segunda-feira, abril 23, 2012

Dia Mundial do Livro

Boa tarde. :)

Como hoje é o dia mundial do livro, permito-me deixar aqui referências a dois livros:

- O Cavaleiro da Armadura Enferrujada, Robert Fisher, 1990.
É um livro profundamente inspirador. Um livro que ensina a libertar-nos das velhas armaduras que carregamos durante anos, muitas vezes sem termos percepção delas, e que são uma barreira entre nós e o mundo.


- O Homem Que Plantava Árvores, Jean Giono, 1953.
Partindo de uma história verídica, este pequeno livro ensina-nos que é possível mudar o mundo. Que mais podemos pedir? :)


Ambos editados pela Presença.

Boas leituras. :)

sábado, junho 11, 2011

Árvore tangerina


De vez em quando, é preciso relembrar que se somos capazes de criar uma árvore ao comer uma tangerina, então, o céu é o limite!... :)

Na verdade, os momentos extraordinários das nossas vidas começam com pequenas coisas, quase insignificantes... e tudo o que precisamos é manter uma visão inocente, sermos capazes de mudar a percepção e ver o que não é visível, à primeira vista.

E pronto, é isto. :)

Só não posso terminar este post, sem lembrar o meu amigo João, que foi quem me ensinou a criar árvores tangerina, e a quem mando um grande abraço!

terça-feira, maio 31, 2011

Aurora

A minha mãe chamava-se Aurora. E o instante que antecede o nascer do dia é o momento que eu mais gosto do dia e da noite. Há alturas, como hoje, em que me levanto antes do nascer do sol só para sentir o dia a despertar e me lembrar da minha amada mãe. Depois, deito-me outra vez e acordo um pouco mais tarde, com o resto da família.

Este pequeno ritual representou sempre um momento luminoso na minha noite. E hoje quero partilhá-lo, num gesto de agradecimento aos meus amigos de além-mar que, ouvindo-me, ajudaram-me a abraçar o meu destino.

chamamentos

Era madrugada
ainda dormia
o canto dos pássaros
chamava-me:
«está a nascer o dia
anda voar!»
não acordei
e fui voar!

Era madrugada
já estava acordada
o canto dos pássaros
chamava-me:
«está a nascer o dia
anda voar!»
deixei-me ficar
eu não sei voar.

sexta-feira, maio 27, 2011

rotina

Tivesses apenas
o dom do esquecimento
que vem com amores impossíveis
ou sonhos loucos
e a rotina passaria por ti
sem te encontrar.

Talvez nem precises de tanto,
porque os dias
que se repetem iguais
só pertencem àqueles
que não sabem
que a felicidade é um hábito.

certo ou errado

Certo ou errado
são moralidades,
mas se encontrares
sem fórmulas
o sentir
risos e choros
e silêncios
outro nome virá
com a sabedoria e a demência
e certo ou errado
serão apenas memórias...

Só não podes provar o chá
antes das folhas assentarem
porque não estarás a provar o chá...

quarta-feira, setembro 22, 2010

A minha terra

Para mim a Galécia é, antes de mais, a terra: os carvalhos e as pedras que, mais do que me dizerem quem são, dizem-me quem eu sou. E quem eu sou é um eco que eu não encontro noutros lugares, por maior que seja a sua beleza ou antiguidade, o que é quase impossível de explicar a um cidadão do mundo, como o meu marido e como a maior parte dos meus amigos. Mas, mesmo não sendo entendido pelos outros, contínua a ser esse o meu sentir. E a Galécia é a terra que me diz quem eu sou.

Há lugares, por esse vasto e maravilhoso mundo, que me deslumbraram e que ficaram para sempre guardados nas minhas memórias. Há outros que me transformaram, que me deram esse sentir ainda mais raro: a chegada – o sentimento simples e, ao mesmo tempo, arrebatador de chegar, a sensação de que aquele lugar é uma meta na minha viagem. - Contudo, volto a repetir: a Galécia é a terra que me diz quem eu sou, a cada instante e a cada passo...

A paisagem agreste e montanhosa do nordeste transmontano moldou-me, desde os meus primeiros anos. Na minha infância, o rio chamava-se Tuela. E Montesinho é ainda a terra onde não há memórias das primeiras vezes, ao contrário do Gerês, que comecei visitar apenas na idade adulta, mas pelo qual senti de imediato um amor igualmente intenso. E, de verdade, poucos lugares são, para mim, comparáveis à velha Mata de Albergaria, que em cada encontro me redefine.

A primeira vez que percorri as pedras gastas da velha Citânia de Briteiros, por um estranho acaso no dia do Lughnasadh, é bem mais do que uma memória, é um instante eterno que ainda ecoa dentro de mim, recriando um momento em que me senti estranhamente inteira, como se só nesse instante tivesse encontrado uma parte de mim que eu nem sequer sabia que estava em falta.

E o que é que, nas minhas memórias, se pode comprar à chegada, quase ao pôr-do-sol, a Finisterra? O terminus de uma viagem de vários dias que percorreu toda a Costa da Morte, numa travessia de saudade, profundamente marcada pelo Espírito do Lugar.

Outro anoitecer. O final de um dia no Penedo Durão, ou a primeira vez em que parti do Porto e acompanhei no comboio as curvas do rio, saboreando o Alto Douro vinhateiro. Outras memórias, os mesmo lugares. Instantes que dentro de mim permaneceram eternos: encostas de caminhos íngremes e pedregosos, imensidão de amendoeiras em flor e a maravilha das gravuras rupestres de Foz Côa.

E para sempre a memória da subida à velha ruína de Penas Róias, também ao pôr-do-sol de um longo dia de verão, depois de um dia perfeito nas escarpas do Douro. Poucos lugares detém um significado tão absoluto, para mim. Penas Róias foi durante toda a minha infância um lugar mágico, antigo e distante. Era o cenário de muitas batalhas que alimentavam as minhas noites de inverno. Histórias contadas à lareira que partiam da Canção de Rolando e iam sendo reinventadas, numa miscelânea que, para a criança que eu era, fazia todo o sentido. A minha espada, que tantas vezes imaginei na infância e que só encontrei muito mais tarde. A minha espada maravilhosa com a cabeça de um leão no punho. A minha espada que não faz de mim uma guerreira, mas que eu tenho precisamente porque sou uma guerreira.

Uma longínqua ida a uma romaria que permanece como um dia luminoso e eterno. Um monte sagrado onde nunca mais voltei, uma das muitas montanhas da minha terra. Um santuário que mal recordo, mas guardo com carinho a memória da longa caminhada que começou ainda de noite, ao luar. Um dia intenso, pleno de alegria e de deslumbramento.

A primeira vez que me senti enamorada e o modo como, para sempre, dentro de mim, as estações de comboios e, em especial, a linha do Tua, ficaram associadas a algo que nos transporta para fora de nós mesmos, a uma estranha sensação de agigantamento.

Há muitas outras memórias, que se parecem com um sonho recorrente e que me levam sempre de volta a esta terra. Esta terra que me faz esquecer as minhas viagens por outros lugares. Esta terra que me viu nascer, esta terra onde hei-de morrer. Esta terra que é minha, porque está no meu coração. Galécia... a terra que me diz quem eu sou.

quinta-feira, setembro 02, 2010

Dussaud

Le couple qui danse é o título desta fotografia, de 1981, de um fotografo maravilhoso: Georges Dussaud.
Esta fotografia está inserida num conjunto de belísssimas fotos de Trás-os-Montes e de transmontanos.
Vejamos mais dois exemplos fantásticos:

Fotografias de Georges Dussaud

quinta-feira, agosto 26, 2010

Coração Selvagem

Revendo filmes antigos...

Quando é que o Nicholas Cage nos voltou a aparecer assim tão sexy como quando estava deitado naquela cama desfeita, vestido apenas com umas calças pretas e de tronco nu? A camera mostra-o com um olhar simultaneamente inocente e perverso, enquanto os seus pés nus brincam encostados à parede.

Quando é voltamos a ver a Laura Dern assim tão descontraidamente sexy, quase inocente? Amendoinzinho, não era?... ;)

Claro que o David Lynch nos atira com imagens estilizadas, por exemplo, quando eles estão simplesmente a fumar, deitados de pernas cruzadas, como se fossem a continuação um do outro.
Ou quando nos mostra a imagem deles durante o sexo, uma imagem que se vai desvanecendo como se fosse uma memória nossa. Já para não falar daquele ícone sexual que é a mão dela com as unhas enormes e profundamente vermelhas a arranhar os lençóis. Uma mão orgásmica, que treme, contorce-se e geme...

Outra cena verdadeiramente fascinante é protagonizada pelo Willem Dafoe, dando vida a uma personagem horrível, o oposto dos nossos herói e heroína profundamente sensuais. E é esse homem, apresentado de um modo absolutamente nada atraente, que acaba por representar a cena mais forte do filme, que ultrapassa a mera excitação e passa para o puro fascínio, à mistura com um sentido de humor que é, em si mesmo, uma delícia... Então, é assim: ele bate à porta do quarto onde a heroína está sozinha, usando apenas um vestido curtinho. Ela deixa-o entrar e tudo aponta para uma violação, mas não nos podemos esquecer que é um filme do David Lynch. Hmm, não é agradável entrar num universo onde nada é previsível?... Lynch dá, então, continuação a tudo aquilo, numa cena fortíssima.
A cena em que aquele homem feio, horrível e violento, lhe sussurra "say fuck me" uma e outra vez, enquanto a mão dele desce no corpo dela até voltarmos à imagem da mão de enormes unhas vermelhas que se contorce, incapaz de não se contorcer...

Um Coração Selvagem é, de facto, um filme incendiário, não é? ;)

quarta-feira, julho 28, 2010

O livro da Viagem

Um dia peguei num livro de Bernard Werber, que me disse que eu já tinha sido todos os meus heróis. :)

É verdade. Já fui todos os meus heróis. Fui Principezinho e fui Raposa. Fui Alice no País das Maravilhas. Fui Profeta. Fui Parsifal. Fui Feiticeirinha de Abril. Fui Messias em Dune. Fui outros, muitos outros. :)

Lembro-me que na altura pensei como era fantástico que um livro me conhecesse assim tão bem.

Hoje, contudo, lamento a compreensão que apenas encontro em livros, noutros livros, muitos livros, mas ainda e só livros. É pena, pois como insistia a Yourcenar, a vida não está nos livros.


Fahrenheit 451

Um destes dias, referi um livro antigo que li há imenso tempo: Fahrenheit 451, de Ray Bradbury. Na minha adolescência, Bradbury era dos meus escritores favoritos. Os livros dele eram para mim uma verdadeira delícia. Contudo, este Fahrenheit 451 é arrepiante, por duas razões: porque nos mostra um mundo onde os livros, considerados fontes de todos os perigos, eram queimados, sendo o grau de temperatura a que se incendeia o papel o que dá o título ao romance; a segunda razão, porque é um mundo onde a felicidade era obrigatória.

Bem, um mundo de felicidade normalizada e obrigatória quase parece o paraíso, não? :P

Contudo, para aqueles para quem «queimar é um prazer» este seria um belo mundo. :)

Houve um tempo em que me interroguei se não seria uma boa prática incendiar as coisas que me incomodavam. Mas, depois pensei: e será que iria parar? Ou, simplesmente, acabava a pegar fogo a tudo o que estivesse na origem da minha estranheza ou da estranheza do mundo. Bem, é óbvio que não fiz isso, preferi deixar que a estranheza se instalasse. E, acredita, a estranheza instalou-se mesmo! :)

E a minha personalidadezinha assemelha-se, assim, um pouquinho à da miúda que atormentava o Montag, em Fahrenheit 451:

"Ela contentou-se em rir.
- Boa noite - disse. E entrou no jardim. Depois, lembrou-se de qualquer coisa, voltou para trás e pousou em Montag um olhar curioso: - É feliz?
- Sou o quê? - gritou ele."

quarta-feira, julho 21, 2010

Um recado antigo

... numa frase de Fernando Pessoa.

Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.

The Ruins of the Bishop's Palace by Edith Toynbee.





Quem somos nós?

Na verdade, quem quer que nós sejamos, somos - como disse Uxío Novoneyra, a propósito de Rosalia Castro - "donos de canto vivimos plenamente, da infancia, da mocedade: do que ela [Rosalia] chama “as galas de un día” As galas de aquel bon dia de terra... Donos inda dos soños xa perdidos e voltados porque eran verdadeiros, donos da dádiva de toda a naturaleza terra. Donos dos tres tempos, presente, pasado e futuro, nun mesmo tempo".

Wuthering Heights, paperback cover by Robert E. McGinnis (American, born 1926).