que aquele lugar é uma meta na minha viagem. - Contudo, volto a repetir: a Galécia é a terra que me diz quem eu sou, a cada instante e a cada passo...
A paisagem agreste e montanhosa do nordeste transmontano moldou-me, desde os meus primeiros anos. Na minha infância, o rio chamava-se Tuela. E Montesinho é ainda a terra onde não há memórias das primeiras vezes, ao contrário do Gerês, que comecei visitar apenas na idade adulta, mas pelo qual senti de imediato um amor igualmente intenso. E, de verdade, poucos lugares são, para mim, comparáveis à velha Mata de Albergaria, que em cada encontro me redefine.
A primeira vez que percorri as pedras gastas da velha Citânia de Briteiros, por um estranho acaso no dia do Lughnasadh, é bem mais do que uma memória, é um instante eterno que ainda ecoa dentro de mim, recriando um momento em que me senti estranhamente inteira, como se só nesse instante tivesse encontrado uma parte de mim que eu nem sequer sabia que estava em falta.
E o que é que, nas minhas memórias, se pode comprar à chegada, quase ao pôr-do-sol, a Finisterra? O terminus de uma viagem de vários dias que percorreu toda a Costa da Morte, numa travessia de saudade, profundamente marcada pelo Espírito do Lugar.
Outro anoitecer. O final de um dia no Penedo Durão, ou a primeira vez em que parti do Porto e acompanhei no comboio as curvas do rio, saboreando o Alto Douro vinhateiro. Outras memórias, os mesmo lugares. Instantes que dentro de mim permaneceram eternos: encostas de caminhos íngremes e pedregosos, imensidão de amendoeiras em flor e a maravilha das gravuras rupestres de Foz Côa.
E para sempre a memória da subida à velha ruína de Penas Róias, também ao pôr-do-sol de um longo dia de verão, depois de um dia perfeito nas escarpas do Douro. Poucos lugares detém um significado tão absoluto, para mim. Penas Róias foi durante toda a minha infância um lugar mágico, antigo e distante. Era o cenário de muitas batalhas que alimentavam as minhas noites de inverno. Histórias contadas à lareira que partiam da Canção de Rolando e iam sendo reinventadas, numa miscelânea que, para a criança que eu era, fazia todo o sentido. A minha espada, que tantas vezes imaginei na infância e que só encontrei muito mais tarde. A minha espada maravilhosa com a cabeça de um leão no punho. A minha espada que não faz de mim uma guerreira, mas que eu tenho precisamente porque sou uma guerreira.
Uma longínqua ida a uma romaria que permanece como um dia luminoso e eterno. Um monte sagrado onde nunca mais voltei, uma das muitas montanhas da minha terra. Um santuário que mal recordo, mas guardo com carinho a memória da longa caminhada que começou ainda de noite, ao luar. Um dia intenso, pleno de alegria e de deslumbramento.
A primeira vez que me senti enamorada e o modo como, para sempre, dentro de mim, as estações de comboios e, em especial, a linha do Tua, ficaram associadas a algo que nos transporta para fora de nós mesmos, a uma estranha sensação de agigantamento.
Há muitas outras memórias, que se parecem com um sonho recorrente e que me levam sempre de volta a esta terra. Esta terra que me faz esquecer as minhas viagens por outros lugares. Esta terra que me viu nascer, esta terra onde hei-de morrer. Esta terra que é minha, porque está no meu coração. Galécia... a terra que me diz quem eu sou.
quinta-feira, setembro 02, 2010
Dussaud
Le couple qui danse é o título desta fotografia, de 1981, de um fotografo maravilhoso: Georges Dussaud.
Esta fotografia está inserida num conjunto de belísssimas fotos de Trás-os-Montes e de transmontanos.
Vejamos mais dois exemplos fantásticos:
Fotografias de Georges Dussaud
Esta fotografia está inserida num conjunto de belísssimas fotos de Trás-os-Montes e de transmontanos.
Vejamos mais dois exemplos fantásticos:
Fotografias de Georges Dussaud
quinta-feira, agosto 26, 2010
Coração Selvagem
Revendo filmes antigos...
Quando é que o Nicholas Cage nos voltou a aparecer assim tão sexy como quando estava deitado naquela cama desfeita, vestido apenas com umas calças pretas e de tronco nu? A camera mostra-o com um olhar simultaneamente inocente e perverso, enquanto os seus pés nus brincam encostados à parede.
Quando é voltamos a ver a Laura Dern assim tão descontraidamente sexy, quase inocente? Amendoinzinho, não era?... ;)
Claro que o David Lynch nos atira com imagens estilizadas, por exemplo, quando eles estão simplesmente a fumar, deitados de pernas cruzadas, como se fossem a continuação um do outro.
Ou quando nos mostra a imagem deles durante o sexo, uma imagem que se vai desvanecendo como se fosse uma memória nossa. Já para não falar daquele ícone sexual que é a mão dela com as unhas enormes e profundamente vermelhas a arranhar os lençóis. Uma mão orgásmica, que treme, contorce-se e geme...
Outra cena verdadeiramente fascinante é protagonizada pelo Willem Dafoe, dando vida a uma personagem horrível, o oposto dos nossos herói e heroína profundamente sensuais. E é esse homem, apresentado de um modo absolutamente nada atraente, que acaba por representar a cena mais forte do filme, que ultrapassa a mera excitação e passa para o puro fascínio, à mistura com um sentido de humor que é, em si mesmo, uma delícia... Então, é assim: ele bate à porta do quarto onde a heroína está sozinha, usando apenas um vestido curtinho. Ela deixa-o entrar e tudo aponta para uma violação, mas não nos podemos esquecer que é um filme do David Lynch. Hmm, não é agradável entrar num universo onde nada é previsível?... Lynch dá, então, continuação a tudo aquilo, numa cena fortíssima.
A cena em que aquele homem feio, horrível e violento, lhe sussurra "say fuck me" uma e outra vez, enquanto a mão dele desce no corpo dela até voltarmos à imagem da mão de enormes unhas vermelhas que se contorce, incapaz de não se contorcer...
Um Coração Selvagem é, de facto, um filme incendiário, não é? ;)
Quando é que o Nicholas Cage nos voltou a aparecer assim tão sexy como quando estava deitado naquela cama desfeita, vestido apenas com umas calças pretas e de tronco nu? A camera mostra-o com um olhar simultaneamente inocente e perverso, enquanto os seus pés nus brincam encostados à parede.
Quando é voltamos a ver a Laura Dern assim tão descontraidamente sexy, quase inocente? Amendoinzinho, não era?... ;)
Claro que o David Lynch nos atira com imagens estilizadas, por exemplo, quando eles estão simplesmente a fumar, deitados de pernas cruzadas, como se fossem a continuação um do outro.
Ou quando nos mostra a imagem deles durante o sexo, uma imagem que se vai desvanecendo como se fosse uma memória nossa. Já para não falar daquele ícone sexual que é a mão dela com as unhas enormes e profundamente vermelhas a arranhar os lençóis. Uma mão orgásmica, que treme, contorce-se e geme...
Outra cena verdadeiramente fascinante é protagonizada pelo Willem Dafoe, dando vida a uma personagem horrível, o oposto dos nossos herói e heroína profundamente sensuais. E é esse homem, apresentado de um modo absolutamente nada atraente, que acaba por representar a cena mais forte do filme, que ultrapassa a mera excitação e passa para o puro fascínio, à mistura com um sentido de humor que é, em si mesmo, uma delícia... Então, é assim: ele bate à porta do quarto onde a heroína está sozinha, usando apenas um vestido curtinho. Ela deixa-o entrar e tudo aponta para uma violação, mas não nos podemos esquecer que é um filme do David Lynch. Hmm, não é agradável entrar num universo onde nada é previsível?... Lynch dá, então, continuação a tudo aquilo, numa cena fortíssima.
A cena em que aquele homem feio, horrível e violento, lhe sussurra "say fuck me" uma e outra vez, enquanto a mão dele desce no corpo dela até voltarmos à imagem da mão de enormes unhas vermelhas que se contorce, incapaz de não se contorcer...
Um Coração Selvagem é, de facto, um filme incendiário, não é? ;)
quarta-feira, julho 28, 2010
O livro da Viagem
Um dia peguei num livro de Bernard Werber, que me disse que eu já tinha sido todos os meus heróis. :)
É verdade. Já fui todos os meus heróis. Fui Principezinho e fui Raposa. Fui Alice no País das Maravilhas. Fui Profeta. Fui Parsifal. Fui Feiticeirinha de Abril. Fui Messias em Dune. Fui outros, muitos outros. :)
Lembro-me que na altura pensei como era fantástico que um livro me conhecesse assim tão bem.
Hoje, contudo, lamento a compreensão que apenas encontro em livros, noutros livros, muitos livros, mas ainda e só livros. É pena, pois como insistia a Yourcenar, a vida não está nos livros.
É verdade. Já fui todos os meus heróis. Fui Principezinho e fui Raposa. Fui Alice no País das Maravilhas. Fui Profeta. Fui Parsifal. Fui Feiticeirinha de Abril. Fui Messias em Dune. Fui outros, muitos outros. :)
Lembro-me que na altura pensei como era fantástico que um livro me conhecesse assim tão bem.
Hoje, contudo, lamento a compreensão que apenas encontro em livros, noutros livros, muitos livros, mas ainda e só livros. É pena, pois como insistia a Yourcenar, a vida não está nos livros.
Fahrenheit 451
Um destes dias, referi um livro antigo que li há imenso tempo: Fahrenheit 451, de Ray Bradbury. Na minha adolescência, Bradbury era dos meus escritores favoritos. Os livros dele eram para mim uma verdadeira delícia. Contudo, este Fahrenheit 451 é arrepiante, por duas razões: porque nos mostra um mundo onde os livros, considerados fontes de todos os perigos, eram queimados, sendo o grau de temperatura a que se incendeia o papel o que dá o título ao romance; a segunda razão, porque é um mundo onde a felicidade era obrigatória.
Bem, um mundo de felicidade normalizada e obrigatória quase parece o paraíso, não? :P
Contudo, para aqueles para quem «queimar é um prazer» este seria um belo mundo. :)
Houve um tempo em que me interroguei se não seria uma boa prática incendiar as coisas que me incomodavam. Mas, depois pensei: e será que iria parar? Ou, simplesmente, acabava a pegar fogo a tudo o que estivesse na origem da minha estranheza ou da estranheza do mundo. Bem, é óbvio que não fiz isso, preferi deixar que a estranheza se instalasse. E, acredita, a estranheza instalou-se mesmo! :)
E a minha personalidadezinha assemelha-se, assim, um pouquinho à da miúda que atormentava o Montag, em Fahrenheit 451:
"Ela contentou-se em rir.
- Boa noite - disse. E entrou no jardim. Depois, lembrou-se de qualquer coisa, voltou para trás e pousou em Montag um olhar curioso: - É feliz?
- Sou o quê? - gritou ele."
Bem, um mundo de felicidade normalizada e obrigatória quase parece o paraíso, não? :P
Contudo, para aqueles para quem «queimar é um prazer» este seria um belo mundo. :)
Houve um tempo em que me interroguei se não seria uma boa prática incendiar as coisas que me incomodavam. Mas, depois pensei: e será que iria parar? Ou, simplesmente, acabava a pegar fogo a tudo o que estivesse na origem da minha estranheza ou da estranheza do mundo. Bem, é óbvio que não fiz isso, preferi deixar que a estranheza se instalasse. E, acredita, a estranheza instalou-se mesmo! :)
E a minha personalidadezinha assemelha-se, assim, um pouquinho à da miúda que atormentava o Montag, em Fahrenheit 451:
"Ela contentou-se em rir.
- Boa noite - disse. E entrou no jardim. Depois, lembrou-se de qualquer coisa, voltou para trás e pousou em Montag um olhar curioso: - É feliz?
- Sou o quê? - gritou ele."
quarta-feira, julho 21, 2010
Um recado antigo
... numa frase de Fernando Pessoa.
Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.
The Ruins of the Bishop's Palace by Edith Toynbee.
Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.
The Ruins of the Bishop's Palace by Edith Toynbee.
Quem somos nós?
Na verdade, quem quer que nós sejamos, somos - como disse Uxío Novoneyra, a propósito de Rosalia Castro - "donos de canto vivimos plenamente, da infancia, da mocedade: do que ela [Rosalia] chama “as galas de un día” As galas de aquel bon dia de terra... Donos inda dos soños xa perdidos e voltados porque eran verdadeiros, donos da dádiva de toda a naturaleza terra. Donos dos tres tempos, presente, pasado e futuro, nun mesmo tempo".
Wuthering Heights, paperback cover by Robert E. McGinnis (American, born 1926).
Wuthering Heights, paperback cover by Robert E. McGinnis (American, born 1926).
segunda-feira, abril 12, 2010
quinta-feira, março 04, 2010
sexta-feira, fevereiro 12, 2010
Uma livraria nova
Encontrei uma livraria nova, numa rua por onde já não passava há algum tempo. Uma livraria pequenina, com sofá confortável e um ambiente acolhedor. Sorri, agradecida com aquela bela surpresa.
Eu gosto de livros. Sempre gostei de livros. Há livros que fazem parte de mim, eu não seria quem sou se não tivesse lido certos livros.
E gosto de pessoas que gostam de livros... :)

Uma vez, levei o livro Iluminações – Um Cerveja no Inferno, do Rimbaud, para emprestar a um colega do meu marido. Estávamos num bar. Eu tirei o livro e, antes de o emprestar, expliquei que aquele livro era especial para mim. E entreguei-lho. Ele colocou-o em cima da mesa. E a namorada dele, que eu conhecia, até tinha sido eu quem os tinha apresentado, aproveitou para pôr o copo de cerveja em cima do meu livro, como se não fosse um livro, mas um mero protector de mesa. Bem, eu esperei um bocadinho e depois, tirei o copo de cerveja de cima do meu livro e voltei a colocar o livro na minha mala. Já não o emprestei.
Mesmo assim, estranhei aquele tipo de insensibilidade. E abuso. O livro não era deles, de modo que nem sequer tinham o direito de o estragar. Mas, esquecendo isso... continua a insensibilidade. A profunda insensibilidade, tão comum nos dias que correm.
Na minha maneira dever as coisas, a insensibilidade é um pecado grave. A pessoa que sofre desse mal, se calhar nem tem culpa, no entanto, a verdade é que também nunca vai deixar de ser como é. E face a esse tipo de pessoas, o melhor que temos a fazer é afastarmo-nos delas, sem mais questionamentos.
Gibran dizia que o inferno é um coração vazio. E as pessoas insensíveis, por muito que digam a si próprias algo diferente, a verdade é que vivem com um coração vazio. Isso é sempre o pior que nos pode acontecer. É uma triste condenação.
Eu gosto de livros. Sempre gostei de livros. Há livros que fazem parte de mim, eu não seria quem sou se não tivesse lido certos livros.
E gosto de pessoas que gostam de livros... :)

Uma vez, levei o livro Iluminações – Um Cerveja no Inferno, do Rimbaud, para emprestar a um colega do meu marido. Estávamos num bar. Eu tirei o livro e, antes de o emprestar, expliquei que aquele livro era especial para mim. E entreguei-lho. Ele colocou-o em cima da mesa. E a namorada dele, que eu conhecia, até tinha sido eu quem os tinha apresentado, aproveitou para pôr o copo de cerveja em cima do meu livro, como se não fosse um livro, mas um mero protector de mesa. Bem, eu esperei um bocadinho e depois, tirei o copo de cerveja de cima do meu livro e voltei a colocar o livro na minha mala. Já não o emprestei.
Mesmo assim, estranhei aquele tipo de insensibilidade. E abuso. O livro não era deles, de modo que nem sequer tinham o direito de o estragar. Mas, esquecendo isso... continua a insensibilidade. A profunda insensibilidade, tão comum nos dias que correm.
Na minha maneira dever as coisas, a insensibilidade é um pecado grave. A pessoa que sofre desse mal, se calhar nem tem culpa, no entanto, a verdade é que também nunca vai deixar de ser como é. E face a esse tipo de pessoas, o melhor que temos a fazer é afastarmo-nos delas, sem mais questionamentos.
Gibran dizia que o inferno é um coração vazio. E as pessoas insensíveis, por muito que digam a si próprias algo diferente, a verdade é que vivem com um coração vazio. Isso é sempre o pior que nos pode acontecer. É uma triste condenação.
quinta-feira, janeiro 28, 2010
A história da princesinha triste
Era uma vez uma jovem e bela princesa, como todas as princesas são e como só elas sabem ser. E a jovem e bela princesa vivia num reino longínquo, para lá do sol nascente. Era um reino calmo e pacífico, onde o sol da manhã despertava risos e cantares. E a noite era serena, cheia de estrelas para os meninos contarem. Era um reino bonito.
Os habitantes desse reino, que mal se vislumbrava no horizonte distante, eram seres muito especiais: tinham sonhos, sonhos que sonhavam acordados. Porque sabiam que para um sonho se realizar é preciso sonhá-lo primeiro. E acreditar nele. Mas a princesa, que era a senhora daquele reino por direito próprio, esqueceu-se de sonhar. E muitos dias se passaram sem que ela tivesse consciência da perda, embalada pela calma e tranquilidade das pessoas que a rodeavam.
Todas as manhãs o sol entrava, igualmente radioso, no quarto da jovem que despertava. Mas, um dia, a tristeza também se fez convidada. E, rapidamente, passou de visitadora ocasional a uma presença constante. A princesa estava triste. Manhãs que davam em tardes, tardes que davam em noites, noites que, novamente, davam em manhãs - e a princesa continuava triste. Até que um dia deixou de querer, ou saber, estar diferente.
Preocupado com o estado da princesa, o rei mandou chamar todos os médicos da corte, para a examinarem. E todos a tentaram curar, mas nenhum achou cura para tal mal. Irado com a sorte que cabia à sua querida e amada filha, o rei disse aos médicos que eles tinham que apresentar um remédio capaz de curar a princesa, no período máximo de vinte e quatro horas. Tremendo perante a cólera do rei, os senhores doutores reuniram-se, para juntos descobrirem o remédio para o mal que afligia a jovem princesa. Quando o tempo determinado estava quase a acabar, pediram uma adiência. Um deles deu um passo em frente, tomou a palavra e disse:
- Meu senhor e meu rei, soberano amado por todos os vossos servos: que tenhais uma longa vida, juntamente com a vossa querida e muito amada filha. Chamaste-nos aqui para descobrirmos uma cura para o mal que atormenta a princesa. E um só remédio encontramos: para a princesa se curar é necessário que vista, por momentos, a camisa de um homem que seja feliz em todos os instantes da sua vida.
E fazendo uma profunda vénia ao rei, afastou-se. Imediatamente foram enviados emissários por todo o reino, à procura do homem que fosse feliz em todos os instantes da sua vida.
Longos caminhos percorrem os viajantes, na busca do homem feliz, sempre feliz, em todos os instantes da sua vida. A lua faz-se nova, outra vez. Ei-los, de novo, passando das pradarias verdejantes aos àridos desertos. Heróis na procura e no querer, vontades fustigadas por muitas adversidades, mas vontades que continuam sempre fortes. Desistir não, nunca. E os caminhos começam a repetir-se. Quem saberá ensinar aos viajantes cansados o porto onde chegar? Arco-íris sempre distante. Os pés arrastam-se no solo poeirento, o mesmo solo ou outro. Já nada acompanha o lento arrastar de passos, a não ser o eco de risos repetidos na resposta que é também pergunta:
- Feliz eu? em todos os instantes da minha vida? Ah! Ah! Ah!...
E os mensageiros avançam sempre, sempre. Incapazes de desertar ou desaprender, continuam a acreditar em impossíveis.
Era uma floresta frondosa onde predominavam os velhos carvalhos. Muitas aves nidificavam nas ramagens da enorme floresta. E os seus chilreios povoavam o silêncio. Coelhos saltitavam à procura de comida, protegidos por giestas e outros pequenos arbustos. Ao longe ouvia-se o lamento de um lobo só. A noite aproximava-se suavemente. Pouca era a claridade que iluminava aquele velho bosque. Só um ou outro raio de sol terminava a sua viagem no solo, infiltrando-se num espaço esquecido pelo arboredo denso. E os viajantes de outras paragens continuavam ali a sua procura impossível. Embora, naquele momento, apenas se importassem com o manto negro da noite, que descia sobre eles. Esquecidos, há muito tempo, do conforto de outros lugares, os homens preparavam-se para esperar, no meio das trevas, a vinda da manhã. Mas, de repente, no meio da escuridão que os envolvia, descobriram o brilho de uma pequenina luz. Tropeçando e às apalpadelas, foram-se aproximando daquela dádiva divina.
Espreitavam pelas frestas de uma cabana, feita com troncos grossos. No outro lado da cabana, no meio de três pedras de granito, que formavam uma lareira improvisada, ardia um fogo intenso e aconchegante. Junto ao fogo estava sentado um homem ainda novo, que vestia roupas grosseiras e quase gastas, remendadas com bocados de pele de coelho. Tinha perto de si um velho pote: uma panela de ferro, que assentava no chão sobre três pés. Mexia, com uma colher de pau enegrecida pelo uso, o caldo espesso e fumegante que cozinhava ao lume. Por fim, afastou o pote do lume e algum tempo depois começou a comer, no velho pote e com a mesma colher de pau. Quando acabou de comer, deitou-se de costas no chão, perto da fogueira, tendo os braços cruzados debaixo da nuca e sorrindo. E o sorriso era genuíno, vindo de um interior cheio de luz. Um sorriso que lhe transformava o rosto numa máscara engraçada de rugas e covinhas. E os olhos dele também riam. Até que o sorriso se tornou numa gargalhada e o homem disse, por entre o riso:
- Sou feliz em todos os instantes da minha vida! - e um pouco mais baixo, acrescentou - Porque me habituei a isso.
Os habitantes desse reino, que mal se vislumbrava no horizonte distante, eram seres muito especiais: tinham sonhos, sonhos que sonhavam acordados. Porque sabiam que para um sonho se realizar é preciso sonhá-lo primeiro. E acreditar nele. Mas a princesa, que era a senhora daquele reino por direito próprio, esqueceu-se de sonhar. E muitos dias se passaram sem que ela tivesse consciência da perda, embalada pela calma e tranquilidade das pessoas que a rodeavam.
Todas as manhãs o sol entrava, igualmente radioso, no quarto da jovem que despertava. Mas, um dia, a tristeza também se fez convidada. E, rapidamente, passou de visitadora ocasional a uma presença constante. A princesa estava triste. Manhãs que davam em tardes, tardes que davam em noites, noites que, novamente, davam em manhãs - e a princesa continuava triste. Até que um dia deixou de querer, ou saber, estar diferente.
Preocupado com o estado da princesa, o rei mandou chamar todos os médicos da corte, para a examinarem. E todos a tentaram curar, mas nenhum achou cura para tal mal. Irado com a sorte que cabia à sua querida e amada filha, o rei disse aos médicos que eles tinham que apresentar um remédio capaz de curar a princesa, no período máximo de vinte e quatro horas. Tremendo perante a cólera do rei, os senhores doutores reuniram-se, para juntos descobrirem o remédio para o mal que afligia a jovem princesa. Quando o tempo determinado estava quase a acabar, pediram uma adiência. Um deles deu um passo em frente, tomou a palavra e disse:
- Meu senhor e meu rei, soberano amado por todos os vossos servos: que tenhais uma longa vida, juntamente com a vossa querida e muito amada filha. Chamaste-nos aqui para descobrirmos uma cura para o mal que atormenta a princesa. E um só remédio encontramos: para a princesa se curar é necessário que vista, por momentos, a camisa de um homem que seja feliz em todos os instantes da sua vida.
E fazendo uma profunda vénia ao rei, afastou-se. Imediatamente foram enviados emissários por todo o reino, à procura do homem que fosse feliz em todos os instantes da sua vida.
Longos caminhos percorrem os viajantes, na busca do homem feliz, sempre feliz, em todos os instantes da sua vida. A lua faz-se nova, outra vez. Ei-los, de novo, passando das pradarias verdejantes aos àridos desertos. Heróis na procura e no querer, vontades fustigadas por muitas adversidades, mas vontades que continuam sempre fortes. Desistir não, nunca. E os caminhos começam a repetir-se. Quem saberá ensinar aos viajantes cansados o porto onde chegar? Arco-íris sempre distante. Os pés arrastam-se no solo poeirento, o mesmo solo ou outro. Já nada acompanha o lento arrastar de passos, a não ser o eco de risos repetidos na resposta que é também pergunta:
- Feliz eu? em todos os instantes da minha vida? Ah! Ah! Ah!...
E os mensageiros avançam sempre, sempre. Incapazes de desertar ou desaprender, continuam a acreditar em impossíveis.
Era uma floresta frondosa onde predominavam os velhos carvalhos. Muitas aves nidificavam nas ramagens da enorme floresta. E os seus chilreios povoavam o silêncio. Coelhos saltitavam à procura de comida, protegidos por giestas e outros pequenos arbustos. Ao longe ouvia-se o lamento de um lobo só. A noite aproximava-se suavemente. Pouca era a claridade que iluminava aquele velho bosque. Só um ou outro raio de sol terminava a sua viagem no solo, infiltrando-se num espaço esquecido pelo arboredo denso. E os viajantes de outras paragens continuavam ali a sua procura impossível. Embora, naquele momento, apenas se importassem com o manto negro da noite, que descia sobre eles. Esquecidos, há muito tempo, do conforto de outros lugares, os homens preparavam-se para esperar, no meio das trevas, a vinda da manhã. Mas, de repente, no meio da escuridão que os envolvia, descobriram o brilho de uma pequenina luz. Tropeçando e às apalpadelas, foram-se aproximando daquela dádiva divina.
Espreitavam pelas frestas de uma cabana, feita com troncos grossos. No outro lado da cabana, no meio de três pedras de granito, que formavam uma lareira improvisada, ardia um fogo intenso e aconchegante. Junto ao fogo estava sentado um homem ainda novo, que vestia roupas grosseiras e quase gastas, remendadas com bocados de pele de coelho. Tinha perto de si um velho pote: uma panela de ferro, que assentava no chão sobre três pés. Mexia, com uma colher de pau enegrecida pelo uso, o caldo espesso e fumegante que cozinhava ao lume. Por fim, afastou o pote do lume e algum tempo depois começou a comer, no velho pote e com a mesma colher de pau. Quando acabou de comer, deitou-se de costas no chão, perto da fogueira, tendo os braços cruzados debaixo da nuca e sorrindo. E o sorriso era genuíno, vindo de um interior cheio de luz. Um sorriso que lhe transformava o rosto numa máscara engraçada de rugas e covinhas. E os olhos dele também riam. Até que o sorriso se tornou numa gargalhada e o homem disse, por entre o riso:
- Sou feliz em todos os instantes da minha vida! - e um pouco mais baixo, acrescentou - Porque me habituei a isso.
Começando um novo dia
2010 January 28, Astronomy Picture of the Day:

Hoje, estou terrivelmente cansada. Não quero saber de nada nem de ninguém. Mas ainda gosto do céu estrelado. De viajar pelas estrelas.
Recentemente, falaram-me na sensação de vivênciar o próprio corpo a pairar sobre si mesmo. Isso levou-me de volta a velhas memórias...
Quando eu tinha 12 anos, passei 15 dias na termas de S. Lourenço, perto do Tua. Eram 6 horas da manhã e eu estava com a minha família, na estação dos caminhos de ferro, à espera de comboio. Pouco antes de chegar o comboio, veio a correr um miúdo pouco mais velho do que eu, com quem eu tinha brincado as férias todas. Aproximou-se e deu-me dois beijos, despediu-se de mim. E quase de imediato, entrei no comboio. Percorri a linha da Tua, até Mirandela, num estranho estado de desligamento... Não sei se estava ou não apaixonada. E esses termos ainda não existiam para mim, na altura. Mas, para sempre, dentro de mim, as estações de comboios e, em especial, a linha do Tua, ficaram associadas a algo que nos transporta para fora de nós próprios, a uma estranha sensação de agigantamento.
Mais tarde, quando eu tinha 17 anos, apaixonei-me. Mas não por uma pessoa real. Apaixonei-me completamente por uma personagem que encontrei num livro, um romance autobiográfico. O livro de San Michele, de Axel Munthe. Nesse verão, todas as noites costumava afastar-me um pouco da aldeia e deitava-me de costas na terra ainda quente. Eu não fantasiava com o Axel. Ficava apenas ali, em êxtase, e era de olhos abertos que eu viajava pelas estrelas...
segunda-feira, janeiro 18, 2010
De regresso ao trabalho
Cá estou eu de novo... comecei o dia com uma visita ao site Astronomy Picture of the Day e aqui fica a imagem deste dia, para a posteridade. ;)
quinta-feira, abril 16, 2009
espiritualidade do corpo
“É no interior do teu corpo, por muito mortal que seja e apenas com seis pés de comprimento, que existe o mundo e a origem do mundo e o fim do mundo e semelhantemente o caminho que conduz ao nirvana.” Buda
Quero deixar fluir os meus sentidos.
Quero ficar em paz e quero ser feliz.
Tudo o que preciso é comer quando sentir fome,
andar à chuva quando chover
e ao sol quando o dia estiver luminoso.
Tudo o que peço é que me deixem chorar
com todas as minhas lágrimas
quando me apetecer chorar
e que me deixem rir com todo o meu riso
quando me apetecer rir.
Quero deixar fluir os meus sentidos.
Quero ficar em paz e quero ser feliz.
Tudo o que preciso é comer quando sentir fome,
andar à chuva quando chover
e ao sol quando o dia estiver luminoso.
Tudo o que peço é que me deixem chorar
com todas as minhas lágrimas
quando me apetecer chorar
e que me deixem rir com todo o meu riso
quando me apetecer rir.
terça-feira, novembro 18, 2008
quinta-feira, novembro 13, 2008
007
Eu não sou fã do James Bond, mas confesso que gostei da ideia de colocarem o tipo que fez Finding Neverland a realizar o filme. A partir daqui, não há limite. O que nos deixa numa dolorosa expectativa de saber quem vai ser o próximo realizador...
Parece que já se fala do Tarantino. Hum, mas não será um bocado previsível? Sangue, sangue e mais sangue... E, claro!, um filme que começa pelo fim. Bah!
Era muito mais interessante se fosse realizado pelo nosso Manoel de Oliveira. Sempre nos deliciávamos durante pelo menos um quarto de hora a ver o James Bond beber o seu martini... ;)
Outra opção do meu agrado era o Peter Greenaway. Bem, depois da trilogia dele sobre as malas de viagem de um gajo qualquer... aqui, o Bond teria mesmo que ser o Castelo Branco. Era um must!... E teríamos um aston martin só para a bagagem de mão do menino James, né?...
É um universo infinito... não querem dar uma ajudinha? ;)
Hum, estava a pensar no Woody Allen, mas esse não podia ser... não me parece que resistisse a atirar-nos com o seu conhecido Jimmy Bond.
O David Lynch era uma boa escolha, haveria de confundir o próprio James Bond de tal maneira que no fim, teríamos o gajo incapaz de pronunciar a sua célebre frase. Seria mais ou menos assim: “Bond”, seguida do habitual momento silêncio. Olhar confuso e desesperado. E novo silêncio, desta vez prolongado. :)
É uma pena que o Akira Kurosawa já tenha morrido, mas fica a fantasia de um Bond de orelha cortada, meramente como referência intelectual. Não era lindo lindo?...
Eu também gostava de ver o Lars von Trier a meter mãos à obra. Teriamos um camera man a correr aos saltinhos atrás do Bond e um filme de acção feito de intelectuais solavancos. :)
Quem mais?... Claro que também podia ser o M Night Shyamalan. Hehehe. Nesse caso, descobríamos no fim que afinal o Bond sempre foi uma mulher. E não era fantástico?
Resta-me terminar dizendo qual era o realizador que eu escolhia. Naturalmente, o George Lucas. Sabem porquê? Por ele colocava o James Bond numa galáxia muito muito distante. :P
Parece que já se fala do Tarantino. Hum, mas não será um bocado previsível? Sangue, sangue e mais sangue... E, claro!, um filme que começa pelo fim. Bah!
Era muito mais interessante se fosse realizado pelo nosso Manoel de Oliveira. Sempre nos deliciávamos durante pelo menos um quarto de hora a ver o James Bond beber o seu martini... ;)
Outra opção do meu agrado era o Peter Greenaway. Bem, depois da trilogia dele sobre as malas de viagem de um gajo qualquer... aqui, o Bond teria mesmo que ser o Castelo Branco. Era um must!... E teríamos um aston martin só para a bagagem de mão do menino James, né?...
É um universo infinito... não querem dar uma ajudinha? ;)
Hum, estava a pensar no Woody Allen, mas esse não podia ser... não me parece que resistisse a atirar-nos com o seu conhecido Jimmy Bond.
O David Lynch era uma boa escolha, haveria de confundir o próprio James Bond de tal maneira que no fim, teríamos o gajo incapaz de pronunciar a sua célebre frase. Seria mais ou menos assim: “Bond”, seguida do habitual momento silêncio. Olhar confuso e desesperado. E novo silêncio, desta vez prolongado. :)
É uma pena que o Akira Kurosawa já tenha morrido, mas fica a fantasia de um Bond de orelha cortada, meramente como referência intelectual. Não era lindo lindo?...
Eu também gostava de ver o Lars von Trier a meter mãos à obra. Teriamos um camera man a correr aos saltinhos atrás do Bond e um filme de acção feito de intelectuais solavancos. :)
Quem mais?... Claro que também podia ser o M Night Shyamalan. Hehehe. Nesse caso, descobríamos no fim que afinal o Bond sempre foi uma mulher. E não era fantástico?
Resta-me terminar dizendo qual era o realizador que eu escolhia. Naturalmente, o George Lucas. Sabem porquê? Por ele colocava o James Bond numa galáxia muito muito distante. :P
domingo, novembro 02, 2008
quarta-feira, outubro 29, 2008
segunda-feira, outubro 27, 2008
Frase do dia
A verdadeira viagem de descoberta consiste em não procurar novas paisagens, mas em ter novos olhos.
Marcel Proust
sábado, outubro 11, 2008
meu senhor menino
Amor é sentir-te assim terno, suave e carinhoso
junto ao meu coração alegre e palpitante
e com murmúrios e afagares
perder-me no teu corpo
e encontrar-me... nos cânticos puros
de nomes sentidos, que repetimos
até os eternizar... nas tardes que são noites
nas noites que nascem manhãs.
Amor é saber que é o meu riso que te faz rir
que é o meu choro que tu acarinhas
que são as minhas palavras aquelas que tu escutas.
junto ao meu coração alegre e palpitante
e com murmúrios e afagares
perder-me no teu corpo
e encontrar-me... nos cânticos puros
de nomes sentidos, que repetimos
até os eternizar... nas tardes que são noites
nas noites que nascem manhãs.
Amor é saber que é o meu riso que te faz rir
que é o meu choro que tu acarinhas
que são as minhas palavras aquelas que tu escutas.
quarta-feira, outubro 08, 2008
O Poeta
Ninguém contempla as coisas admirado.
Dir-se-á que tudo é simples e vulgar...
E se olho a terra, a flor, o céu doirado,
Que infinda comoção me faz sonhar!
É tudo para mim extraordinário!
Uma pedra é fantástica! Alto monte,
Terra viva a sangrar, como um Calvário
E branco espetro, ao luar, a minha fonte!
É tudo luz e voz, tudo me fala:
Ouço lamúrias de almas no arvoredo
Quando a tarde tão lívida se cala
Porque adivinha a noite e lhe tem medo
Não posso abrir os olhos sem abrir
Meu coração à dor e à alegria.
Cada coisa nos sabe transmitir
Uma estranha e quimérica harmonia!
É bem certo quer tu, meu coração,
Participas de toda a Natureza.
Tens montanhas na tua solidão
E crepúsculos negros de tristeza!
As coisas que me cercam silenciosas
São almas a chorar que me procuram.
Quantas vagas palavras misteriosas
Neste ar que aspiro, trémulas, murmuram!
Vozes de encanto vêm aos meus ouvidos,
Beijam meus olhos sombras de mistério.
Sinto que perco, às vezes, os sentidos
E que vou a flutuar num rio aéreo...
O Poeta, Teixeira de Pascoaes
domingo, outubro 05, 2008
sexta-feira, outubro 03, 2008
Poemas do passado...
A net tem destas coisas... também encontrei um poema meu que já nem me lembrava de ter escrito. Aqui fica, para registo futuro. :)
vieste nocturno e em silêncio
e sem fórmulas encontraste o meu sentir
apagaste a lua e tudo o que luzia
com a mais clara das claridades
chama que escureceria o deus solar!
na tua visão nua
foram ditas todas as palavras
evocadas todas as vontades
e foste chegada de todas as partidas
agora dormes aconchegado
o teu sono de menino
e eu guardo os teus sonhos...
Escrevi este poema há muito tempo, sem o dedicar a alguém em concreto. Esqueci-me completamente que o tinha escrito. Hoje, quando o encontrei, não consegui deixar de me sentir arrepiada... que é isto de guardar sonhos? Parece-me que o meu guardador de sonhos esteve sempre presente e que somos, de verdade, um só... Será possível?
vieste nocturno e em silêncio
e sem fórmulas encontraste o meu sentir
apagaste a lua e tudo o que luzia
com a mais clara das claridades
chama que escureceria o deus solar!
na tua visão nua
foram ditas todas as palavras
evocadas todas as vontades
e foste chegada de todas as partidas
agora dormes aconchegado
o teu sono de menino
e eu guardo os teus sonhos...
Escrevi este poema há muito tempo, sem o dedicar a alguém em concreto. Esqueci-me completamente que o tinha escrito. Hoje, quando o encontrei, não consegui deixar de me sentir arrepiada... que é isto de guardar sonhos? Parece-me que o meu guardador de sonhos esteve sempre presente e que somos, de verdade, um só... Será possível?
Outra carta do passado... Beckett.
Trata-se de um texto antigo, que eu escrevi e publiquei noutro site, há milhares de anos:
«Beckett falou-nos da realidade do homem moderno, sem absoluto, sem Deus, completamente desamparado num universo hostil, desprovido de qualquer sentido. Se Sartre e Camus nos apresentaram ao absurdo, Beckett foi mais longe, atirou-nos bem lá para dentro. A sensação de estranheza, que Camus explora, é transformada na mais profunda solidão no universo Beckettiano. O herói Beckettiano é a expressão máxima do homem-matéria, mas uma matéria em decomposição, nauseabunda.
Beckett pinta nas suas telas as palavras da aproximação à morte, da infelicidade, da decadência física. Cegos, paralíticos, enfermos, mutilados. Galeria de mortos. É este o universo Beckettiano.
Beckett mostra-nos naquilo que ele diz ser a nossa verdadeira natureza: seres frágeis, incapazes de assumirmos a solidão, buscando ridiculamente companhia, iludindo-nos com tentativas de comunicação mesmo quando já não é possível qualquer comunicação, tentando fugir à dor e caindo no desespero... Enfim, Beckett vai ao mais fundo de nós e mostra-nos a nossa desesperada esperança... ainda e sempre à espera de Godot - Deus, alguém ou algo para nos aliviar o sofrimento físico e moral - mas o tão esperado Godot não vem, nunca vem.
Que mais queres que te diga? Há uma frase do livro "Malone está a morrer" que eu sei de cor: "pouco importa que eu tenha nascido ou não, que eu tenha vivido ou não, que esteja morto ou só moribundo, farei como sempre fiz, na ignorância do que faço, de quem sou, de onde sou ou se sou". Não, não é uma maldição. É a puta da realidade. Isto, meu querido, é o abismo das certezas ou da ausência delas. Tanto faz. Isto é o deserto. Mas quem é que quer o deserto? Então, sintamos. E quando acharmos que já nada sentimos, esforçamo-nos e sentimos ainda mais intensamente. Paradoxal? Mas o que é que não é paradoxal? :)
Beckett dá-nos uma perspectiva oposta à de Ionesco, no sentido em que as personagens beckettianas tornam-se cada vez mais decadentes, mais desesperadas e mais angustiadas. Nos últimos textos de beckett, especialmente em "Sobressaltos", somos atirados para o fundo do poço. Aqui a solidão e o desespero aproximam-se da loucura... de uma loucura incómoda e contagiante.
Nem imaginas como me senti assombrada durante dias depois de ler esse texto. Ainda agora, de vez em quando, a minha realidade é quebrada e eu sinto que sou transportada para esse argumento denso e absurdo. E simplesmente vejo-me a mim própria a levantar-me e ir... e sinto o intenso fascínio e a forte repulsa que provocam as personagens de Beckett, como Vladimir e Estragon.
Beckett, o homem que coloca uma das suas personagens a dizer, referindo-se à mãe, "aquela que me deu a noite". A noite e não o dia. Para beckett nascer é a maior de todas as infelicidade, nascer não é receber o dia e a luz, mas sim a noite e as trevas.
Beckett define a condição humana do seguinte modo: "nascemos, sofremos, morremos". Mas, ao mesmo tempo, afirma que nada é mais cómico do que a infelicidade. Sim, a revolta, o riso, a loucura nunca deixam de estar presentes. Que mais? Céus, como Beckett ridiculariza o amor, chama-lhe o instinto de procriação. E as suas personagens têm profunda aversão a isso de a vida simplesmente continuar. Pois, beckett foi o homem que olhou para as criancinhas e disse: "os procriadores em potência".
Diz-me: estranhas que eu leia Beckett? Bem, ele foi simplesmente genial. Sabes, o teatro dele foi designado (entre milhares de outros termos) por ateatro, no sentido em que é um teatro completamente novo, ainda que paradoxalmente mantenha uma forte identidade com o teatro tradicional. Ou com o nonsense. Hmm, permite-me uma pequena citação de memória... :)
- Todas as vozes mortas.
- Isso faz ruído de asas.
- De folhas.
- De areia.»
Ah! Aqui há uma mudança: já não leio Beckett, estou demasiado ocupada a viver cada um dos meus instantes, deste agora que me faz feliz! :)
«Beckett falou-nos da realidade do homem moderno, sem absoluto, sem Deus, completamente desamparado num universo hostil, desprovido de qualquer sentido. Se Sartre e Camus nos apresentaram ao absurdo, Beckett foi mais longe, atirou-nos bem lá para dentro. A sensação de estranheza, que Camus explora, é transformada na mais profunda solidão no universo Beckettiano. O herói Beckettiano é a expressão máxima do homem-matéria, mas uma matéria em decomposição, nauseabunda.
Beckett pinta nas suas telas as palavras da aproximação à morte, da infelicidade, da decadência física. Cegos, paralíticos, enfermos, mutilados. Galeria de mortos. É este o universo Beckettiano.
Beckett mostra-nos naquilo que ele diz ser a nossa verdadeira natureza: seres frágeis, incapazes de assumirmos a solidão, buscando ridiculamente companhia, iludindo-nos com tentativas de comunicação mesmo quando já não é possível qualquer comunicação, tentando fugir à dor e caindo no desespero... Enfim, Beckett vai ao mais fundo de nós e mostra-nos a nossa desesperada esperança... ainda e sempre à espera de Godot - Deus, alguém ou algo para nos aliviar o sofrimento físico e moral - mas o tão esperado Godot não vem, nunca vem.
Que mais queres que te diga? Há uma frase do livro "Malone está a morrer" que eu sei de cor: "pouco importa que eu tenha nascido ou não, que eu tenha vivido ou não, que esteja morto ou só moribundo, farei como sempre fiz, na ignorância do que faço, de quem sou, de onde sou ou se sou". Não, não é uma maldição. É a puta da realidade. Isto, meu querido, é o abismo das certezas ou da ausência delas. Tanto faz. Isto é o deserto. Mas quem é que quer o deserto? Então, sintamos. E quando acharmos que já nada sentimos, esforçamo-nos e sentimos ainda mais intensamente. Paradoxal? Mas o que é que não é paradoxal? :)
Beckett dá-nos uma perspectiva oposta à de Ionesco, no sentido em que as personagens beckettianas tornam-se cada vez mais decadentes, mais desesperadas e mais angustiadas. Nos últimos textos de beckett, especialmente em "Sobressaltos", somos atirados para o fundo do poço. Aqui a solidão e o desespero aproximam-se da loucura... de uma loucura incómoda e contagiante.
Nem imaginas como me senti assombrada durante dias depois de ler esse texto. Ainda agora, de vez em quando, a minha realidade é quebrada e eu sinto que sou transportada para esse argumento denso e absurdo. E simplesmente vejo-me a mim própria a levantar-me e ir... e sinto o intenso fascínio e a forte repulsa que provocam as personagens de Beckett, como Vladimir e Estragon.
Beckett, o homem que coloca uma das suas personagens a dizer, referindo-se à mãe, "aquela que me deu a noite". A noite e não o dia. Para beckett nascer é a maior de todas as infelicidade, nascer não é receber o dia e a luz, mas sim a noite e as trevas.
Beckett define a condição humana do seguinte modo: "nascemos, sofremos, morremos". Mas, ao mesmo tempo, afirma que nada é mais cómico do que a infelicidade. Sim, a revolta, o riso, a loucura nunca deixam de estar presentes. Que mais? Céus, como Beckett ridiculariza o amor, chama-lhe o instinto de procriação. E as suas personagens têm profunda aversão a isso de a vida simplesmente continuar. Pois, beckett foi o homem que olhou para as criancinhas e disse: "os procriadores em potência".
Diz-me: estranhas que eu leia Beckett? Bem, ele foi simplesmente genial. Sabes, o teatro dele foi designado (entre milhares de outros termos) por ateatro, no sentido em que é um teatro completamente novo, ainda que paradoxalmente mantenha uma forte identidade com o teatro tradicional. Ou com o nonsense. Hmm, permite-me uma pequena citação de memória... :)
- Todas as vozes mortas.
- Isso faz ruído de asas.
- De folhas.
- De areia.»
Ah! Aqui há uma mudança: já não leio Beckett, estou demasiado ocupada a viver cada um dos meus instantes, deste agora que me faz feliz! :)
Cartas do passado...
Quando voltei do almoço, fiquei a pensar em que medida a minha atitude mudou nos últimos anos... fui procurar-me, naquilo que eu escrevia lá pelo ano 2000. À volta do tema do Mito de Sisifio, encontrei isto:
«Liga-se muito o existencialismo aos pensadores ateus, não? O existencialismo não é necessariamente um modo de pensar ateu. Santo Agostinho e Pascal são, na essência, pensadores existencialistas. E o existencialismo de Sartre está muito longe de ser realmente uma novidade, já para não falar das influências óbvias de Heidegger (mas aqui já estou a falar por ouvir dizer, eu nunca li nem tenciono ler nada de nada de Heidegger. Hmm, que queres? Não gosto do nome do tipo. Hehehehe). Bom, mas dizia eu que Sartre foi um nadinha mais longe e atirou-nos com essa do en-soi e pour-soi. Uma classificação ontológica interessante. Mas como a filosofia não é nem de perto nem de longe a minha área, quero que se foda a definição ontológica do Ser. Hehehehe. Não te chateeis, tava só a brincar. De resto, não concordo nada que a existência humana seja absoluta, contigente, absurda. E é sempre isso que o Sartre nos quer transmitir seja na "Náusea", ou no próprio "L´être et le néant", hmm, também li duas peças de teatro dele: "Os Sequestrados de Altona" e "As Mãos Sujas". Mas quanto a isso de teatro, prefiro de longe Samuel Beckett.
Bom, mas claro que o homem não era parvo de todo, aliás, não era nada parvo. Não cometeu o erro do Hegel de fazer do nada "algo"... quero dizer, que não lhe atribui nomes, coisas, substantivos. Sabia bem que o nada é simplesmente nada. Pois é, parece uma verdade à La Palice, mas vê lá se muitos filósofos chegam lá... ;). Falta-lhes uma disciplina de Lógica no currículo, mas que havemos de fazer? :P
Camus. Ai de mim, eu simplesmente adoro Camus, é uma reminiscência do meu passado da qual não me consigo libertar, nem quero. Quando li "O Estrangeiro" e "O Mito de Sísifo", a minha vida mudou. Bom, mas na altura eu tinha aí uns 17 anos, ou menos. Não importa, o que é certo é que a minha vida mudou mesmo. Mas nem vou falar disso...
Sim, sim, é outro dos senhores do absurdo, mas quanto ao Camus... eu simplesmente não consigo dizer mal. Que queres? É assim, como poderia nem ser, mas é. Gostei particularmente da "Queda" e da "Peste", qualquer um deles, acho-os magistralmente escritos. Depois, li tudo (ou quase tudo) o que havia para ler do homem... Porque não?
"O Mito de Sísifo" influenciou-me muito, sobretudo nisso de imaginarmos o Sísifo feliz, sim, feliz. Não achas a ideia admirável? Sísifo continuamente a carregar a rocha dele montanha acima e, ainda assim, feliz. Sabendo sempre que a rocha haveria de rolar monte abaixo e que ele teria que a carregar de novo. É o tipo de determinação em que eu acredito. Creio que, de facto, interiorizei essa determinação em ser feliz, apesar das merdas com que o mundo me atira. Interiorizei essa determinação em acreditar que a humanidade é fundamentalmente boa, apesar de ter sido, algumas vezes, mutilada por seres humanos que nada valiam. Só não interiorizei foi a absoluta falta de sentido da vida, o absurdo. Não, para mim a vida tem todo o sentido que eu quiser que tenha, todo o sentido que eu for capaz de lhe dar.
"O Mito de Sísifo" mostrou-me também a rotina, a terrível rotina. Levantar, 4 horas de trabalho, almoço, mais 4 horas de trabalho, jantar, ver televisão, deitar e levantar outra vez. Com o Mito de Sísifo o meu porquê levantou-se e eu comecei imediatamente a lutar contar a rotina, antes ainda de ela ter qualquer hipótese de se instalar. E é uma luta da qual não abdico...
"O Homem Revoltado". Sim, senti fortemente o desesperado confronto entre a interrogação do homem e o silêncio do mundo. Mas já deixei de sentir que a vida seja absurda. "Se em nada se acredita, se nada possuí um sentido e se não podemos afirmar nenhum valor, tudo se torna possível e tudo carece de importância". Mas deixemos isso...
Sabes, continuo a acreditar na felicidade como destino. E o mundo atira-me com sofrimento. Mas que importa isso? Eu tenho o direito de continuar a acreditar naquilo que bem quiser, enganar-me se preciso for. Ou não tenho? Voltando ao homem revoltado: "à falta de uma felicidade incansável, um longo sofrimento ao menos constituiria um destino. Mas não, as nossas piores torturas terão um dia que acabar. Certa manhã, após tantos desesperos, uma irreprimível vontade de viver virá anunciar-nos que tudo acabou e que o sofrimento não possui mais sentido do que a felicidade." Ora, eu sei muito bem que não há verdadeiros destinos, ou pelo menos que não há destinos com sentido, mas que raio me importa isso? Eu acredito e pronto. Acredito na felicidade e no amor. E luto por eles. E como eu não me sinto disposta a desistir de lutar, hão-de aparecer, é que nem poderia ser de outra forma.
Mas, por vezes, canso-me, sabes? Por vezes, tenho vontade de fugir, de negar tudo isto. Mas eu não fujo, logo...
Bom, voltemos à literatura... Dostoievsky, para terminar, "Pode uma pessoa viver e manter-se dentro da revolta?" Nada sei quanto ao resto do mundo. Mas eu posso, a minha revolta em aceitar a falta de sentido da vida, dá-me a minha paixão de viver. A minha revolta em aceitar que a rotina se instale, dá-me a excentricidade e a loucura que dão cor ao meu mundo. A minha revolta em acreditar que a humanidade é uma merda, dá-me ágape. Olha, gosto de ser uma revoltada, hehehehe. E pouco me importa o que o resto do mundo pensa das minhas crenças. :)
Pronto, fico por aqui. Espero que tenhas um dia feliz, minha querida.»
Na verdade, muito pouco mudou... e eu continuo a ser quem sempre fui. :)
«Liga-se muito o existencialismo aos pensadores ateus, não? O existencialismo não é necessariamente um modo de pensar ateu. Santo Agostinho e Pascal são, na essência, pensadores existencialistas. E o existencialismo de Sartre está muito longe de ser realmente uma novidade, já para não falar das influências óbvias de Heidegger (mas aqui já estou a falar por ouvir dizer, eu nunca li nem tenciono ler nada de nada de Heidegger. Hmm, que queres? Não gosto do nome do tipo. Hehehehe). Bom, mas dizia eu que Sartre foi um nadinha mais longe e atirou-nos com essa do en-soi e pour-soi. Uma classificação ontológica interessante. Mas como a filosofia não é nem de perto nem de longe a minha área, quero que se foda a definição ontológica do Ser. Hehehehe. Não te chateeis, tava só a brincar. De resto, não concordo nada que a existência humana seja absoluta, contigente, absurda. E é sempre isso que o Sartre nos quer transmitir seja na "Náusea", ou no próprio "L´être et le néant", hmm, também li duas peças de teatro dele: "Os Sequestrados de Altona" e "As Mãos Sujas". Mas quanto a isso de teatro, prefiro de longe Samuel Beckett.
Bom, mas claro que o homem não era parvo de todo, aliás, não era nada parvo. Não cometeu o erro do Hegel de fazer do nada "algo"... quero dizer, que não lhe atribui nomes, coisas, substantivos. Sabia bem que o nada é simplesmente nada. Pois é, parece uma verdade à La Palice, mas vê lá se muitos filósofos chegam lá... ;). Falta-lhes uma disciplina de Lógica no currículo, mas que havemos de fazer? :P
Camus. Ai de mim, eu simplesmente adoro Camus, é uma reminiscência do meu passado da qual não me consigo libertar, nem quero. Quando li "O Estrangeiro" e "O Mito de Sísifo", a minha vida mudou. Bom, mas na altura eu tinha aí uns 17 anos, ou menos. Não importa, o que é certo é que a minha vida mudou mesmo. Mas nem vou falar disso...
Sim, sim, é outro dos senhores do absurdo, mas quanto ao Camus... eu simplesmente não consigo dizer mal. Que queres? É assim, como poderia nem ser, mas é. Gostei particularmente da "Queda" e da "Peste", qualquer um deles, acho-os magistralmente escritos. Depois, li tudo (ou quase tudo) o que havia para ler do homem... Porque não?
"O Mito de Sísifo" influenciou-me muito, sobretudo nisso de imaginarmos o Sísifo feliz, sim, feliz. Não achas a ideia admirável? Sísifo continuamente a carregar a rocha dele montanha acima e, ainda assim, feliz. Sabendo sempre que a rocha haveria de rolar monte abaixo e que ele teria que a carregar de novo. É o tipo de determinação em que eu acredito. Creio que, de facto, interiorizei essa determinação em ser feliz, apesar das merdas com que o mundo me atira. Interiorizei essa determinação em acreditar que a humanidade é fundamentalmente boa, apesar de ter sido, algumas vezes, mutilada por seres humanos que nada valiam. Só não interiorizei foi a absoluta falta de sentido da vida, o absurdo. Não, para mim a vida tem todo o sentido que eu quiser que tenha, todo o sentido que eu for capaz de lhe dar.
"O Mito de Sísifo" mostrou-me também a rotina, a terrível rotina. Levantar, 4 horas de trabalho, almoço, mais 4 horas de trabalho, jantar, ver televisão, deitar e levantar outra vez. Com o Mito de Sísifo o meu porquê levantou-se e eu comecei imediatamente a lutar contar a rotina, antes ainda de ela ter qualquer hipótese de se instalar. E é uma luta da qual não abdico...
"O Homem Revoltado". Sim, senti fortemente o desesperado confronto entre a interrogação do homem e o silêncio do mundo. Mas já deixei de sentir que a vida seja absurda. "Se em nada se acredita, se nada possuí um sentido e se não podemos afirmar nenhum valor, tudo se torna possível e tudo carece de importância". Mas deixemos isso...
Sabes, continuo a acreditar na felicidade como destino. E o mundo atira-me com sofrimento. Mas que importa isso? Eu tenho o direito de continuar a acreditar naquilo que bem quiser, enganar-me se preciso for. Ou não tenho? Voltando ao homem revoltado: "à falta de uma felicidade incansável, um longo sofrimento ao menos constituiria um destino. Mas não, as nossas piores torturas terão um dia que acabar. Certa manhã, após tantos desesperos, uma irreprimível vontade de viver virá anunciar-nos que tudo acabou e que o sofrimento não possui mais sentido do que a felicidade." Ora, eu sei muito bem que não há verdadeiros destinos, ou pelo menos que não há destinos com sentido, mas que raio me importa isso? Eu acredito e pronto. Acredito na felicidade e no amor. E luto por eles. E como eu não me sinto disposta a desistir de lutar, hão-de aparecer, é que nem poderia ser de outra forma.
Mas, por vezes, canso-me, sabes? Por vezes, tenho vontade de fugir, de negar tudo isto. Mas eu não fujo, logo...
Bom, voltemos à literatura... Dostoievsky, para terminar, "Pode uma pessoa viver e manter-se dentro da revolta?" Nada sei quanto ao resto do mundo. Mas eu posso, a minha revolta em aceitar a falta de sentido da vida, dá-me a minha paixão de viver. A minha revolta em aceitar que a rotina se instale, dá-me a excentricidade e a loucura que dão cor ao meu mundo. A minha revolta em acreditar que a humanidade é uma merda, dá-me ágape. Olha, gosto de ser uma revoltada, hehehehe. E pouco me importa o que o resto do mundo pensa das minhas crenças. :)
Pronto, fico por aqui. Espero que tenhas um dia feliz, minha querida.»
Na verdade, muito pouco mudou... e eu continuo a ser quem sempre fui. :)
Carta para um amigo ausente
Olá, meu querido. :)
Há já muito tempo que não te escrevo, não há? Querido, tu estás sempre no meu coração. E sabes bem que eu nem sequer acredito no tempo e na distância, de modo que está tudo certo. ;)
Sabes, o meu mundo continua estapafurdiamente feliz. Ah! Não me perguntas porquê... sabes bem que não é preciso razões para se ser feliz. Eu adoro tudo isto, estes instantes em que te apetece sorrir e sorris, sem necessidade de razões transcendentes. Cada vez mais sinto que a vida é simplesmente maravilhosa. E, obviamente, sou suficientemente infantil para o dizer e repetir as vezes que me apetecer... hehehehe.
Aqui neste blog, tenho um pequeno post sobre o Míto de Sísifo. Diz o seguinte: Camus disse que era preciso imaginar o Sísifo feliz – actualmente eu não consigo conceber um Sísifo que não seja feliz. Sim, mesmo carregando a rocha montanha acima, mesmo sabendo que a rocha chegará ao topo do monte e necessariamente rolará até lá baixo e tudo recomeçará de novo... não vejo a inutilidade de outrora. Pelo contrário, vejo instantes profundamente significativos. Vejo a pausa reconfortante, o olhar que se deslumbra com a beleza da montanha, os olhos que se fecham suavemente sob o sol intenso. Será preciso algo mais?...
De certa forma, creio que já não quero um destino, o caminho esbate-se um bocadinho e é a caminhada que passa a ser cada vez mais importante.
Ok, voltemos ao mundo real. :)
No meu mundo real, os meus amigos estão fartinhos da minha contínua felicidade, para eles é um bocadinho como a cena do Tarantino no programa do Conan, em que ele disse que foi ver um filme qualquer romântico, com uma história simples e feliz, sem grande dramas, e quase teve que ligar para a linha de apoio a suicidas. :)
Por isso escrevo-te a ti, meu querido, pois sei bem que tu não achas toda esta minha felicidade enjoativa. Quanto a mim, hum, que posso dizer? Nem imaginas a quantidade de pessoas que me telefonam quando estão mal e só quando estão mal. Começo a ver que perco o meu tempo, pois nada do que eu diga parece fazer qualquer diferença e, o que é ainda pior, por vezes perco também a minha boa disposição. Eu não consigo que a minha felicidade passe para eles e, muitas vezes, acabo esgotada e triste. Às vezes, parece-me que eles não querem ser felizes. Ou, então, já estão demasiado habituados à complexidade que criaram nas suas vidas. E a felicidade é uma coisa simples.
Meu querido, eu sei muito bem que uma das coisas que me deixa feliz é precisamente o amor que há na minha vida. Eu amo profundamente o Alexandre e sei que sou amada. Essa vontade de um amor verdadeiro e correspondido foi uma das mais profundas necessidades que eu tive ao longo da vida. E só quando o alcancei é que consegui acalmar e ser verdadeiramente eu própria. De modo que eu entendo a necessidade deles, entendo o desespero deles que, na maior parte das vezes, passa por relações amorosas infelizes. No entanto, quando eu lhes digo que esse tipo de realização só depende de cada um de nós, aborrecem-se. Sim, sei bem que se escutarmos a maioria das pessoas, hão-de desencantar milhões de razões que nos mostrarão como isso é ridículo, que, para começar, o amor verdadeiro nem sequer existe ou, se existe, é por mero acaso. Não é, digo-te eu. E, acredita, eu sei do que falo. Saberão também eles?...
Um amor intenso e verdadeiro, um amor correspondido, um amor que dê cor e alegria à nossa vida, é na verdade um milagre, mas um milagre que depende de nós. Temos que o plantar bem fundo no nosso inconsciente, temos que o fazer germinar e alimentá-lo para que continue sempre a florescer. Sim, temos que tratar dele sempre, porque ainda que nasça e floresça, se nos esquecermos de o alimentar, seca e morre. Mas depende sempre de nós, da nossa dedicação. No entanto, não é fácil. E é exactamente por isso que muitos não o vivem, porque ficam-se pelas conhecidas soluções de facilidade... de que se queixam, então?
Digo-lhes que têm que pensar no amor que há-de vir como se já existisse. Peço-lhes para não se sentirem ridículos e de modo algum falarem nisso... há que manter o segredo, isso ajuda a acreditar. Se dedicarem os primeiros e os últimos momentos do seu dia a esse amor que querem, se o imaginarem, se acreditarem nele, sem particularizarem em relação a uma ou outra pessoa, se sentirem que esse amor intenso de alguém que já está na sua vida, mas que ainda não conhecem pelo nome, é real... então, acontecerá de verdade, será real.
Há um filme engraçado, que eu gosto muito, Amor e Vacas, de Harry Sinclair. Bem, o filme é simplesmente delicioso. Conta a história de uma mulher que vive um amor feliz mas, deixa-se levar por medos irracionais e quase perde o homem da vida dela. A história começa quando ela por descuido atropela uma mulher idosa, que acaba por não sofrer nada. Ainda assim, percebe-se que ela se sente culpada. A mulher entretanto diz-lhe para ela se manter quente, aconchegada. E isso desencadeia o medo dela, o medo de que a relação de algum modo arrefeça... a partir dali, tudo se torna hilariante mas comovente, complemente estranho mas ainda assim real naquilo por que se luta. E mostra bem como nós temos sempre crenças... às vezes, estão é mal direccionadas. Às vezes acreditamos no que só nos faz mal. Tememos que a felicidade acabe e, naturalmente, a felicidade acaba. Outras vezes, temos medo que a felicidade nunca apareça... e não aparece. Para quê ter medo?...
Por falar em filmes, domingo vamos ver Nightwatching, do Greenaway. Bem, já nem me lembro há quanto tempo não vejo um filme do Peter Greenaway no cinema. :))
Bem, tenho que ir, vou almoçar.
Até amanhã, doçura. :)
Há já muito tempo que não te escrevo, não há? Querido, tu estás sempre no meu coração. E sabes bem que eu nem sequer acredito no tempo e na distância, de modo que está tudo certo. ;)
Sabes, o meu mundo continua estapafurdiamente feliz. Ah! Não me perguntas porquê... sabes bem que não é preciso razões para se ser feliz. Eu adoro tudo isto, estes instantes em que te apetece sorrir e sorris, sem necessidade de razões transcendentes. Cada vez mais sinto que a vida é simplesmente maravilhosa. E, obviamente, sou suficientemente infantil para o dizer e repetir as vezes que me apetecer... hehehehe.
Aqui neste blog, tenho um pequeno post sobre o Míto de Sísifo. Diz o seguinte: Camus disse que era preciso imaginar o Sísifo feliz – actualmente eu não consigo conceber um Sísifo que não seja feliz. Sim, mesmo carregando a rocha montanha acima, mesmo sabendo que a rocha chegará ao topo do monte e necessariamente rolará até lá baixo e tudo recomeçará de novo... não vejo a inutilidade de outrora. Pelo contrário, vejo instantes profundamente significativos. Vejo a pausa reconfortante, o olhar que se deslumbra com a beleza da montanha, os olhos que se fecham suavemente sob o sol intenso. Será preciso algo mais?...
De certa forma, creio que já não quero um destino, o caminho esbate-se um bocadinho e é a caminhada que passa a ser cada vez mais importante.
Ok, voltemos ao mundo real. :)
No meu mundo real, os meus amigos estão fartinhos da minha contínua felicidade, para eles é um bocadinho como a cena do Tarantino no programa do Conan, em que ele disse que foi ver um filme qualquer romântico, com uma história simples e feliz, sem grande dramas, e quase teve que ligar para a linha de apoio a suicidas. :)
Por isso escrevo-te a ti, meu querido, pois sei bem que tu não achas toda esta minha felicidade enjoativa. Quanto a mim, hum, que posso dizer? Nem imaginas a quantidade de pessoas que me telefonam quando estão mal e só quando estão mal. Começo a ver que perco o meu tempo, pois nada do que eu diga parece fazer qualquer diferença e, o que é ainda pior, por vezes perco também a minha boa disposição. Eu não consigo que a minha felicidade passe para eles e, muitas vezes, acabo esgotada e triste. Às vezes, parece-me que eles não querem ser felizes. Ou, então, já estão demasiado habituados à complexidade que criaram nas suas vidas. E a felicidade é uma coisa simples.
Meu querido, eu sei muito bem que uma das coisas que me deixa feliz é precisamente o amor que há na minha vida. Eu amo profundamente o Alexandre e sei que sou amada. Essa vontade de um amor verdadeiro e correspondido foi uma das mais profundas necessidades que eu tive ao longo da vida. E só quando o alcancei é que consegui acalmar e ser verdadeiramente eu própria. De modo que eu entendo a necessidade deles, entendo o desespero deles que, na maior parte das vezes, passa por relações amorosas infelizes. No entanto, quando eu lhes digo que esse tipo de realização só depende de cada um de nós, aborrecem-se. Sim, sei bem que se escutarmos a maioria das pessoas, hão-de desencantar milhões de razões que nos mostrarão como isso é ridículo, que, para começar, o amor verdadeiro nem sequer existe ou, se existe, é por mero acaso. Não é, digo-te eu. E, acredita, eu sei do que falo. Saberão também eles?...
Um amor intenso e verdadeiro, um amor correspondido, um amor que dê cor e alegria à nossa vida, é na verdade um milagre, mas um milagre que depende de nós. Temos que o plantar bem fundo no nosso inconsciente, temos que o fazer germinar e alimentá-lo para que continue sempre a florescer. Sim, temos que tratar dele sempre, porque ainda que nasça e floresça, se nos esquecermos de o alimentar, seca e morre. Mas depende sempre de nós, da nossa dedicação. No entanto, não é fácil. E é exactamente por isso que muitos não o vivem, porque ficam-se pelas conhecidas soluções de facilidade... de que se queixam, então?
Digo-lhes que têm que pensar no amor que há-de vir como se já existisse. Peço-lhes para não se sentirem ridículos e de modo algum falarem nisso... há que manter o segredo, isso ajuda a acreditar. Se dedicarem os primeiros e os últimos momentos do seu dia a esse amor que querem, se o imaginarem, se acreditarem nele, sem particularizarem em relação a uma ou outra pessoa, se sentirem que esse amor intenso de alguém que já está na sua vida, mas que ainda não conhecem pelo nome, é real... então, acontecerá de verdade, será real.
Há um filme engraçado, que eu gosto muito, Amor e Vacas, de Harry Sinclair. Bem, o filme é simplesmente delicioso. Conta a história de uma mulher que vive um amor feliz mas, deixa-se levar por medos irracionais e quase perde o homem da vida dela. A história começa quando ela por descuido atropela uma mulher idosa, que acaba por não sofrer nada. Ainda assim, percebe-se que ela se sente culpada. A mulher entretanto diz-lhe para ela se manter quente, aconchegada. E isso desencadeia o medo dela, o medo de que a relação de algum modo arrefeça... a partir dali, tudo se torna hilariante mas comovente, complemente estranho mas ainda assim real naquilo por que se luta. E mostra bem como nós temos sempre crenças... às vezes, estão é mal direccionadas. Às vezes acreditamos no que só nos faz mal. Tememos que a felicidade acabe e, naturalmente, a felicidade acaba. Outras vezes, temos medo que a felicidade nunca apareça... e não aparece. Para quê ter medo?...
Por falar em filmes, domingo vamos ver Nightwatching, do Greenaway. Bem, já nem me lembro há quanto tempo não vejo um filme do Peter Greenaway no cinema. :))
Bem, tenho que ir, vou almoçar.
Até amanhã, doçura. :)
quarta-feira, outubro 01, 2008
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